: : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :   CRÔNICAS    : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :
 

  Magistral Najdorf - 2
 

 

 

   O XI Magistral Miguel Najdorf, realizado em Buenos Aires, entre 18 e 27 deste mês, registrou mais uma retumbante performance da melhor enxadrista de todos os tempos, Judit Polgar (Hungria, 23.07.76), dividindo com Victor Bologan (Moldávia, 14.12.71) os louros dessa prova que homenageia o saudoso mestre e expressão maior do xadrez argentino.

      Este ano, após razoável período de afastamento e salutar reciclagem técnica, Judit retornou na plenitude de suas forças, com resultados invejáveis: 1º em Bali (Indonésia), 1º em Malmoe (Suécia), 2º em Mérida (México) e esse triunfo de agora, invicta.

     Nosso representante e mais destacado jogador sul-americano no momento, GM Gilberto Milos Jr., depois de exaustiva e consagradora campanha em Shenyang, na China, não reunia condições físicas para esse torneio e, enfermo, apenas cumpriu profissionalmente uma participação que não pode ser incluída no seu brilhante retrospecto enxadrístico.

     Em rápido flash, assim o mestre Ronald Câmara definiu o homenageado: ‘Embora não tenha chegado a ser campeão mundial, Najdorf projetou-se muito mais do que vários detentores deste título, graças aos seus notáveis feitos dentro e fora do tabuleiro, revelando uma total dedicação à caprichosa e fascinante deusa Caíssa, dedicação esta materializada num valioso legado de grandiosas realizações e conquistas magistrais’’.

1 Polgar,Judit 2656 +85
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½ 1 ½ ½ ½ 1 ½ 1 1 6.5 / 9 26.50
2 Bologan,Victor 2641 +102 ½
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½ ½ 1 1 ½ 1 ½ 1 6.5 / 9 26.00
3 Short,Nigel 2677 +14 0 ½
&;
½ ½ ½ 1 1 1 1 6.0 / 9  
4 Karpov,Anatoly 2699 -53 ½ ½ ½
&;
0 ½ ½ 1 1 1 5.5 / 9  
5 Ricardi,Pablo 2488 +99 ½ 0 ½ 1
&;
0 ½ ½ 1 ½ 4.5 / 9  
6 Milov,Vadim 2626 -95 ½ 0 ½ ½ 1
&;
½ ½ ½ 0 4.0 / 9 18.75
7 Leitao,Rafael 2567 -29 0 ½ 0 ½ ½ ½
&;
½ ½ 1 4.0 / 9 15.00
8 Pierrot,Facundo 2423 +88 ½ 0 0 0 ½ ½ ½
&;
½ 1 3.5 / 9  
9 Milos,Gilberto 2633 -187 0 ½ 0 0 0 ½ ½ ½
&;
1 3.0 / 9  
10 Flores,Diego 2358 -49 0 0 0 0 ½ 1 0 0 0
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1.5 / 9  
Media Elo: 2576 <=> Cat: 14 gm = 4.77 m = 2.97

J. POLGAR (2.656) x (2.567) R. LEITÃO (1ªrod. Mag. Najdorf, B. Aires, 18.09.00 — Siciliana, B 90) 1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 d4 cxd4 4 Cxd4 Cf6 5 Cc3 a6 6 Be3 Cg4 7 Bg5 h6 8 Bh4 g5 9 Bg3 Bg7 10 Be2 h5 11 Bxg4 hxg4 12 Cd5 Cc6 13 Cf5 Bxf5 14 exf5 Bxb2 15 Tb1 Da5+ 16 Dd2 Bd4 17 Dxa5 Cxa5 18 0-0! N Rd7 19 Tb4 Ba7 20 Te1 The8 21 Txg4 Tac8 22 Tge4! Cc6 23 c3! f6 24 Te6 Ce5 25 Tb1 b5 26 Td1 Tc4 27 h3 Bc5 28 Bxe5 fxe5 29 Tg6! Tf8 30 Txg5 Tf7 31 g4 a5 32 Tg6 b4 33 cxb4 axb4 34 Td2 Bd4 35 h4 Rc6 36 Ce3 Tc3 37 Te2 Rc5 38 h5 e4 39 Rg2 d5 40 h6 Ta3 41 Tg8!, 1-0.

