: : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :   CRÔNICAS    : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :
 

  UM PREITO DE SAUDADE
 

 

 

      Em 1949, o "Clube de Xadrez do Rio de Janeiro" - palco de tantas memoráveis competições - serviu de sede a um certame nacional destinado a ocupar uma posição de destaque na história do enxadrismo brasileiro pela quantidade e qualidade de seus participantes.

     Reunindo nomes consagrados e jovens promessas, num total de 22 jogadores - todos contra todos - esse certame teve um empolgante desenrolar, polarizando durante cerca de um mês as atenções dos aficionados. 

      As revelações desse campeonato foram o mineiro Eugênio German e este cronista, estreantes nesse tipo de competição que dividiram o 3º lugar e, por causa dessa performance, fizeram jus ao título de mestre nacional, outorgado pela Confederação Brasileira de Xadrez.

    Com 18 anos apenas - precoce para aquela época - German viria a ser um dos mais fortes jogadores do país, com atuações marcantes e conquistas meritórias, como aconteceu na Olimpíada de Helsinque, 1952, ao obter o titulo de mestre internacional, láurea concedida pela primeira vez a um enxadrista brasileiro.

     "Eu ... gênio", como era tratado de forma amável por seus conterrâneos, tinha um temperamento introspectivo, pouco expansivo e muito retraído; no tabuleiro, porém, revelava toda a sua exuberante personalidade, com uma garra e impetuosidade extraordinárias, merecendo de Gilberto Câmara o expressivo epiteto de "O Tigre de Bengala ... montanhês"., em alusão não só a sua força enxadrística, mas, também, pelo fato de ser originário da "Terra das Alterosas".

     De estilo predominantemente posicional, forjado nos princípios estratégicos de Nimzowitsch - formulados em seu livro clássico "Meu Sistema" - German sobressaia também por ser um obstinado pesquisador, realizando seu preparo técnico baseado em variantes consideradas inferiores, as quais procurava reabilitar com novas idéias e concepções.

     Em 1951, no 19º Campeonato do Brasil efetuado em Fortaleza, ele fez uma estréia aparentemente desastrosa, perdendo para o mestre carioca José Tiago Mangini, então ocupante do trono brasileiro. Na realidade, essa derrota foi benéfica para German, servindo como uma ducha em suas ansiedades e fazendo com que ele equilibrasse os nervos, realizando uma excelente campanha, culminando com sua vitória final.

     Somente 21 anos depois, ele voltaria a bisar esse feito, ao conquistar em 1972 na cidade catarinense de Blumenau, o título de campeão brasileiro. É interessante observar que, igual ao ocorrido anteriormente, ele iniciou esse campeonato com um tropeço, perdendo para o mestre paranaense Vitório Chemin. Como ocorreu em Fortaleza, essa derrota foi também salutar, pois, em seguida, ele redimiu-se com um esplêndido desempenho, finalizando em 1º lugar!

     Com esse triunfo, German credenciou-se a ocupar o 1º tabuleiro da equipe brasileira que participou em 1972, na cidade de Skopje (Macedônia) do 20º Campeonato Mundial das Nações. Nessa competição olímpica - a terceira de sua carreira - ele conseguiu um resultado satisfatório, fazendo 60% dos pontos possíveis, confirmando assim o título de mestre internacional obtido na Olimpíada de Helsinque, 1952!

     Por força de suas obrigações profissionais como engenheiro, foi compelido a deixar de participar de competições, dentro e fora do país, encerrando aos 41 anos uma brilhante atuação no mundo dos trebelhos!

     Como término desse registro e confirmando a sua capacidade criadora, lembramos que, no Campeonato Brasileiro de 1951, ele venceu quatro partidas, graças principalmente aos seus preparativos domésticos! Contra três adversários ( Jorge de Lemos - na 8ª rodada; Fernando de Vasconcelos - na 10ª rodada e  Nilde Froes Garrido - na 17ª e última rodada) German, conduzindo as peças pretas, chegou à posição do diagrama nº 1.

     Conhecida como "Variante de Moscou". a linha de jogo que se inicia da úiltima jogada das brancas 9 De2 foi a "vedette" do Campeonato Mundial de 1948 e apontada como o sistema mais eficaz para demolir o esquema defensivo escolhido pelas pretas. Em seu livro "The World Championship 1948", o mestre inglês Harry Golombek, ao fazer uma apreciação teórica sobre esse campeonato, afirma: "Em primeiro lugar, rnerece ser ressaltada a destruição da variante aberta da defesa Morphy na Abertura Ruy Lopez, em virtude da linha de jogo que decorre da jogada 9 De2".

