: : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :   CRÔNICAS    : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :
 

  El Diablo
 

 

 

    Do Torneio Internacional "Japfa Classic 2000" (Cat. 16/2.628), que ora se realiza em Bali, na Indonésia, selecionamos a partida a seguir, pelo insólito que ela representa.

  ZAW WIN LAY (2.633) x (2,656) A, KHALIFMAN (1ªrod. Bali, 22.04.00 — Francesa, C 07)

 1 e4 e6 2 d4 d5 3 Cd2 c5!
 O próprio Siegbert Tarrasch, que em 1889 patrocinara essa variante (3 Cd2) que leva seu nome, desistira em 1894 de continuar empregando-a, mercê do vigoroso lance do texto, 3...c5. Somente 30 anos depois, Rudolf Spielman revitalizou-a, tornando-a uma das melhores opções contra a defesa Francesa.

 4 exd5 Dxd5 5 Cgf3 cxd4 6 Bc4! Dd6
 Essa lance é uma lógica proposição do GM Erich Eliskases, que além de deixar a dama centralizada, mantém latente a ameaça de jogar ...e5, impedindo assim a confortável manobra De2 e Td1; por exemplo, 7 0-0 Cf6 8 Cb3 Cc6 9 De2?! Be7 10 Td1 e5! 11 Bb5 Bg4 12 Ca5 0-0 13 Cxb7 Dc7 14 Dc4 Bxf3 15 gxf3 Tac8! e, palavras de Eliskases,
‘‘la situación ya es desesperada para el blanco’’, 0-1 in 30. Medina-Eliskases, Mar del Plata 1953.

 7 0-0 Cf6 8 Cb3 Cc6 9 Cbxd4 Cxd4 10 Cxd4 a6 11 Te1 Dc7 12 Bb3 Bd6
 Comentando essa partida em seu competente site, agora com novo endereço   (http://www.gmchess.com/), o atual campeão mundial da FIDE,
GM-A Alexander Khalifman, nos diz: ‘‘Falando francamente, eu me sentia bastante confuso nesse momento. Estava entrando numa variante longa e complicada, que requer um bom conhecimento teórico. E eu nem sabia ao certo com quem estava jogando, se contra um adversário com 2.300 ou 2.800 pontos-ELO, uma vez que a sua pontuação de 2.633 continua sob séria suspeita’’. Antes desse encontro, Khalifman procurara conhecer o estilo e preferências do GM birmanês Win Lay. No DataBase, com 2 milhões de jogos, ele encontrou apenas 60 minguadas partidas dele, quantidade indigna de um detentor de tantos pontos no escalão mundial. O campeão confessa que, em meio a tantas e apreensivas considerações, se lembrou da preciosa fórmula do velho mestre soviético Vassily Panov: ‘‘Eu considero todo adversário como um forte jogador... até prova em contrário!’’.

 13 Cf5!?
 Nos comentários apostos à partida Khalifman-Gulko, Lucerna 1993, o campeão pontua essa lance como duvidoso (?!), sem indicar nada melhor, embora garanta que o modesto 13 h3 0-0 14 Bg5 Bh2+ 15 Rh1 Bf4, deixe as pretas numa boa posição.

13... Bxh2+ 14 Rh1 0-0!?
 Antes, a recomendação era 14..Rf8 ou mesmo 14..h5!? — Seirawan. O fato é que nessas variantes agudas há um verdadeiro ping-pong de reforços, ora para o lado das brancas, ora para o lado das pretas. Agora, por exemplo, não obstante o resultado desastroso desta presente partida, as cotações teóricas favorecem as brancas.

15 Cxg7!
 A idéia desse sacrifício se baseia na virtual inferioridade das pretas, que sempre encontrarão enormes dificuldades para colocar em jogo o bispo de c8 e a torre de a8.

15... Td8!
 Uma novidade em Wolff-Gulko, camp. EUA 1992, 0-1 in 53, passando a figurar desde então como padrão nessa linha.

16 Df3 Rxg7 17 Bh6+
 Esse lance é uma novidade do próprio Khalifman, empregado na citada partida contra Gulko, quando seguiu 17...Rg6 18 c3 Cd5! 19 Te4 Rxh6 20 Tg4! Cf4 21 g3 Td3! 22 Dxf4+ Dxf4 23 gxf4!
Th3 24 Rg2 Th5 25 Th1 Bd7?!, 1/2-1/2 in 56.