 

D. FLORES (2.358) X (2.656) J. POLGAR (6ªrod. Mag. Najdorf, B. Aires, 23.09.00 — Siciliana, B 50) 1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 c3 Cf6 4 Bd3 g6 5 Bc2 Bg7 6 d4 Dc7 7 0-0 0-0 8 h3 e5 9 dxe5 dxe5 10 a4 b6 11 Ca3 Ba6 12 Cb5 De7 13 De2 h6 14 Cd2 Cc6 15 Cc4 Tad8 16 Be3 Bc8 17 Tfd1 Be6 18 Cba3 Tb8 19 Rh2 Ce8 20 Td2 a6 21 Tad1 Dc7 22 Cd6 Cd4 23 cxd4 exd4 24 Bf4 Cxd6 26 Dxa6 De7 26 De2 Tbd8 27 Tc1 c4 28 e5 d3 29 exd6 Df6 30 De4 Bd5 31 De3 Tfe8 32 Dg3 g5 33 Be3 Dxb2 34 Cb5 Dxc1 35 Txd3 Dxc2 36 Txd5 De4 37 Cc7 Te5 38 Td4 Dc6 39 Cb5 c3 40 Bc1 Te1!! 41 Bxg5 hxg5 42 Dxg5 De8!, 0-1.


      Dentre os inúmeros episódios curiosos que serviram para urdir a personagem mitológica em que se transformou Don Miguel, há um ocorrido nos meus tempos de Rio de Janeiro, lá pelos idos dos anos 50, que se tornou referência obrigatória na identificação de algum caso de capivarice crônica.

        Como se sabe, Najdorf sofria da "febre do relâmpago", similar à "Tarantella" ou doença de São Guido, proveniente da mordedura da tarântula, que induz o paciente a dançar frenética e incontrolavelmente até a exaustão total ou a própria morte. "El Viejo" (como carinhosamente o chamavam) podia passar mais de dez horas ininterruptas jogando blitz (xadrez de 5 minutos para cada um) e só parava quando algum familiar ou amigo o retirava à força do tabuleiro, tamanha sua devoção por essa modalidade.

       Naquela época, ele era considerado um dos mais fortes jogadores de xadrez relâmpago do mundo e, assim, quase todos os seus adversários, principalmente os amadores, deviam levar alguma vantagem substancial de tempo para tentar equilibrar a porfia.

       A presença de Najdorf no Rio era certeza de verdadeiros saraus enxadrísticos, quando ele exibia os dotes de um emérito combinador a par de sua verve extraordinária, sua contagiante alegria. E em meio aos supliciados por sua genialidade, havia o pai de um amigo nosso (nomina sunt odiosa) que jogava com vantagem de tempo (1 minuto para Najdorf, 10 minutos para ele), vantagem de escore (Najdorf tinha de ganhar 10 partidas, enquanto ao seu adversário bastava uma para vencer o match), além de... uma dama inteirinha de vantagem! Debaixo do relógio, um "pinga-fogo" daqueles antigos, era depositada a bolsa do match, que hoje equivaleria a uns cem reais.

       Najdorf ganhou brilhantemente oito partidas seguidas. Na nona, ele, total apaixonado de Caíssa, deixou-se envolver entre um ganho simples e uma sedutora combinação, esquecendo-se do relógio que, indiferente a sonhos e devaneios, decretou sua derrota.

       Nesse dia em especial, Najdorf tinha um sério compromisso e, por isso, não dispunha de tempo livre para uma revanche que por certo seria de seu agrado. Sempre alegre, entre risos e abraços, retirou-se do salão de jogos seguido por um séquito de admiradores, provocando uma algazarra juvenil que se traduzia nas demonstrações de sincero carinho de todos.

       Na mesa, sozinho, restou o tal senhor que acabara de vencer o match ao famoso Najdorf. Olhou para um, para outro e levantando-se devagar, mas sem se dirigir especificamente a ninguém, proferiu as vaidosas e emblemáticas palavras que ainda hoje ressoam em nossos ouvidos incrédulos:

      "- Será que ele pensa que eu sou capivara?!!"


     J. POLGAR (2.656) x (2.633) G. MILOS  (7ª rod. Mag. Najdorf, Buenos Aires, 24.09.00 - Espanhola, C 96)

    1 e4 e5 2 Cf3 Cc6 3 Bb5 a6 4 Ba4 Cf6 5 0-0 Be7 6 Te1 b5 7 Bb3 d6 8 c3 0-0 9 h3 Ca5 10 Bc2 c5 11 d4 Bb7!?
   
