: : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :   CRÔNICAS    : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :
 

  UMA INSTRUTIVA LIÇÃO
 

 

 

   Há mais de meio século, um acontecimento fez época na história do xadrez brasileiro: graças à iniciativa empreendedora de Gilberto Câmara, realizou-se no período de 19.10.47 a 13.03.48 um match entre o Ceará, representado pelo Centro Enxadrístico do Clube dos Diários, e o Rio Grande do Sul, pelo Renner Xadrez Clube. Cada estado participava com dez jogadores e a cadência de jogo era um lance por dia, via "Western Telegraph" - cabo submarino - então o meio mais rápido de comunicação.

    Convictos de sua superioridade, os gaúchos fizeram uma ampla divulgação do evento, acentuando que esperavam sair vitoriosos por uma boa margem de pontos. Em outras palavras, achavam que a "Terra da luz" seria ofuscada pela força arrasadora do minuano! Qual não foi, porém, a surpresa geral, quando, concluídas nove partidas, o placar apontava uma renhida igualdade, com três vitórias para cada lado e três empates.

    A partida decisiva do match estava sendo jogada entre
Wandick Ponte (CE) e Oscar Kurtz (RS).
    Além de emérito professor e conceituado psiquiatra, o
Dr. Wandick é o último remanescente de uma geração de ouro do xadrez cearense, tendo sido campeão de Fortaleza em 1938. Ao lado de suas atividades intelectuais, ele sempre cultivou a prática esportiva, seguindo o preceito clássico "mens sana in corpore sano". E em 1998, aos 87 anos de idade, na cidade de Vitória (ES), venceu o Torneio Sul-Americano de Super-Seniôres de Natação, acrescentando mais um expressivo laurel à sua carreira de exímio nadador!

    Na citada partida, ele se houve com muito acerto, alcançando um final superior.  Entretanto, havia ainda alguns obstáculos a transpor, pois a presença de torres dificultava-lhe o triunfo. Assim, o objetivo imediato das brancas era trocá-las e atingir um final só de peões, com mais facilidade para concretizar sua vantagem.

   Para espanto de todos, quem tomou essa iniciativa foi o condutor das pretas, tendo o cuidado de incluir previamente um detalhe de aparência insignificante. Vejamos o que ocorreu:
   
39 Rf2 Rg5 40 Tf3 Rg4 41 Te3 Th7! 42 Rel Rf4 43 Te2 Rf3 44 Rd1 Th1+ 45 Rd2 Ta1! 46 a3 Tb1! 47 Rd3 Td1+ 48 Td2 Txd2+! 49 Rxd2 Re4 50 Re2 b5!

    Nesse ínterim, chegou de Porto Alegre a informação de que o grande-mestre
Erich Eliskases havia sido contratado pela Lojas Renner, fazendo com que o "capitão" da equipe cearense imediatamente consultasse o livro Jogo de Posição - de autoria desse renomado ás do tabuleiro - à cata de esclarecimento para a estratégia adotada pelas pretas no final.

    A pesquisa de Gilberto elucidou todo o assunto e, na página 51, deparou-se com a posição fixada no com o seguinte alerta: "Nessa posição, as brancas têm um peão a mais; apesar disto, não podem ganhar, por que já moveram o peão da torre, ao passo que o do adversário ainda não se moveu". Exatamente idêntico ao que havia acontecido na partida de Wandick Ponte x Oscar Kurtz!

    Diante dessa evidência, o Ceará telegrafou reconhecendo tecnicamente empatada a posição e, por consequência, encerrando esse memorável match, sem vencido nem vencedor.

   Essa história teve ainda um interessante desdobramento. Passados 15 anos, no Torneio Latino-Americano realizado em 1962, no famoso balneário argentino de Mar del Plata, tive oportunidade de aplicar no campeão peruano Carlos Espinoza a instrutiva lição aprendida no encontro entre gaúchos e cearenses.

   Nossa partida - C. Espinoza x R. Câmara - fora adiada na posição estampada no  e Espinoza propôs empate, arguindo que o seu rei estava bem colocado, impossibilitando que o peão de vantagem das pretas atingisse sua coroação. Recusei a oferta, dizendo-lhe que estava ganho, pois o peão da torre (h7) ainda estava na casa inicial!

   Espinoza achou que a minha afirmativa era uma broma e pediu a opinião do grande-mestre tcheco Ludek Pachman, que estava jogando o Torneio Magistral, realizado também em Mar del Plata, no mesmo local do Latino-Americano. Pachman examinou rapidamente a posição e declarou que a minha afirmativa não tinha fundamento e que era uma "tonteria".

   Nessa mesma ocasião, passava o grande-mestre Erich Eliskases e pedi-lhe a opinião sobre o detalhe que havia mencionado. Ele atendeu ao meu pedido e durante uns 15 minutos examinou a posição, para me responder: "Não cheguei a uma conclusão, mas acho muito interessante a sua observação". Lembrei-lhe, então, do que ele no momento não se recordava: "Grande-mestre, aprendi a importância de conservar o peão da torre na casa inicial no seu livro Jogo de Posição, ao ensejo do match Ceará x Rio Grande do Sul, em 1947".

Eis como se desenrolou esse final:
41 Re3 Rd5 42 Rf3 Rg5 43 Rg3 f6 44 Rf3 Rf5 45 Re3 Rg4 46 Re4 f5+ 47 Re3 g5 48 Re2 Rf4 49 Rf2 Re4 50 g3 f4 51 gxf4 gxf4 52 h4
As brancas abreviam o desenlace; maior resistência oferecia 52 Re2 f3+ 53 Rf1 Re3 54 Re1 f2+ 55 Rf1 Rf3! e as pretas venceriam. Isso, somente porque o peão preto da torre do rei (h7) ainda se encontra em sua casa de origem, pois se estivesse em h6, as brancas empatariam com 56 h4! Como o peão-h ainda não se movimentou, após 56 h4, as pretas contestariam com 56...Rg3 57 h5 h6!, alcançando finalmente a vitória!
 52...Rf5 53 Rf3 h5!, 0-1. As brancas abandonaram.

 
 

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