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Xadrez e poesia

 

         Por uma maldição qualquer, falta de sorte ou descuido, a verdade é que os meus versos enxadrísticos, publicados em livros, jornais e revistas, sempre apareceram truncados e até mesmo com substituições de palavras feitas à minha revelia. Assim, aproveitando essa estiagem entre um e outro torneio magistral, resolvi, corrigindo-os, exorcizar alguns fantasmas que assombram, que insultam o meu já desvalido estro.

         No livro Apontamentos para uma História do Xadrez (Da Anta Casa Editora, Brasília, 1991), o saudoso Fernando Vasconcelos registra o meu soneto à maneira de Camões, perdido de amor por Natércia:

Minh’alma é cidadela que resiste
aos golpes rudos de um destino ingente,
como os peões que a um roque, fortemente,
defendem ledos, sempre lança em riste.

Gentil esp’rança, essa de amar! Consiste
em ter-me afeito humilde e docemente
à excelsa Dama posta além, à frente
das diagonais que me fizeram triste.

Porém, alheio aos meus merecimentos,
um desengano toma-me a partida,
levando-me a ilusão de bons momentos.

E após o xeque de uma despedida,
nasce a lembrança desses lances cruentos,
que foram, bem o sei, razões de vida...

         O registro prossegue com uma quadra que eu fiz no mesmo diapasão do considerado Baudelaire:

Teu roque, esse sarcófago vazio,
de vencidos peões vermiculares,
exposto ao mal de um xeque doentio,
espalha incenso triste pelos ares.


        E, é claro, não podia faltar também um soneto no estilo de um dos poetas que mais influenciaram a minha geração, Augusto dos Anjos:

Na trágica incidência dos quadrados
cruzam-se diagonais para o infinito,
deixando um rastro de peões tombados
co’a conivência de um silêncio aflito.

Também na guerra, inúmeros soldados
que na defesa bélica de um mito
forçosamente foram convocados,
tombam no chão do Nada, sem um grito.

E no espectral tumulto das idéias,
o homem, composto de ambições plebéias,
vai compreendendo aos poucos, ainda que a esmo,

que no improfícuo anseio do combate
a vida é quem lhe dá o xeque-mate
-- pois sua luta é dentro de si mesmo.

         Essa carga dramática de meus versos, observei, provinhas de influências ilustres, como Jorge Luis Borges (“que deus por trás de Deus urde essa trama de pó e tempo, sonho e agonia?”) e Omar Khayyam (“Somos os peões da misteriosa partida de xadrez jogada por Deus...”), ambos apaixonados enxadristas. E percebi que havia um outro aspecto no universo caissano, que é a noção simplória e divertida, a fantasia que orienta o capivara.

          O poemeto a seguir parodia o famoso If, de Rudyard Kipling, e se intitula Se És Capaz...

Se és capaz..
de conservar total serenidade
ao perderes peão e qualidade;.

de não trair o desespero, o abalo,
ao deixares no ar o teu cavalo;

de não sentir (só de pensar me crispo)
incômodo nenhum soltando um bispo;
de nem sequer se revoltar co’o drama
que é, sem compensação, perder a dama;

de revelar – supremo disparate –
que estavas sem notar em xeque-mate;

de perguntar (a quem não interessa)
como foi que perdeste aquela peça;

de num joguinho assim, feijão com arroz,
não perceber que levas mate em dois;

de confessar, na confissão mais franca,
não conheceres Réti ou Capablanca;

e o que é pior, pois isso te define,
indagares “quem foi esse... Alekhine?!”;

de após um costumeiro resultado
buscares entre tantos um culpado
e espetando-lhe um dedo no seu peito,
questionares “e agora, satisfeito?”;

e se afinal, após uma derrota,
sorrindo (disfarçando ninguém nota),
vens confessar que está em paz contigo
-- então, tu és um capivara, meu amigo!

         O grande Saviely Tartakower costumava dizer que o erro era a coisa mais importante no xadrez e que sem ele o xadrez perderia a graça; parafraseando-o, acrescento que um clube de xadrez sem capivara não é um clube de xadrez.

         Uma das minhas últimas composições aborda esse tema:

A fauna é variada e divertida,
sem uma precisão de identidade,
para quem o xadrez é bem de vida,
é profissão de fé... e de vaidade!


Alguns vêm de um passado assaz recente,
outros, de nebulosas siderais...
Em comum, as orelhas para a frente
e a angústia de querer sem poder mais.

Às vezes, passa até despercebido,
sem nada ousar dizer que o comprometa;
às vezes, mais ousado e desabrido,
comete fatalmente uma falseta.

De vê-lo assim, sereno e cauteloso,
gesto medido, passo calculado,
ninguém pode julgá-lo alvo de gozo
e enxadristicamente um desastrado.

É o capivara! O eterno “mens insana”!
Alma de um clube, fecho de tabela!
Aquele que calado nos engana...
Aquele que falando se revela!

Sua inocência de principiante
faz a alegria de quem vai jogar,
pois ela com certeza nos garante
que escaparemos do último lugar...

         Para encerrar o registro, este soneto septissílabo, meu predileto – por confesso e penitente:

Na caixa dos meus trebelhos
dormitam sonhos de glória,
alguns amargos conselhos,
uma partida... uma história...

Ali, trinta e dois espelhos
refletem – viva memória –
anseios gastos, já velhos,
de alguma quase vitória.

E o meu tabuleiro a um canto,
cheio de poeira e de traços.
conserva-se em mudo espanto,

talvez por ver que ilusões,
depois dos nossos fracassos,
se perdem como peões...



                                                                                                                            (HC – in Diário Popular, 14.02.1998)
 

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