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  O pecadilho do abade Durand
 

 

 

        O universo do xadrez tem sido povoado por figuras exponenciais das mais diversas atividades e profissões: filósofos, cientistas, escritores, artistas, médicos, advogados, engenheiros, jornalistas e, até mesmo, religiosos têm sido atraídos pelos encantos sedutores de Caíssa!

       Entre as mais importantes personalidades eclesiásticas ligadas à arte enxadrística, destacam-se: na Espanha, o bispo Ruy Lopez de Segura (1530-1580), que tem seu nome associado à plurissecular Abertura Espanhola; na Inglaterra, o reverendo John Owen (1827-1901), idealizador da Defesa Inglesa, cujo renascimento na década de 1970 causou um furor na arena internacional; e, na França, o abade Philippe-Ambroise Durand (1799-1880), pioneiro no estudo dos finais de peões. É sobre esse ultimo que pretendemos fazer uma abordagem.

       Nascido na localidade francesa de Fresnay-La-Mère em 1799, o abade Durand cedo revelou uma inteligência privilegiada e já aos 23 anos aparece como professor de Retórica no liceu de Falaise; posteriormente, passou a ser também professor de Filosofia no colégio de Lisieux. De temperamento inquieto e ávido de conhecimentos, cultivou também a Física e a Matemática: um tratado seu de Aritmética foi adotado nas escolas da Normandia.

       Com todos esses atributos de inteligência, espírito investigativo e ansioso por ampliar suas atividades intelectuais, ele encontrou no mundo dos trebelhos um campo fértil e fascinante. Muito embora não tenha participado de competições e matches, deixou um valioso legado, traduzido em alguns livros de grande valor teórico, tendo como parceiro o não menos famoso didata francês Jean Preti. É de autoria de ambos a obra "Stratègie Raisonnée des Fins de Partie du Jeu D'Échecs" (vide fac-simile), em dois volumes, editada em Paris, no ano de 1871.

       O primeiro fascículo, dedicado exclusivamente aos finais de reis e peões, serviu de base para os estudos feitos pelos consagrados finalistas André Chéron, dr. Rey Ardid, Ilia Maizelis, Yuri Averbach, Reuben Fine e tantos outros, os quais complementaram e refundiram as idéias expostas pelo abade Durand. A regra do quadrado do rei e a que diz respeito às casas de eficácia são de muito interesse prático. À luz atual da teoria, é bastante simples o princípio do quadrado, assim como passou a ser fácil também -- depois de solucionado -- colocar em pé "o ovo de Colombo"!

     O abade Durand é também mencionado na antologia inglesa "The Oxford Companion to Chess" como introdutor do termo "le trébuchet" (armadilha, no francês comum) para designar um tipo de posição, estampado no   e estudado nas páginas 34 e 35 de sua "Stratègie Raisonnée des Fins de Partie de Jeu D'Échecs".

       Nesse ponto, o abade cometeu um "pecadilho", quando diz: "nesta posição, aquele que quiser bancar o esperto e tentar ganhar, perde", citando em seguida: 1 Re5 Rc4 2 Rei move e 2...Rxd4 e as Pretas vencem". Ora, as Brancas podem "bancar a esperta" e não perder, mediante 1 Re6! Rc6 (e não 1...Rc4?, por causa de 2 Re5! e acontece "le trébuchet" - ou seja, "a armadilha" - pois as Pretas, em "zugzwang", são obrigadas a entregar o peão em uma situação desvantajosa).

       Voltando à variante principal, as Pretas afastam-se da defesa do peão, mas conseguem apenas o empate, uma vez que, após 2 Re5 Rc7! 3 Rxd5 Rd7!, as Brancas, com o lance, não podem vencer, pois o seu Rei encontra~se numa casa de eficácia relativa, em vista da localização do peão branco: se houvesse uma casa de permeio entre as duas peças brancas, a vitória estaria assegurada às Brancas, pois o seu Rei achar-se-ia então numa casa de eficácia absoluta, com a vitória garantida, independente de quem fosse a vez de jogar.

       Verifica-se assim que, ao contrário do que afirma o abade Durand, as Brancas neste caso bancaram a esperta, tentando ganhar, mas não sofreram nenhuma punição. Na realidade, as Pretas é que tiveram de jogar com muito cuidado, procurando sempre manter a oposição, a fim de conseguir o empate!

       Por último, focalizamos no  um estudo extremamente didático e elucidativo no que se refere à norma das casas de eficácia relativa e absoluta. De autoria do compositor tcheco Frantisek Dedrle (1878-1957), tem o seguinte enunciado: as Brancas jogam e ganham.

       O lance inicial aparentemente decisivo é 1 Rc3? - visando capturar o peão preto, mas permitindo 1...a3!, que asseguraria às Pretas o empate. Assim, correto é o surpreendente "retrocesso": 1 Rb1!, com o objetivo de capturar o peão e também situar o seu Rei a frente do peão branco, podendo responder 1...a3 com 2 b3!! (e, não, 3 b4?, que impossibilitaria o triunfo das Brancas) 2...Re5 3 Ra2 Rd5 4 Rxa3 Rc5 5 Ra4 Rb6 6 Rb4!, com vitória das Brancas, pois o seu Rei ocupa uma casa de eficácia absoluta.

 

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