: : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :   CRÔNICAS    : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :
 

  Mônaco & Cannes - 2
 

 

 

A - Br. jogam e ganham


B - Mate em 3 lances

     FIDE, em sua exacerbada cupidez monetária, dando ênfase maior a competições levianas (diminuição drástica no tempo de duração das partidas), está quase conseguindo transformar o plurisecular e científico jogo de xadrez numa lotérica e burlesca exibição circense. Melhor, para quem for do ramo - aqueles que já nasceram dando susto no obstetra ou provocando a gargalhada debochada da parteira.

     No match final do World Cup Rapid Chess, março 23-25, com uma cadência de 50 lances em 25' (depois desse controle, 10 segundos por lance), na última e decisiva partida, chegou-se à seguinte posição do diagrama:
:

     Aqui, Kasparov jogou 44 Rd3 e abriu um sorriso corinthiano, de orelha a orelha, indutor do imediato abandono de Bareev.

     Realmente, depois de 44 ... Rb6 45 Rc4 Rc6 46 a4!!, as brancas vencem.

   Para quem não sabe, Kasparov é o rei dos histriões e para cada situação ele usa uma máscara específica. Quando está perdido olha o teto e penteia com as mãos sua cabeça de cabelos milimétricos; se a posição estiver equilibrada, ele não se move da cadeira e, com as mãos nas têmporas, aperta sua cabeça com tal força que há quem duvide se os seus olhos vão ou não saltar das órbitas; quando se sente ganho, sorri à toa e cumprimenta a todo mundo com simpáticos meneios de cabeça.

    Se fosse um insensível computador (que nada vê, mas tudo enxerga) no lugar de Bareev, teria seguido com 44 ... Rc6!! (é mister "jogar errado" para compensar o "tempo frouxo" do peão branco de a3) 45 Rc4 Rd6  46 Rb5 (se 46 a4? Rc6!-) 46 ... Rd5 47 Rxa5 Re4  48 Rb6 Rxf4  49 a4 Rg4  50 a5 f4  51 a6 f3  52 a7 f2  53 a8=D f1=D, empatando. Evgeny "Baggio" Bareev.

     
    No 10º Amber Chess Tournament (rápidas e às cegas), realizado entre 17 e 29 de março, o resultado final combinado registrava: 1/2.Topalov (7/8) e Kramnik (7,5/7,5) 15 pontos em 22 possíveis; 3.Anand (6,5/7) 13,5; 4.Shirov (4,5/7) 11,5; 5/6.Gelfand (7,5/3,5) e Leko (5,5/5,5) 11; 7.Piket (5/5,5) 10,5; 8/9.Ljubojevic (3,5/6) e Almasi (4/5,5) 9,5; 10/11.Ivanchuk (5/4) e Karpov (5,5/3,5) 9; 12.Van Wely (4,5/3)7,5.

Anand,V (2790) - Topalov,V (2718) [B33]
Amber2001 Monaco (9), 27.03.2001
1.e4 c5 2.Cf3 Cc6 3.d4 cxd4 4.Cxd4 Cf6 5.Cc3 e5! 6.Cdb5 d6 7.Bg5 a6 8.Ca3 b5 9.Bxf6 gxf6 10.Cd5 f5 11.c3 Bg7 12.Bd3 Be6 13.Dh5 0–0 14.0–0 f4! 15.Tad1 Rh8 16.g3 Tg8 17.Rh1 Bf8 18.Be2 Tg5! 19.Df3 f5! 20.gxf4 exf4 21.Cxf4 Bxa2 22.exf5 Txf5 23.De4 Tf7 24.Bh5 Tf6 25.c4 Ce5 26.c5 Tc8 27.cxd6 Bxd6 28.Be2 Df8 29.Ch5 Txf2 30.Cc2 Cd3!, 0–1.


