: : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :   CRÔNICAS    : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :
 

  O Príncipe e o Plebeu
 

 

 

  O Príncipe - O leitor provavelmente nunca ouviu falar do príncipe Andrey Davidovich Dadian, mas isso não constitui um desdouro para ninguém, pois, até mesmo as principais publicações sobre o assunto ignoram a existência desse ilustre desconhecido. Somente o livro russo "Dicionário Enciclopédico de Xadrez" e o italiano "Dizionario Enciclopedico degli Schacci" fazem alusão a seu respeito. Dessas fontes, extraímos as seguintes informações: o príncipe Dadian nasceu na localidade de Zugzidi em 24/10/1850 e morreu na cidade de Kiev em 12/06/1910.
    Um ardoroso adepto de Caissa, foi também um generoso patrocinador de torneios internacionais. Embora jamais tenha participado de competições oficiais, costumava disputar partidas amistosas com destacados amadores, chegando a obter expressivos triunfos que foram transformados em 1903, pelo didata russo
Emanuel Schiffers, no livro intitulado "Fins de partie de S.A.S. le Prince Dadian de Mingrelia" - numa luxuosa edição colorida, considerada atualmente uma raridade bibliográfica.

   O Plebeu - Já Miguel Tchigorin é um personagem bastante conhecido até mesmo da chamada "geração do computador". Nascido em 12/11/1850 no vilarejo de Gatchina - próximo a São Petersburgo - aprendeu os rudimentos do jogo com mais de 20 anos, mas, foi amor à primeira vista e, de pronto, ficou fascinado pelos encantos de Caissa, passando a dedicar-se de corpo e alma à causa do xadrez, tanto como jogador, jornalista e professor.
    Na condição de jogador, venceu importantes certames magistrais e, por duas vezes, desafiou o campeão mundial
William Steinitz. Embora não tenha êxito em seus intentos de chegar ao título máximo, mostrou em algumas partidas todo o seu talento e capacidade criadora. Averso ao dogmatismo da escola posicional, seguiu seus próprios caminhos e deixou um valioso legado teórico.
   Como jornalista, fez um excelente trabalho de proselitismo e durante muito tempo manteve uma seção num jornal de
São Petersburgo e passou à história também como fundador da primeira revista russa dedicada exclusivamente ao xadrez, intitulada "Shakhmatnyi Listok" (Folha de Xadrez).
    Na qualidade de professor, procurou incutir em seus alunos toda a pujança de seu estilo empreendedor e agressivo, norteando a todos dentro do preceito clássico
"vencer sem perigo, é triunfar sem glória".
    Toda essa magnífica atuação - seja como jogador, jornalista ou professor - fez com que ele fosse merecidamente reconhecido como "o patrono do xadrez russo".

    O Entrevero - Como duas pessoas oriundas de uma mesma região, porém, socialmente tão antagônicas - uma privilegiada e opulenta; a outra, um idealista que trocou a segurança de um emprego público pela incerta vida de profissional do tabuleiro - entraram em rota de colisão? O motivo do choque entre ambos, por uma ironia do destino, foi exatamente o grande fervor que nutriam pelo xadrez!
    Patrocinador do famoso
"Torneio de Xadrez de Monte Carlo" de 1903, o príncipe Dadian, ao tomar conhecimento que Tchigorin estava na lista dos jogadores convidados, declarou ao comité de organização que não admitia semelhante participação, sob pena de retirar toda e qualquer ajuda financeira!
    Surpresos com tão esdrúxula decisão, excluindo uma das principais atrações do torneio, os dirigentes procuraram descobrir o motivo dessa atitude e souberam que o príncipe estava profundamente magoado com Tchigorin por causa das críticas que fizera em sua coluna sobre as suas produções enxadrísticas, mostrando falhas gritantes e, o que é muito pior, pondo em dúvida a autenticidade das partidas!
    Diante desse impasse, os organizadores do torneio foram compelidos a comunicar a Tchigorin a situação constrangedora em que se encontravam e propuseram o ressarcimento de todas as suas despesas de viagem e mais uma razoável compensação financeira pela exclusão!
    Embora lamentando ficar privado de jogar o torneio, Tchigorin aceitou o acordo e declarou:
"Para mim que ponho a disputa enxadrística acima de qualquer ninharia dessa espécie, foi um desenlace bastante desagradável, mas, em contrapartida, fico com mais argumento para questionar o valor de semelhante mecenas"!
    A fim de que os leitores possam melhor avaliar o assunto, apresento em seguida uma partida vencida pelo príncipe, mencionada pelo didata norte-americano
Francis Wellmuth, em seu livro "The Golden Treasury of Chess", como "A mais brilhante combinação de Dadian". Já a apreciação de Tchigorin foi totalmente diferente, considerando referida partida como mais um produto de fabricação caseira!

Partida Amistosa
Zugdizi,1892

Brancas:Príncipe Dadian de Mingrelia

Pretas:M.Bitcham
PR - Defesa dos Dois Cavalos

1 e4  e5 2 Cf3  Cc6 3 Bc4  Cf6 4 d4  exd4 5 O-O  Cxe4  6 Te1 d5  7 Bxd5  Dxd5 8 Cc3  Dc4 9 Txe4+  Be6 10 Bg5  Bc5 11 Cd2  Da6  12 Cb3  Bb6 13 Cd5  h6 14 Cc5!  Db5  15 Txe6+ - diagrama nº 1 - 15 ... Rf8
Se 15 ... fxe6 16 Dh5+  Rf8 17 Cxe6+  Rg8 18 Cf6+!  gxf6 19 Dg6 mate!

 

16 Cd7+  Rg8 17 Dg4  h5 18 C(d5)f6+!  gxf6 19 Bh6+  Dg5
Se 19 ... hxg4 20 Cxf6 mate!

 

20 Cxf6 mate! - diagrama nº 2

 
 

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