: : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :   CRÔNICAS    : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :
 

   O experiente Peter e o ingênuo Teimur
 

Para um registro perpétuo: o vexame inacreditável de Svidler e o revoltante esbulho de Radiábov
 

 

A - Br. jogam e ganham



B - Mate em 3 lances


  Um dos maiores vexames ocorridos na primeira etapa do World Chess Championship, realizada em Moscou, ficou por conta de um final de partida entre Boris Gelfand e Peter Svidler (quartas de final), quando no lance 78 as brancas jogaram Txf4, constituindo-se a seguinte posição: Brancas (Gelfand) Rg4 e Tf4 x Pretas (Svidler) Rd2 e De4 - diag.1.

     A regra estabelece que o bando em vantagem dispõe de 50 lances para dar mate, caso contrário a partida é declarada empatada. O super GM-A Peter Svidler, tri-campeão russo (!), jogou 51 lances e não conseguiu vencer...

     Na posição que anotamos acima, o Fritz garante que dá mate em 21 lances, no máximo, começando com 78...Dg6+! 79 Rf3 Rd3! 80 Rf2 Dh6! (na partida, Svidler seguiu com 80…Dg5, podia ganhar do mesmo modo, ainda que se atrasando em vários lances para o arremate final, mas se embaralhou todo e teve de se contentar com um empate) 81 Tf3+ Re4 82 Rg3 Dg5+ 83 Rf2 Dh4+ 84 Rg2 Dg4+ 85 Tg3 De2+ 86 Rg1 Rf4 87 Th3 Dd2 88 Rf1 Rg4 89 Th8 Dc1+ 90 Re2 Db2+ e o Fritz segue em frente, até o mate no lance 99. 

       Segundo estabelece o notável didata, campeão francês e compositor André Chéron em seu livro Tratado Completo de Xadrez (L'Échiquier, 1927), abordando o tema Rei e Dama x Rei e Torre,
"a dama ganha sempre, mas a torre opõe tal resistência que somente um bom jogador poderá vencer no limite de 50 lances imposto pela regra do jogo".

Depois de um único exemplo em que a torre consegue perpetuar seus xeques, empatando, Chéron prossegue: "o método de ganho consiste em obrigar, por meio de uma posição de zugzwang, a torre a se afastar de seu rei, quando então a dama consegue capturá-la após uma série de xeques apropriados".

Chéron reproduz o diagrama de um estudo de J. Berger, considerado uma das mais difíceis desse final, qual seja: brancas (Ra1/Dh1) x pretas (Re5/Tf5) - diag.2. De imediato, a aproximação que ajudará no confinamento do rei adversário:

1 Rb2
"Como em todas as manobras de sufocação do rei preto numa das bandas do tabuleiro, o rei branco se dirige para o centro" - Chéron.

1...Tf2+ 2 Rc3 Tf4 3 Rd3 Td4+ 4 Re3 Td5
A torre naturalmente evita distanciar-se do seu rei. A tentativa de impedir o avanço do rei branco com 4...Tc4 fracassaria depois de 5 Dh5+ Re6 6 Db5 Tg4 7 Dc5 Th4 8 Rf3 Rf6 — se 8...Th3+? Rg4+/- — 9 Dd5 Rg6 10 Rg3 e a torre deve abandonar a quarta fileira. As pretas não têm como evitar o gradativo cerceamento de seu rei.

5 Dh2+ Rf5 6 Df4+ Re6
Se 6...Rg6 7 Re4 Tg5 8 Dd6+ Rg7 —- 8...Rh5? 9 De6!+/- — 9 Rf4 Tg6 10 De7+ Rg8 11 Rf5 Tg7 12 De8+ Rh7 13 Rf6 e chegamos à posição padrão, em que as pretas são obrigadas a afastar sua torre para longe do seu rei, perdendo-a. Por exemplo, 13...Tg3 14 De4+! Rg8 15 Dc4+!, ganhando; ou então, 13...Tg1 14 De4+! Rh8 15 Da8+!+-. O mesmo sucederia, se a torre se afastasse de seu rei pela sétima fileira: 13...Tc7 14 De4+! Rh8 15 Dh1+ Rg8 16 Dg2+ Rh8 17 Dh2+ Th7 18 Db8#; ou então, 13…Ta7 14 De4+! Rg8 15 Dd5+ Rh8 16 Dh1+!, vencendo.

