: : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :   CRÔNICAS    : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :
 

  PACATO, PACATINHO, PACATAL ...
 

 

 

    No afã de fazer com que o xadrez seja reconhecido como uma prática esportiva e, por conseguinte, enquadrando- se dentro das normas estabelecidas pelo COI - Comitê Olímpico Internacional, a "Fédération Internationale des Échecs" está cogitando adotar medidas drásticas para coibir possíveis "dopings" em suas competições.
    Há alguns meses, esse órgão publicou uma extensa lista de substâncias - tranqüilizantes e excitantes - que não devem ser utilizadas pelos jogadores nem antes nem durante uma disputa enxadrística. Esse novo propósito dos atuais dirigentes da FIDE está suscitando acerbas críticas e quase todos os pronunciamentos feitos por renomados ases internacionais têm sido contra o constrangedor exame a que deverão ser submetidos os jogadores suspeitos de "doping".
    Ainda recentemente, a Internet divulgou um comunicado de autoria do Dr. Pedro O. Barrera - presidente da Comissão Médica da FIDE - abordando a questão das drogas e esclarecendo que uma reunião está marcada para 18 e 19 deste mês, na cidade suíça de Lausanne, destinada a apreciar os seguintes temas: a) definições médicas e leigas das substâncias proibidas, bem como as quantidades; b) se o teste de um jogador for positivo, quais as conseqüências e penalidades; c) quais as circunstâncias atenuantes quando certas substâncias forem encontradas na amostra de urina dos jogadores.

    Por último, referido comunicado estabelece que testes experimentais deverão ser feitos por ocasião do próximo Campeonato Mundial Feminino e Masculino por Equipes, programado para ter lugar em Istambul (Turquia) durante o período de 20/outubro a 12/novembro de 2000.

    No decorrer de minhas atividades como participante de competições enxadrísticas, só tive uma experiência relacionada com o uso de substância capaz de influir no ânimo de uma pessoa.
   Para que os leitores possam fazer um julgamento adequado a respeito deste caso, transcrevo a seguir a crônica que escrevi sobre o assunto.


    No início de 1960, após seis anos afastado das lides do tabuleiro, voltei a participar de competições no Ceará, fazendo a "rentrée" no Torneio Pré- Zonal do Norte/Nordeste. Nesse certame, o favorito ao primeiro lugar era o mestre nacional Luiz de Campelo Gentil - então líder enxadrístico de toda a região. Por esse motivo, o nosso duelo tornou- se crucial, provocando enorme expectativa: de um lado, a extensa legião de admiradores de meu adversário; do outro, a escassa torcida a meu favor.
   O clima dominante era tenso e bastante acirrado. Por causa disso, no dia desse confronto, uma solícita vizinha - totalmente jejuna em matéria de xadrez, mas muito sensível em termos de solidariedade e espírito de cooperação - apareceu em minha casa , momentos antes da refrega e deu- me um comprimido para acalmar os nervos, denominado
"pacatal". Embora contrário a esse tipo de medicamento, mas, tendo em vista a delicadeza do gesto e ao reduzido tamanho do remédio, resolvi aceitar a atenciosa oferta, certo de que não teria nenhuma influência no meu desempenho e os princípios de boa vizinhança permaneceriam intactos.
   Qual não foi o meu espanto, quando, após uma rápida e surpreendente vitória, fiquei apático, inteiramente alheio à celeuma que esse inesperado desenlace causou na expressiva platéia! Os efeitos do
"pacatal"
fizeram- me sentir distante, indiferente ao que se passava em meu redor, como se não estivesse envolvido nesse encontro e o vitorioso fosse outra pessoa!

    Com os comentários do mestre nova-iorquino Israel Horowitz, divulgados na publicação norte- americana "Chess Review", em seu número de setembro de 1960, eis a partida mencionada na crônica acima:

Pré- Zonal Norte- Nordeste    
Fortaleza, 31 de janeiro de 1960.
Brancas - Ronald Câmara        
Pretas - Luiz de Campelo Gentil

PD - Benôni ECO A66

1 d4 Cf6 2 c4 e6 3 Cc3 c5
Uma das defesas hipermodernas. As pretas provocam o avanço do PD contrário e concedem às Brancas a melhor parte das casas centrais. No curso da partida, elas esperam provar que a expansão das brancas é fraca.

4 d5 exd5 5 cxd5 d6 6 e4 g6
Até aqui tudo de acordo com os ensinamentos livrescos.

7 f4 De7?!
O último lance das Pretas, porém, revela que elas estão vagamente familiarizadas com a escola hipermoderna. Neste momento, elas vêem os peões avançados das Brancas como uma ameaça imediata, o que, de fato, eles são. E assim têm dificuldade em continuar. Bom, mau ou indiferente 7 ... Bg7 é a jogada. se 8 e5 é uma continuação ganhadora, então toda a defesa é deficiente. O lance do texto, por outro lado, expõe a dama e o rei das Pretas a um ataque frontal.

8 Be2
Uma cilada. Se 8 ... Cxe4? 9 Da4+ e ganham. Entretanto 8 Cf3!, ameaçando 9 e5 . está no espírito do ataque. As Brancas devem reservar o movimento do seu BR até que possam determinar, sem dúvida, a que casa ele pertence.

8 ... a6
As Pretas estão fazendo lances que fazem parte de um sistema de defesa. Nesta posição, contudo, eles são extemporâneos. 8 ... Bg7 e um roque rápido estão ainda em ordem.

9 Cf3  Cbd7  10 O-O  b5
As Pretas não podem ganhar um peão com 10 ... Cxe4, já que depois de 11 Cxe4  Dxe4  12 Te1, as Brancas recuperam pelo menos o peão.

11 e5!  dxe5  12 fxe5  Cxe5  13 Cxe5  Dxe5
Agora, as Pretas têm um peão a mais e uma partida a menos.

14 Bxb5+!  Rd8
É evidente que 14 ...  axb5?  15 Te1, com efeitos devastadores.

15 Te1!  Dd6
Não servia 15 ...  Dd4+ por causa de 16 Dxd4  cxd4  17 Bg5.

16 Bg5!
Com a fulminante ameaça de 17 Ce4!

16 ...  Be7  17 Txe7!  Dxe7  18 Df3!  Bg4
Não havia nada melhor. A 18 ...  Bf5  19 d6 era decisivo.

19 Dxf6, abandonam.
As Brancas obtêm demasiado material: 19 ...  Dxf6  20 Bxf6+  Rc7  21 Bc6.

 
 

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