     Acontece que, em seus estudos caseiros, German descobriu o antídoto capaz de anular os efeitos letais da "Variante de Moscou" (vide essas três partidas em anexo). Por último, consignamos que na 2ª rodada do mencionado Brasileiro de Fortaleza, diante do veterano heptacampeão nacional dr. João de Souza Mendes, German teve oportunidade de introduzir uma novidade constante de seu arsenal de armas!

     Eis como ocorreu esse duelo , que foi considerado a mais bela partida desse campeonato:

XIX Campeonato do Brasil       
Fortaleza, 06 de julho de 1951.
Brancas - J. Souza Mendes     
Pretas - Eugênio German         
PD - Defesa eslava (ECO D 19

1 Cf3 d5 2 d4 Cf6 3 c4 c6 4 Cc3 dxc4 5 a4 Bf5 6 e3 e6 7 Bxc4 Bb4 8 0-0 0-0 9 De2 Bg4 10 h3 Bh5 11 Td1 Cbd7 12 e4 De7 13 e5 Cd5 14 Ce4 = diagrama nº 2 =
Até aqui seguiu as pegadas da partida R.Câmara x E. German, Campeonato Brasileiro de 1949, que teve o seguinte desenrolar: 14 ... h6?! 15 g4 Bg6 16 g5 hxg5 17 Bxg5 f6 18 exf6 gxf6 19 Bh6 Tf7 20 Ch4 Bxe4 21 Dxe4 f5 22 Dg2+ Rh7 23 Dg6+ Rh8 24 Dh5 C(7)f6 25 Dg5 Rh7 26 Dg6+ Rh8 27 Dg5 Rh7 28 Dg6+ Rh8 empate. Em suas pesquisas caseiras, German encontrou uma melhor continuação para as Pretas e. neste momento, teve a chance de adotá-la.

14 ... Rh8! 15 Bg5 f6 16 exf6 gxf6 17 Bh6?
O que foi satisfatório na citada partida R.Câmara x E. German, agora se revela inadequado, servindo somente para intensificar a ofensiva das Pretas. Era preferível 17 Bh4.

17… Tg8 18 Cg3 Bf7 19 Bd3 Bd6 20 Cf1? Bf4!
Esta estocada marca o início de um ataque arrasador!

21 Bxf4 Cxf4 22 De4 Cxh3+ 23 Rh2 f5 24 De3 Cg5 25 Ce5 Bh5 26 Te1 f4! = diagrama nº 3 =
Mediante este oportuno sacrifício, as Pretas arregimentam todas as suas forças para o assalto final. Se agora 27 Dd2? Cxe5 28 Txe5 Cf3+!! E o resto é silêncio...

27 Dxf4 Taf8! 28 De3 Cf3+!
A ofensiva é efetuada de forma inspirada e incisiva.

29 Cxf3 Txf3! 30 Dd2 Dh4+ 31 Rg1 Th3! 32 Cg3
Louve-se a tenaz resistência daquele que foi "A Palmeira Imperial do Xadrez Brasileiro", fazendo lembrar os versos finais de Demócrito Rocha, em seu poema sobre o Rio Jaguaribe: -
"e, nos últimos arrancos - vai morrendo e resistindo, morrendo e resistindo, morrendo e resistindo".

32 ... Tgxg3! 33 fxg3 Th1+ 34 Rf2 Dxd4+ 35 De3 Dxb2+ 36 Be2 Cf6!
Quando parecia que as Brancas haviam contornado todas as dificuldades, eis que entra em cena um coadjuvante decisivo das Pretas.

37 Dxa7
Após 37 Txh1 Cg4+ 38 Re1 Dxa1+ 39 Rd2 Db2+ 40 Re1 Cxe3 e ganham. Por outro lado, se 37 Dxe6 Dd4+ 38 De3 Ce4 mate!

37...Cg4+ 38 Rf3 Df6+! As Brancas finalmente abandonaram. Depois de 39 Re4 Bg6 já era mate!

     Assim jogava o emérito mestre internacional, bicampeão brasileiro e engenheiro Eugênio Maciel German que, no dia 1º de abril, enlutou o xadrez brasileiro com o seu falecimento!

 

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