7 Re4 Td6 8 Df5+ Re7 9 Re5 Td7
Se 9…Td1 10 Dg5+ Rf8 11 Df4+! Re7 12 Dh4+ Rf8 e aqui as brancas venceriam tanto com 13 Re6! quanto com 13 Db4+, em ambos os casos capturando a torre distanciada.

10 Df6+ Re8 11 Dh8+!
Aí está, já não era possível o mesmo método, 11 Re6?, em vista de 11...Td6+! 12 Rxd6, empatando. Esse é o único golpe de que as pretas dispõem para empatar nesse tipo de final.

11...Rf7! 12 Dh7+ Re8 13 Dg8+! Re7 14 Dc8!!
E chegamos à clássica posição em que a torre é obrigada a se distanciar do seu rei, acarretando com isso a derrota do bando inferiorizado.

"A partida está perdida em todas as variantes", garante-nos Chéron. E enumera

1) 14...Td8 15 De6+ Rf8 16 Rf6!+-;

2) 14...Ta7/d6 15 Dc5++-;

3)14...Td3 15 De6+! Rd8 16 Dg8+ Rc7 (16...Rd7/e7 17 Dh7++-) 17 Dc4++-;

4) 14...Td2!? 15 Dc5+ e agora,

a) 15…Rd7 16 Db5+ Rc8! 17 Re6 Tc2!
Se 17...Td8 18 Re7! e para aonde for a torre, a dama serpenteando seus xeques a alcançará: 18...Th8 19 Dc5+! Rb7 20 Db4+ Ra6 21 Da3+ Rb5 22 Db2+, ganhando. Ou então, 17...Td1 18 Dc4+ Rd8 19 Db3!! Te1+ 20 Rd6+-.

18 Rd6 Th2!
Se 18…Tc7 19 Da5+-; 18…Td2+ 19 Rc6 Tc2+ 20 Rb6 Td2 21 De8+ Te1 22 Dc6++-; 18…Tc1 19 Da4! Rb7 20 Db3+ Rc8 21 Da3 Td1+ 22 Rc6+-.

19 De8+ Rb7 20 De4+ Rb6
Se 20...Ra6/a7 21 Rc7!+-; se 20...Rb8 21 Df4! Th7! 22 Rc6+ Ra8! 23 Df8+ Ra7 24 Da3+ Rb8 25 Db3+! Ra7 26 Da2+ Rb8 27 Dg8++-.

21 Df4 Th5!
Única, para não perder de imediato, pois se 21...Ta2? 22 Dd4+; 21...Th3 22 Df2+!+-21…Te2 22 Db4+ Ra7 23 Da5+ e 24 Db5++-; 21…Tg2 ou 21…Th1 22 Dd4+ Ra6 23 Da4+ e 24 Dc6++-; 21...Th7 22 Dd4+ Ra5 23 Da1+!+-; 21...Tc2 22 Db4+ e 23 Da4++-). 22 De3+ Ra5 23 Rc6! Ra4 24 De4+ Ra5 25 De1+!, capturando a torre.

Voltando à posição crítica (Re5/Dc5 x Re7/Td2), temos a variante
 b) 15...Rf7 16 Dc4+ Rg6
Se 16...Re8 17 Re6 Rd8 18 Db5+-.

17 Dg4+ Rh7 18 Dh5+ Rg7 19 Dg5++-;

e se c) 15...Re8 16 Db5+ Rf7 (16...Td7? 17 Re6+-) 17 Dc4+, caindo na anterior e ganhadora variante b.