Peões

     Todo final de partida é potencialmente um final de peões. Um final de torre, por exemplo, em que há uma vantagem de 3 x 2 peões, o condutor do bando em superioridade estará sempre pensando "se eu conseguir trocar as torres, esse final de peões ficará ganho para mim". O mesmo ocorre com todos os outros finais.
     E se nem houver peões no tabuleiro (?), alguém por certo há de indagar. Aí, então, meu amigo, o que você estará examinando nem é final -- é estudo, é composição, é uma excepcionalidade que dificilmente ocorrerá numa partida prática.
     Não era à toa que
Capablanca assegurava ser o conhecimento de finais a pedra angular para quem quisesse ser um grande jogador. E ele recomendava que se iniciasse tais estudos pelos final de peões.
     Se
Philidor dizia a seu tempo (1790) que "os peões são a alma do xadrez", hoje, em termos modernos, podemos dizer que "os peões são a radiografia exata de uma partida de xadrez em todas as suas etapas". Por suas formações estruturais ou condicionamento, não é difícil inferir, tanto na abertura como no meio-jogo e final, se a posição está igual, se alguém está melhor, se está bem superior ou completamente ganho.
     A pobreza de movimento dos peões provoca um fenômeno interessante: se na abertura e meio-jogo os peões defendem seu rei, no final é o rei quem protege seus peões. Assim, salta aos olhos que num equilibrado final de peões será sempre a atuação dos reis que determinará o resultado da partida. Há quem prefira dizer que está "jogando um final de reis" -- no que eu concordo plenamente. Peões há em todos os finais, mas esses são conhecidos pela peça que restou no tabuleiro. Sem peças, portanto, a cena pertence aos reis em luta.
     Parece incrível, mas a cristalização de alguns importantes preceitos básicos do final de peões (exceptuando-se os trabalhos de
F. Durant entre 1860 e 1874) datam da década de 1920, com a publicação de F. Dedrle sobre a teoria das casas críticas (do seu compatriota tcheco Jan Drtina) e os estudos do soviético N. Grigoriev, sobre as casas conjugadas.
    
Segundo Maizelis, "os finais de peões podem subdividir-se em dois grupos: dinâmicos (peões móveis) e bloqueados (peões fixos). E ele não se esquece de assinalar que "na prática, conhecemos posições do tipo intermediário (peões fixos e móveis)". Justamente onde se enquadra o final dessa partida Kasparov-Bareev.

      Com relação ao "tempo frouxo" (ou solto), vejamos a princípio o DIAG. 1 , resultante da partida Gruber-Sharkozy, Budapeste, 1926. Aqui, as brancas jogaram corretamente o "errado" 1 Rd1!, levando em conta que há um "tempo solto" a ser executado (por qualquer um dos dois) na casa a3. No caso do "correto" 1 Rc1? Rd3 2 Rd1 c2+ 3 Rc1 Rc3! 4 a3 (esse, o lapso fatal) 4...Rb3, vencendo.
    
Depois de 1... Rd3 2 Rc1 c2 3 a3 (o tempo exato de que as brancas dispunham para restabelecer a verdadeira oposição) 3... Rc3, pat.


    
Um outro exemplo bem elucidativo desse tema de "tempo solto" vamos encontrar no estudo de A. Dobiash, 1926 (DIAG. 2), hoje em dia incorporado à teorica básica desse tipo de final. O enunciado garante que as brancas jogam e ganham.

1 Rd4!
Aí está, outra vez, o lance corretamente "errado", sem fazer uma oposição direta ao rei contrário, porquanto existe um "tempo solto" com o peão de g6. No caso do erradamente "correto" 1 Rd5?, o rei preto escorregaria pela retaguarda das brancas para atacar o peão de f2, provocando o empate. Por ex., 1 Rd5? Rb4! 2 Rd4 Rb3! 3 f4 Rc2. Outro erro de pseuda "exatidão" seria 1 f4? Rc4 2 Re5 Rd3! 3 Rf6 Re3, empatando.

1... Rc6
Agora, se as pretas fizessem a oposição 1...Rb4, aí, sim, se faria sentir o golpe desnorteador 2 f4!, desequilibrando por completo a ação do rei contrário.

2 Re5 Rc5 3 f4!!
Este lance retoma a oposição, desequilibra o rei preto (que já não dispõe de ataque pela retaguarda das brancas e nem pode mais voltar para defender seu peão de g6) e ganha a partida.

Para ilustrar a versatilidade de um rei, vejamos o seguinte e ilustrativo exemplo do DIAG. 3, ocorrido na partida Snage-Auhes, 1921.

Aqui, seguiu 1 Re6! Rc3 2 Rd6?? Rd4! 3 Rc6 Re5!! 4 Rb7 Rd6 5 Rxa7 Rc7, empate.

Se as brancas tivessem extraído o máximo da potência do seu rei, o resultado seria outro: 1 Re6! Rc3 2 Rd5!! Rd3 3 Rc6 Rd4 4 Rb7 Rd5 5 Rxa7, ganhando.

Observem a diferença dos quatro lances que o rei branco pode fazerpara chegar ao peão preto de a7. O linear e descolorido caminho e7/d7/c7 e b7 leva ao empate. Já o bamboleante e estorvador percurso e6/d5!/c6 e b7 conduz à vitória e revela essa desconhecida e pouco exaltada força real.

Para finalizar, dois estudos de final de... rei. O primeiro, pura imaginação; o segundo, técnica pura.

DIAG. 4 -- Estudo de A. Kovalenko, Shajmaty Listok, 1927 (As brancas jogam e empatam).