No tratamento clássico dessa variante de
Tchigorin, o mais comum é 11...Dc7, sem definir de imediato a colocação do bispo de c8, quando as pretas mantêm a tensão central e situam suas chances no flanco-dama; nesse caso, as brancas encontram melhores perspectivas numa coerente expansão na ala do rei. Com relação ao lance da moda, coqueluche do momento, 11...Bb7, ouçamos a teoria: "A idéia desse lance se baseia no fato de que, atacando o peão-e4, as pretas compensam a pressão que sofrem sobre o peão-e5. É possível também trocar antes, 11...cxd4, e desenvolver então o bispo em b7. como ocorre mais amiúde".

       12 Cbd2 cxd4 13 cxd4 exd4  
      Com 13...Dc7, reingressaríamos na linha principal dessa variante; com o lance do texto, as pretas orientam perigosamente suas ações explorando em jogo aberto as colunas c e e. Isso, porém, constitui-se um verdadeiro campo minado, bem ao estilo dessa jogadora excepcional, tigresa terrível que sempre afiou suas garras mortais na aspereza dos escarpados abismos táticos.

       14 Cxd4 Te8 15 b3 Bf8  
     
A tentativa de combate imediato ao agudo bispo branco em b2 não se revelou satisfatória, depois de 15...g6 16 Bb2 Cd7 17 Cf1 Bf6 18 Ce3 Cc6 19 Cxc6 Bxc6 20 Bxf6 Cxf6 21 Dd4 Te6 22 f3 a5 23 b4! a4 24 Tac1 De8 25 Ted1 e, superiores, as brancas venceram, 1-0 in 41. Svidler-Hansen, North See Cup, Esbjerg/DIN. 2000.

       16 Bb2 g6 17 Df3-  
      
Leko tentou inventar contra um dos nossos considerados, jogando 17 Te2?! Bg7 18 De1 Tc8 19 Td1 Ch5! 20 Bb1 Cf4 21 Te3 Df6! 22 C2f3 Cc6! 23 Rh2 Ce5! 24 g3 Cd5!! 25 exd5 Cxf3+ 26 Cxf3 Txe3 27 Bxf6 Txe1 28 Cxe1 Bxf6 e comodamente as pretas se impuseram, 0-1 in 49. Leko-Fritz-6.0, Frankfurt/GER. 1999; aqui, o próprio Milos optou pelo interessante 17 b4!? Cc6 18 Cxc6 Bxc6 19 Df3 Bg7 20 Bb3 d5 21 exd5 Txe1+ 22 Txe1 Cxd5 23 Bxg7 Rxg7 24 Tc1! Dd7 25 Txc6 e as brancas pontuaram, 1-0 in 41. Milos-Spangenberg, Najdorf Open, Buenos Aires/ARG. 1998.

       17... Bg7 18 Tad1 Tc8 19 Bb1 Cc6  
       Somente agora essa partida difere de Short-Thipsay, Torquay/UK 1998, quando seguiu 19...De7 20 De3 Cc6 21 Cf1 Cxd4 22 Bxd4 Df8 23 f3 Cd5 24 Df2 Cc3 25 Bxg7 Rxg7 26 Td3 Cxb1 27 Txb1 Te6 28 Tbd1 Tc6 29 Cd3 e as brancas ficaram bem melhores, 1-0 in 65. Corretamente, Milos atende a urgência de repor seu cavalo em jogo para só depois, então, situar sua dama (Dc7/De7) de acordo com a conveniência da posição.

       20 Cf1 Ce5 21 De3 Ced7! 22 Df4 d5!
       Desde 20...Ce5 que o Junior-6.0 registra uma justa superioridade das pretas em -0.20. E estabelece  que se 23 Cg3 Cc5 24 exd5 Txe1+ 25 Txe1 Cxd5 26 Dd2 Dd6 27 Cge2 Te8 e o jogo das pretas continua preferível.

       23 Cg3 Dc7!? -       É claro que se 23...De7? 24 Cdf5! gxf5 25 Cxf5 Df8 26 e5! e a posição das brancas seria irresistível, +-1.59.