E finalmente, 5) 14...Td1 15 Dc5+ e agora, então, (Re5/Dc5 x Re7/Td1) temos:

a) 15...Rd7;
b) 15...Rd8;
c) 15...Re8;
d) 15...Rf7.

a) 15...Rd7 16 Db5+ Rd8! 17 Da5+ Rc8 (17...Re7? 18 Db4+! Rd8 19 Re6 Rc7 20 Dc4+ Rd8 21 Db3 Te1+ 22 Rd6+-) 18 Dc3+ Rd7 (18…Rd8 19 Re6 Td7 20 Da5+ e ganham) 19 Db4 Rc7 20 Dc4+ Rd8 21 Re6! Te1+ 22 Rd6 Td1+ 23 Rc6 Td2 24 Dc5!, ganando a torre ou mate em três lances.

b) 15...Rd8 16 Da5+ Rc8 17 Dc3+ e voltaríamos à variante a.

c) 15...Re8 16 Db5+ Rf8 (16…Re7 17 Db4+, caíndo na variante a; e se 16…Rd8 17 Da5+, outra vez entrando na variante a, já vista) 17 Db4+!, capturando a torre em seguida.

d) 15...Rf7 16 Dc4+ Re7 17 Db4+ Rd8! 18 Re6! Rc7 19 Dc3+ Rd8 20 Db3! Te1+ 21 Rd6+-.

Até para quem não se chama Svidler, esse final é instrutivo.


     Uma das maiores esperanças de renovação do xadrez mundial, o jovem GM Teimur Radiábov (Azerbaijão, 12.02.1987), apontado pela unanimidade como futuro campeão mundial, sofreu um miserável batismo de fogo no (ainda em curso) WCC da Fide, vítima da soberana burocracia e da precária organização responsável por esse momentoso evento.
     O Árbitro Chefe era nada menos que o irrepreensível GM Yuri Averbach, glória do xadrez soviético. Mas, como se sabe, num universo de centenas de jogadores, sua onisciência era impossível, daí o revoltante episódio que eliminou Teimur na primeira etapa desse mundial.
     Depois de empatarem suas partidas no tempo oficial, assim como na cadência rápida de 20 m, Teimur e o GM estoniano Jaan Ehlvest passaram para a etapa de partidas de 5 min (blitz), quando, para cada lance executado, adiciona-se no "relógio de Fischer" um bônus de 10 s.
     Na primeira partida, quando desfrutava de enorme superioridade, eis que Teimur se surpreende ao ver que
"no meu relógio só me restavam 15 s. Assim, fiz vários lances com extrema rapidez para acumular bônus em meu favor. E mais surpreso ainda eu fiquei quando vi que isso era em vão, por mais rápido que eu jogasse o tempo se esgotaria (como aconteceu) uma vez que o relógio, por uma falha dos árbitros auxiliares, não fora habilitado para isso".
     Teimur reclamou a Averbach, pedindo para, pelo menos, anular a partida. Esse, atarefadíssimo com outros jogos, disse para Teimur jogar a partida seguinte, enquanto procurava uma solução para o seu caso. Essa segunda partida terminou empatada, resultando num escore favorável a Ehlvest em 1,5 a 0,5.
     Com esse caso pendente, todos os árbitros reunidos numa sala decidiram (depois de hora e meia de conversa jogada fora) desclassificar o jovem Teimur. Posteriormente, o próprio Averbach cientificou o perplexo Teimur de que
"seu erro foi aceitar jogar a partida seguinte, sem que se tivesse resolvido a pendência da partida anterior".

     Não acreditamos que Teimur tenha idade para conhecer "O Processo" de Kafka. Do contrário, ele saberia que não é suficiente apenas bater à porta da lenta e discutível justiça dos homens, mas empurrá-la com toda a força possível.


Respostas - 619
 A
(L. Kubbel, Schachvärlden, 1935 - 2º pr.) 1 Da1+ Rh7 2 Db1+ Rh8 3 Db2+ Rh7 4 Dc2+ Rh8 5 Dc3+ Rh7 6 Dd3+ Rh8 7 Dh3+! Bh7 8 Dc3+ Rg8 9 Dc8!! Rf7 10 Bc5!+-.
B
(V. Philipenko, Mem. V. Bron, 1986 - MH) 1 Rg6! h3 2 Rxh5 Rg3 3 Bb8#; 1…Rg3 2 Bb8+ Rh3 3 Cf2#; 1…Rh3 2 Bb8 Rg4 3 Cf2#.

 

 

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