1 Rc6!
As brancas se dispõem a "correr", posto que se 1 e3? fxe3 2 fxe3 f4-+ ou 1 f3? exf3 2 exf3 Rb4-+.

1... Rb4
As pretas aceitam a "corrida", uma vez que nada conseguiriam com 1...e3? 2 fxe3 fxe3 3 Rd5 Rb4 4 Rd4!=.

2 Rd5 Rc3 3 Re5 e3!
Não funcionaria 3...Rd2? 4 Rxf4 Rxe2 5 Rxf5=. Depois do lance do texto, as brancas parecem perdidas: 4 fxe3 fxe3 5 Rf4 Rd2 6 Rf3 f4!, ganhando.

4 Rxf4!!
Espetacular e único para salvar a partida.

4... exf2 5 Re3!!, empate.

Se 5...f1=D (ou T), empate por afogamento. E se 5...f1=B 6 Rf4 Bh3 7 e4!, empatando.

Nesse último exemplo de V. Tchekover, Sovietskaia Rossija, 1956  (DIAG. 5), as brancas jogam e empatam.

As brancas, como veremos a seguir, não têm como impedir um vitorioso peão passado das pretas em d4. Como empatar, então?

1 Re4 c6 2 Rf5! d5
A ameaça era 3 Re6, ganhando. Agora, se 3 cxd5 cxd5, as brancas estariam perdidas.

3 Re5! d4
Agora mesmo é que não se vê como impedir a participação ganhadora do rei preto...

4 Re4 Rg7 5 Rd3!!
As brancas não podem pisar em falso uma única vez. Por exemplo, 5 Rf4 Rg6 6 Rg4 Rh6 7 a3 Rg6 8 h5+ Rg6 9 a4 d3! 10 Rf3 Rxh5 11 Re3 Rg4 12 Rxd3 Rf3, ganhando. No entanto, com o lance textual, as pretas passam a dispor de um peão passado, livre, e um rei ameaçadoramente participante.

5... Rg6 6 Rc2!! Rf5!
O lance absurdo 6 Rc2!! delata todo o mecanismo de empate. Se 6...Rh5 7 Rb3! Rxh4 8 Ra4! d3 9 Ra5!! d2 10 a4 e as brancas teriam provocado um auto-afogamento, empatando.

Há aqui uma subvariante enriquecendo ainda mais esse estudo. Seria 7...Rg4! 8 h5 Rf3  9 h6 d3 10 Rc3!! e esse lance evitaria a troca de damas, que adviria de 10 h7?? d2 11 h8=D d1+D+ 12 Ra3 Dc1+ 13 Rb3 Db1+!, ganhando.

7 h5!
Outra arapuca: 7 Rb3? Re4 8 h5 d3! 9 h6 Re3!! 10 h7 d2 11 h8=D d1=D+ 12 Ra3 Dd3+ 12 Rb2 Dd4+, ganhando.

7... Rg5 8 Rb3! Rh6!
As pretas conservam o "respiradouro" das brancas, esse peão de h5. Se agora 9 Ra4? d3! 11 Ra5 d2 12 a4 Rg5!! 13 h6 d1=D 14 h7 Dd2#.

9 a3!!
Uma vez mais, a figura do "tempo solto", único para empatar.

9... Rg7! 10 Rc2!
Se 10 Ra4? Rh7!! e se 11 Ra5 d3 12 a4 d2 13 h6 Rg6-+; ou então, 11 h6 d3 16 Rb3 Rxh6-+; e por fim, 11 Rb3 Rh6, ganhando.

10... Rh7
Se 10...Rf6? 11 h6! Rg6 12 h7! Rxh7 13 Rb3 d3 (evitando o auto-afogamento) 14 Rc3 Rg6 15 Rd3 Rf5 16 Re3 Re5 17 a4!! e, mais uma vez, mercê do "tempo solto", as brancas conseguem a oposição necessária para empatar.

11 Rc2 Rh6 12 Rb3!
O diagrama se repete e não se identifica progresso nenhum das pretas.

12... Rxh5 13 Ra4! d3 14 Ra5! d2 15 a4 d1=D, empate.

 


Solução 580 
A (G.Slepian, Schachstudien, 1981) 1 Df1+!Rxf1 2 Bb5+ Dc4! 3 Cxc4!! fxe1=D 4 Ce3+ Rf2  5 Cg4++.
B
(A.Burmeister, Helsingfors Sporten, 1891) 1 Bg6! (zug) 1 ... e2 2 Bh5 Rd1  3 Tf1++; 1 ... Re2 2 Bd3+ Re1 3 Tf1++; 1 ... Rd1  2 Tf1+ Re2  3 Bd3 ++.
 

 

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