       24 e5?!!
      
Eis aí o que poderíamos designar como um péssimo lance bom, executado por um irresistível e maravilhoso apelo tático, próprio dos jogadores de ataque. Com o natural 24 Dxc7 Txc7 25 exd5 Txe1+ 26 Txe1 Cxd5 27 Te8+ Cf8 a partida  se encaminharia rapidamente para o empate. No entanto, Judit opta por esse golpe especulativo, confiada em sua diabólica aptidão combinatória.

       24... Txe5 25 Txe5 Dxe5 26 Dd2 Ch5 
       E aqui já se percebe a agudeza de uma posição em que as pretas devem-se comportar com o máximo de cautela para não incorrer em algum deslize. Por exemplo, 26...Ce4? 27 Bxe4 dxe4 28 Cdf5! Dxb2 29 Ch6+! Rh8 30 Cxf7+ Rg8 31 Ch6+ Rh8 32 Dxd7!, com posição ganhadora. Ou ainda, 26...Dc7 27 Cdf5! gxf5 28 Cxf5 Dd8 (28...h6? 29 Cxh6+ Rh8 30 Cf5 Bf8 31 Dg5+-) 29 Cxg7 Rxg7 30 Dg5+ Rf8 (30...Rh8?? 31 Bf5!) 31 Ba3+ Cc5 32 Te1! e as pretas estariam perdidas.

       27 Cxh5 Dxh5 28 Te1! 
       Há que se perceber também o cunho posicional do sacrifício de Judit, anulando completamente o bispo de b7 e dominando a única coluna válida do tabuleiro.

       28... Bh6?!   
       Mais de acordo seria 28...Cc5! e no caso de 29 Te7 Dh4!, com um movimentado jogo de peças.

       29 f4 Dh4 30 Bf5!! -   
       Blow-up! Uma súbita e atordoadora incandescência, mais grave ainda por que na exiguidade de um tempo de partida. Agora, se 30...gxf5 31 Cxf5 Bxf4 32 De2 Dd8 33 Dg4+ Dg5 34 Ce7+! Rf8 35 Dxd7 Dg3 36 Bg7+!! Dxg7 37 Cxc8 Dd4+ 38 Rh1 Df2 39 De7+ Rg7 40 Cd6!! Bxd6? 41 Dg5+ Rf8 42 Dh6+ Rg8 43 Te8+ Bf8 44 Txf8#; ou ainda, 30...Bxf4 31 De2 Dd8 32 Tf1 Bb8 33 Be6!, ganhando.

       30... Dd8! 31 De3! Tb8??
        Aí está o desastre que é jogar contra alguém comprometido com a fascinação artística: um mínimo senão e tudo se esfuma. O Junior insiste em 31...Bg7! 32 Ce6 fxe6 33 Dxe6+ Rh8 34 Bxg7+ Rxg7 35 Dxd7 Dxd7 36 Bxd7 Tc7 37 Bg4 h5 38 Bf3 d4 39 Rf2! Bxf3, com empate à vista. No caso de 31...Dc7 32 Be6! Dd6 (32...Bg7? 33 Bxf7+ Rxf7 34 Cxb5+-) 33 Cf5! Dxe6 34 Cxh6+Rf8 35 Ba3+ Rg7 36 Df2 Tc2 37 Txe6 (37 Dh4? Db6+ 38 Rh1 d4!) 37...Txf2 38 Te7 Txa2 39 Txf7+ Rxh6 40 Be7! g5 41 Bxg5+ Rg6 42 Txd7 Bc8 (42...Ba8? 43 Td8 Bb7 44 g4!+-) 43 Txd5, ganhando. As pretas ainda podiam se manter com 31...Ta8!, quando apenas a iniciativa sempre perigosa das brancas serviria de compensação pelo peão sacrificado.

       32 Bxd7 Dxd7 33 De5!, 1-0.  
      A posição era insustentável, mas o Junior assinala uma curiosa variante: 33...Tf8 34 Df6!! Dd8 35 Te7! e as pretas seriam forçadas ao desespero de 35...Dxe7, posto que se 35...Bg7 36 Dxg7+! Rxg7 37 Cf5+ Rg8 38 Ch6#.

       Uma partida que justifica o temor geral de enfrentar essa extraordinária pantera caissana.

 
 

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