17... Rg6 18 Tad1??
 Esse, o ‘‘dernier cri’’ evidenciado in Korneev-Vakhidov, Ubeda 1997, com a sequência 18...Txd1 19 Txd1 Bd7?! 20 Td4 De5 21 Be3 Bc6? 22 Tg4+! Cxg4 23 Dxg4+ Rf6 24 Dh4+! Rg7
25 Bd4+-, 1-0 in 36. Ou ainda, 18...Txd1 19 Txd1 De5?! 20 Be3 Dh5 21 Dxh5+ Rxh5 22 Rxh2 Cg4+ 23 Rg3 Cxe3 24 fxe3 b5 25 Rf4! f6 26 e4! e5+ 27 Re3 Bg4 — final francamente favorável para as brancas, que dominam a única coluna aberta do tabuleiro — 28 Td6 Rg5 29 Bd5 Ta7
30 Tb6! Bc8 31 b3 Tc7 32 c4! bxc4 33 bxc4 h5 34 g3 f5 35 exf5 Bxf5 36 Txa6 e as brancas venceram, 1-0 in 54, Ponomariov-Sadvakasov, Lausanne 1999. Khalifman leva num tremendo deboche tanto a afirmativa de Psakhis, que se referiu a esse lance como ‘‘uma idéia fresca’’, ao comentar a partida de Ponomariov, quanto o extenso artigo publicado num dos últimos anuários do New In Chess, de autoria de Sergey Ivanov, que rotula esse desastre (19 Tad1??) como ‘‘um lance interessante’’. E o Califa não deixa por menos:
‘‘Realmente, é um lance fresco e interessante, uma vez que, de acordo com o meu banco de dados, só foi jogado até agora duas vezes. O que se esqueceram de dizer é que perde imediatamente. A sequência 18 c3 Ch5! é a principal dessa linha e registra sérias tendências de empate, como o demonstram vários exemplos’’. Aliás, isso também pode ser constatado no Inf. 71/283, nos comentários que Ivanov faz de sua partida contra Blehm (de brancas), Polska 1997. Vocês devem ter notado que in Khalifman-Gulko, depois de 18 c3, o próprio Califa assinalara 18...Cd5! como melhor resposta. Agora, ele recomenda 18...Ch5!, notabilizando com isso a constante ebulição da teoria das aberturas.

 18... Txd1 19 Txd1 e5!!
 Esse lance é bom até contra o normal 18 c3 e5!? N 19 Bc2+ e4 e agora, A) 20 Bxe4+? Cxe4 21 Txe4 Bd6 22 Th4 Dc5 23 Dd3+ Df5 24 Tg4+ Rxh6 25 De3+ Bf4! 26 Txf4 Dg5-+; B) 20 Txe4 Cxe4 21 Dxe4+ Rxh6 22 Dxh7+ Rg5 23 Dg7+ Rh5=; e finalmente, C) 20 g3 De5 21 Bf4 Dh5 22 Bxe4+ Cxe4 23 Dxh5+ Rxh5 24 Txe4 Bxg3 25 fxg3 Be6=, com igualdade. Até então, a teoria recomendava 19...Be5 20 De3 Ce4! 21 Dxe4+ Rxh6 22 Dh4+ Rg6 23 Dg4+ Rh6, empatando.

 20 Rxh2
 Esse foi o primeiro lance de sua autoria que Win Lay fez na partida, após uma reflexão de 40 minutos. As outras opções seriam 20 c3 Bf4; 20 g3 Cg4 21 Be3 Bf5 22 Bd5 Dxc2 23 Bxf7+ Rxf7 24 Dxb7+ Rg6 25 Td6+ Rh5 26 Df3 Bg6-+; 20 g3 Cg4 21 Bf8 Bf5 22 Bd6 Dc6-+, todas favoráveis às pretas.

 20... Cg4+ 21 Rg1 Rxh6, 0-1.
 Ou seja, dois lances (20 Rxh2 e 21 Rg1) e nada mais. Isso me lembra o atacante boliviano Echeverry, alcunhado de El Diablo, na Copa de Futebol de 1994. Jogavam Alemanha-Bolívia, quando, no segundo tempo, os microfones tonitruaram:
‘‘E agora, substituindo fulano, o atacante Echeverry, El Diablo!’’. Expectativa, ansiedade, esperança boliviana. El Diablo entrou em campo, correu atrás de Mattheus, que disputava um lance, e pespegou-lhe um tremendo pontapé nas canelas, sendo imediatamente expulso de campo.

  Ele não chegou sequer a tocar na bola.

 
 

HOME :: PERFIL :: ATUALIDADES :: COLUNAS :: TEORIA :: COMPUTAÇÃO :: XADREZ JUVENIL :: XADREZ FEMININO :: LINKS :: CONTATO