: : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :   CRÔNICAS    : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :
 

  UM PECADO CAPITAL
 

 

 

    Em fins do ano passado, por ocasião da inesperada morte do grande-mestre inglês Anthony Miles ocorrida a 12 de novembro de 2001, todos os necrológios a seu respeito foram unânimes em ressaltar os seus méritos e extraordinárias façanhas que lhe garantiram ficar, durante algum tempo, entre os mais fortes jogadores do mundo!

     Dentre os seus mais expressivos feitos, sobressaem o seu triunfo no campeonato mundial juvenil de 1977; a glória de ter sido o primeiro enxadrista inglês a conquistar o título de grande-mestre e, por último, mas não menos importante, a superação do tabu - até então existente entre os seus compatriotas - de que os jogadores soviéticos eram imbatíveis!
 

     Uma prova disso é o fato de que, na galeria de seus troféus, figuram com destaque os escalpos dos famosos campeões mundiais: Boris Spassky, Miguel Tal, Anatole Karpov e Vassili Smyslov. Sobre o assunto, um veterano grande-mestre da União Soviética, queixava- se dizendo: "Gosto muito dos jogadores ingleses, com exceção do Miles — ele não nos trata com o respeito que costumávamos ter".

     Com todas as qualidades de exímio estrategista e hábil tático, Miles também tinha o seu ponto vulnerável, o seu tendão de Achilles: quando se defrontava com um ilustre desconhecido, sem fama e titulação internacional, ele tinha o mau vezo de achar que não precisava fazer força e trabalhar a partida, certo de que a vitória viria sem esforço e bastava o seu nome para amedrontar o adversário, tornando-o uma presa fácil! Assim agindo, cometia um pecado capital ao deixar de observar a sábia advertência feita há milênios em seu tratado "A Arte da Guerra" pelo filósofo chinês Lao Tsu: "De todos os perigos, o maior é subestimar o inimigo!"

     E foi exatamente isso o que houve na 3ª rodada do Torneio Internacional "Cidade de São Paulo" em 1977. Naquela oportunidade, seu opositor foi o jovem paulista Jaime Chaves que estava ensaiando os primeiros passos numa competição de alto nível. Tratava-se portanto de uma luta desigual: de um lado, um consagrado grande-mestre, de renome internacional; do outro, um jogador iniciante em disputas magistrais, procurando compensar com arrojo e combatividade a sua falta de experiência e maturidade enxadrística. Mesmo com tamanho desequilíbrio de forças, havia de permeio uma particularidade capaz de inverter o resultado da partida: o convencimento de Miles e a maneira displicente de encarar um confronto com um simples estreante. Vejamos então o que aconteceu:

Torneio Internacional "Cidade de São Paulo"
São Paulo, junho de 1977.
Brancas - Anthony Miles
Pretas - Jaime Chaves
Abertura Inglesa
ECO A 27   

1c4
Já em 1500, Lucena e Ruy Lopez mencionavam esta jogada em seus escritos, sendo que o bispo espanhol alertava: "trata-se de um lance muito ruim que nenhum jogador devia adotar". Nos tempos modernos, inúmeros são os seus adeptos, por causa principalmente de seu caráter flexível, podendo transformar-se numa Abertura Réti, Catalã ou mesmo numa Siciliana com as cores invertidas. Quanto à sua denominação, deve-se ao mestre inglês Howard Stauton - um dos seus mais fervorosos admiradores.

1...e5 2 Cc3 Cc6 3 Cf3 f5 4 d4 e4 5 Cd2 Cf6
Ilusório era 5.. .Cxd4? 6 Cdxe4 Cxe2? 7 Dxe2 fxe4 8 Dh5+ Re7 9 Cd5+ Re6 10 g3! e, por um simples peão, as Brancas teriam uma arrasadora ofensiva!

6 e3 g6
Um amálgama de Holandesa, India do Rei e variante São Petersburgo (Leningrado) - o sistema empregado pelas Pretas para enfrentar a Inglesa é bastante agudo e promissor.

7Be2 Bg7 8Tb1 a5
A idéia desta continuação é abrir a coluna TD e, por via de conseqüência, pôr em jogo a inativa Torre de "a8".

9 a3 0-0 10 b4 axb4 11axb4 Ce7 12Db3
Na "Encyclopaedia of Chess Openings" - tomo A - editada em 1979, pg. 162, o gm Viadimir Bagirov considera apenas duvidoso o lance do texto, sugerindo em seu lugar 12 0-0, seguido de 13 Dc2; já em seu livro "A Abertura Inglesa", publicado em 1989, pg. 127, a jogada 12 Db3 é apontada pelo mesmo Baglrov como um erro, devendo ser substituida por 12 0-0 e 13 Dc2 ou 13 f3, com posição equilibrada

12...d6 13 b5 Rh8 14 Ba3?!
Como os futuros acontecimentos revelarão, este desenvolvimento do Bispo contribuirá para o êxito da ofensiva das Pretas. Era preferível 140-0, com chances de suportar a próxima avalancha
.

14..f4!
Mediante este sacrifício, as Pretas começam um inspirado plano de ataque
.

15 Ccxe4 fxe3 16 fxe3 Cxe4 17 Cxe4 Bf5 18 Bd3 Cd5!!
Corolário da seqüência combinatória iniciada com 14.. .f4!, este pseudo-sacriflcio mostra a fragilidade da posição das Brancas, pois se 19 cxd5? Bxe4 20 Bxe4 Dh4+ 21 g3 Dxe4, com superioridade esmagadora
.

19 0-0 Cxe3 20 Tf3 Dh4
Momento crítico. Há 25 anos, quando esta partida foi jogada, os programas eletrônicos de jogar xadrez estavam ainda engatinhando e serviam apenas como fontes de entretenimento; hoje em dia, com o progresso estupendo havido, esses aparelhos são poderosas armas de consulta e análise. Assim, esta entrada da Dama no combate parecia ser a alternativa indicada. Já o programa "Fritz 7.0" contesta a sua eficácia, enquanto que o "Chess Tiger 14.0 vai além e "brinda" o lance do texto com duas interrogações! Ambos preferem a continuação 20. ..Cxc4!? 21 Bxc4 Bxe4 22 Txf8+ Dxf8, com vantagem decisiva para as Pretas
.

21 g3
O "Tiger" contesta esta jogada e aponta 21 Txe3 Txa3 22 Dxa3 Bxd4 23 Rh1 Bxe3 24 Cxd6 Bxd3 25 Dxd3 cxd6 26 Dxe3 Dxc4 27 De1, embora reconheça que, mesmo neste caso, as Pretas estariam melhores.

21 ....Dg4 22 Txe3 Txa3!
Errôneo teria sido 22. ..Bxd4? em face de 23 Bb2!

23 Dxa3 Bxd4 24 Rg2?
Abrevia o desenlace. O Fritz e o Tiger recomendam 24 Rh1 Bxe3 25 Db2+ Rg8 26 Dg2 e embora as brancas estivessem inferiores, ainda haveria muita luta.

24..Dh3+ 25 Rh1 Bxe4+!
Abandonam. Após 26 Txe4 Tf2! era decisivo
.

Esta foi indiscutivelmente a mais bela produção do torneio, digna de figurar numa antologia de partidas brilhantes!

 
 

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