: : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :   CRÔNICAS    : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :
 

  O COMETA DE HALLEY DO TABULEIRO
 

 

 

   Na história da Astronomia, o nome do cientista inglês Edmond Halley (1656-1742) passou a designar um cometa, em reconhecimento por ele ter calculado sua órbita com uma precisão matemática! Visível de 76 em 76 anos, o cometa de Halley é considerado uma raridade e somente irá reaparecer no ano de 2062 !

    Na prática enxadrística, existe um final que, por sua singularidade e pouco freqüência, é conhecido pela denominação de "cometa de Halley do tabuleiro". Trata-se do final de Rei e dois Cavalos contra Rei e um Peão. O pioneiro de seu estudo foi o russo Aleksey Troitsky (1886-1942) que dedicou 60 páginas de sua coletânea "Chess Studies" à análise desse intrincado final. Já o espanhol Carlos Lafora (1884-1966) não fez por menos: o seu livro "Dos Caballos en combate", de 201 páginas, tem e como tema única e exclusivamente o "cometa de Halley do tabuleiro".

    É digno de referência também o excelente artigo do gm norte-a americano Andrew Soltis (1947), intitulado "Be Sure You're Ready For Halley’s Comet", publicado na revista "Inside Chess" junho/1990), que traz ocorrências curiosas, merecendo destaque a coincidência de ter surgido por duas vezes no Torneio Aberto de New York em 1960 e o estarrecedor recorde do longevo gm russo-húngaro Andor Lilienthal: em três oportunidades diferentes, ele esteve do lado superior desse final e não soube ganhá-lo!

    Tudo isso foi-me suscitado pelo aparecimento do "cometa de Halley do tabuleiro" por ocasião do recente 9º Torneio Amber, realizado no Principado de Mônaco. Aconteceu esse fenômeno na partida rápida (25m para cada lado) jogada na oitava rodada entre o gm búlgaro Vesselin Topálov e o ex-campeão mundial Anatole Kárpov.

    Antes de entrar nos detalhes desse final, vejamos, em linhas gerais, os seus fundamentos, recorrendo para isso aos valiosos préstimos do gm Paul Keres (1916-1975), em seu livro "Practical Chess Endings", partindo da posição estampada.

    "Devemos mencionar um final que tem pouco valor prático, mas sobre o qual o leitor deve conhecer alguma coisa: dois cavalos contra um peão. É bem sabido que dois cavalos não podem forçar o mate por causa do perigo do "pate". Como a presença de um peão adversário remove esse perigo, em certas posições um ganho é possível.
  
Uma grande quantidade de pesquisa tem sido feita a respeito desse final, particularmente pelo compositor de estudo Aleksey Troitsky, mas não pretendemos aqui nos aprofundar sobre o assunto. Eis um diagrama para ilustrar as regras principais a serem adotadas.
  
É evidente que o peão preto deve ser bloqueado por um cavalo até o último minuto possível, ou então, ele irá simplesmente em frente e sacrifica-se, quando os dois cavalos não poderão executar o mate. Ficamos com a importante questão de saber em que casa deve ser parado. No diagrama acima, foi feita uma linha que não deve ser ultrapassada se as Brancas quiserem ganhar. Se o peão está situado atrás dessa linha, as Brancas sempre vencem, porém se o peão tiver ultrapassado, as Brancas só ganham com suas peças colocadas favoravelmente". Aqui terminam os esclarecimentos do gm estoniano.

    Resta, agora, apreciar o final entre Topálov x Kárpov. A situação  focaliza o instante em que se configurou "o cometa de Halley do tabuleiro", após o 61º lance das Brancas e tem as seguintes peculiaridades: o peão preto já ultrapassou "a linha demarcatória", constituindo um trunfo para Kárpov alcançar o empate; contudo, em contrapartida, as peças de Topálov estão situadas favoravelmente. Há ainda um detalhe sumamente importante: a exiguidade de tempo de ambos os contendores para calcular todas as nuances desse complicado final.

    Sem perder de vista esses detalhes, vejamos então como se processou a última etapa desse duelo:

61 ... Rc3 62 Rc5 Rd3 63 Cde2 Rd2 64 Rc4 Rc2 65 Cd4+ Rb2 66 Rb4 Ra2 67 Cdf5! Rb2 68 Ce3! Ra2 69 Cc4 Rb1 70 Rc3 Rc1
 Se 70 ... Ra2 71 Rc2 Ra1 72 Ce2! g3 73 Cc3 g2 74 Cd2! g1=D 75 Cb3++.

 71 Cb2 Rb1 72 Cd3 Ra1 73 Rb3 Rb1 74 Ce2!, abandonam.
Após 74 ... g3 75 Cc3+ Ra1 76 Ce1! g2 77 Cc2++.

    Por último, esperamos, com essa abordagem sobre o "cometa de Halley do tabuleiro", ter contribuído para que o leitor - seja qual for o lado em que se encontre - possa enfrentar com conhecimento de causa as dificuldades de tão complexo final.

 
 

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