: : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :   CRÔNICAS    : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :
 

  O BARÃO E O CAMPONÊS
 

 

 

    A história é antiga e já foi contada pelo nobre francês conde Barthélemy de Basterot, em seu"Traité élémentaire du jeu d'échecs", editado em 1853. Mesmo assim, merece ser relembrada pelo seu teor educativo. Trata-se de um duelo singular: de um lado, uma pessoa soberba e histriônica, do outro, um indivíduo modesto e comedido, mostrando que o verdadeiro valor se mede por atos e comportamentos e não por atitudes arrogantes e presunçosas.

    "O pequeno clube de xadrez de um vilarejo alemão recebeu um dia a visita de um barão vizinho, extremamente cheio de si e, sobretudo, muito convencido de seu talento enxadrístico. Ele fez um estrago terrível entre os inocentes aldeões, tal qual um lobo feroz atacando um rebanho de indefesas ovelhas. Um dia, porém, chegou na aldeia um jovem que retornava após uma permanência de vários anos em Viena, onde teve oportunidade de adquirir uma certa habilidade no xadrez.

    Tão logo chegou, tomou conhecimento da humilhante derrota de seus antigos companheiros e ousou conceber o projeto de vingá-los. Um encontro foi acertado para o dia seguinte com o terrível barão.

    À hora aprazada, o barão se apresentou altivo, o olhar penetrante como convém a um vencedor e, diante do aspecto modesto do seu antagonista, que supôs tratar-se de mais um membro do clube local, preparou-se para uma nova vitória, tão fácil quanto as anteriores.

    - E... bem, meu jovem, disse o barão, que vantagem você deseja?

    - Vós sois mui generoso, senhor barão - respondeu o camponês - mas eu não sei jogar senão em condições iguais.

      - Bem, bem, meu caro, gosto da audácia; quando estive no exército, isso há trinta anos, lembro-me de que, um dia... Mas, contarei esse episódio depois da partida. Comece, pois as peças já estão preparadas.

           O jovem inclinou-se e jogou 1 Cc3. O barão esboçou um leve sorriso e respondeu 1...e5. E o jovem, 2 Cf3.

      -  Oh! meu rapaz, que pretende fazer com esses dois cavalos entrando em jogo prematuramente? Você será obrigado a bater em retirada. Lembre-se de que se deve começar avançando os peões, assim como eu faço, 2...d6

       -  Espero ter tempo para avançar os meus peões um pouco mais tarde, retrucou tranquilamente o camponês; de resto, é o que eu vou fazer: 3 d4 Cc6 4 d5.

      - Oh! tudo isso seria muito bom, se você pudesse proteger esse peão; porém, irá verificar que não poderá fazê-lo, pois seus cavalos não permitirão.

           4...Cce7 5 e4 f5 6 Bg5.

       -  Você está equivocado, meu jovem: não percebe que será forçado a fazer uma troca ou bater em retirada... Qualquer que seja a alternativa, minha partida se desenrolará com vantagem; portanto, 6...h6 7 Bh4.

      -  Meu caro rapaz, você está esquecido de que o xadrez é um jogo de reflexão. Saiba que, com essa jogada, seu bispo está perdido. Assim sendo, eu permito que volte o lance.

      -  Eu agradeço muito, senhor barão, mas me ensinaram a não infringir as regras, principalmente jamais voltar um lance feito.

       -  Como queira. O que você disse está certo, muito embora possa parecer pretensiosa a afirmativa "eu jamais volto uma jogada". Porém, já que é assim, eis a minha resposta: 7...g5 8 Cxe5.

      -  Jovem, você jogou muito depressa. Seu bispo está atacado e você me entrega seu cavalo!

           E após ter considerado um momento a posição:

      -  Ah! é incrível! Sabia que se eu capturar agora o seu bispo, levarei mate? Entretanto, é o cavalo que eu vou capturar e não sei como você se sairá, com uma peça a menos e a outra ameaçada...

           8...dxe5.

       -  Agora, vou-lhe dar um pequeno xeque, respondeu com calma o camponês. 9 Dh5+ Rd7 10 Bxg5.

      Bravo, meu caro, Embora muito simples. estou satisfeito com esse lance; você, apesar de tudo, não joga tão mal. 10...Bg7 11 Bb5+ Rd6 12 Be3.

      -  Mais longe, mais longe com esse bispo: 12...f4 13 Bxf4.

      -  Ora, você me entrega suas peças, eu aceito: 13...exf4 14 e5+

           Nesse momento, o barão, cujo rosto estava sombrio, exclamou, após uma longa reflexão:

       -  Que coisa! Saiba que você está jogando com uma sorte extraordinária! Se eu tomasse esse peão, perderia a dama. Olhe bem, eu vou explicar isso: 14...Bxe5 15 Ce4+ Rxd6 16 Td1+. Está vendo! Felizmente, posso colocar meu rei numa casa em que estará em segurança.

           14...Rc5 15 Ca4+ Rxb5 16 De2+.

           Neste instante, o barão pensou durante muito tempo e parecia transtornado!

       -  Ah! é isso: você quer se gabar de me dar mate? Você não percebe que eu posso, sem perigo, me retirar para a5 ou capturar o cavalo. Se você me entrega todas as suas peças, a batalha terminará por falta de combatentes. Portanto, continuo com 16...Rxa4 17 Dc4+ Ra5 18 b4+.

           O rosto do barão se ruborizava mais e mais. Então, ele disse:

      -  Está fazendo um calor sufocante!

           18...Ra4 19 Db3+ Rb5 20 a4+ Rb6 21 a5+ Rb5 22 c4+ Ra6 23 b5 xeque-mate!

 

       -  Ah! Ah!, disse o barão tentando rir-se: isso é verdadeiramente engraçado! Veja bem: eu, ao invés de jogar o rei, capturei apressadamente o cavalo. De resto, estou satisfeito que essa tarde tenha terminado, pois essa partida foi destituída de qualquer interesse!

       -  Porém, replicou sorrateiramente o camponês, se o senhor barão deseja voltar o lance e não tomar o cavalo, eu continuaria com...

       -  Oh! Estou farto, interrompeu o barão se levantando, pois já havia jogado muito essa tarde e estou com uma forte dor de cabeça!

           E ele sumiu e, por muito tempo, não foi visto mais nas redondezas.

 
 

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