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   3º Karpov Internacional
 

Um baixíssimo índice de pontos positivos põe em xeque o mérito dessa prova modelar 
 

 

A - Br. jogam e ganham



B - Mate em 3 lances

 

Anatoly Karpov, foto MI Joara Chaves-Moscou 2001

     Em Poikovsky, Sibéria Ocidental, na Rússia, realizou-se entre 16 e 24 deste mês o 3º Karpov International Chess Tournament, em homenagem a um dos mais notáveis campeões mundiais, Anatoly Evgenievich Karpov, reunindo 10 jogadores de vários países, mas com forte predomínio da ex-URSS. O rating de 2628 pontos-ELO, categoria 16, constituiu-se em marcante acontecimento, excluindo-se evidentemente as cidades de Moscou e São Petersburgo.

     Na tabela final de classificação, anotamos: 1. Alexander Onischuk (24.06.60 USA 2641), com 6 pontos em 9 possíveis; 2/3. Sergei Rublevsky (15.10.76 Rus 2657) e Vadim Zvjaginsev (18.08.76 Rus 2645) 5.5; 4/6. Alexey Dreev (30.01.69 Rus 2645), Rafael Vaganian (15.10.51 Arm 2664) e Ivan Sokolov (13.06.68 Bos 2647) 5; 7/8. Viktor Bologan (14.12.71 Mol 2652) e Giovanni Vescovi (14.06.78 Bra 2610) 4.5; 9. Aleksei Aleksandrov (11.05.73 Bie 2654) 4; 10. Andrei Obodchuk (Rus 2435) 0.

     São raríssimos os casos como o de Obodchuk, com 100% de pontos negativos. Por maior que seja o desafio, um capivara hábil consegue um empate pelo menos, para salvar as aparências.

     Na primeira edição dessa festa (2000), comemorava-se os 25 anos da conquista do título mundial de um filho daquela região dos Urais (Karpov). No ano seguinte (2001), tendo em vista o sucesso do ano anterior, a segunda versão desse torneio celebrava o cinqüentenário de Tolia. Este ano, como dera certo nos anos anteriores, os dirigentes de Poikovsky, República Autônoma de Kanty-Mansi, resolveram dar continuidade a esse evento enxadrístico.

     A seguir, uma partida de grande interesse, envolvendo uma controvertida variante de uma das mais conhecidas e consagradas defesas.

A. Onischuk (2640) x (2610) G. Vescovi (5ª rod. Poikovsky, 20.04.02 —- Nimzoindia, E 54)
1 d4 Cf6 2 c4 e6 3 Cc3 Bb4 4 e3
GMI Alexander OnischukVariante Rubinstein, possivelmente o mais clássico sistema de combate à defesa de Nimzowitch e que conta com a manifesta preferência do atual e oficioso campeão mundial Vladimir Kramnik.

4...0-0 5 Bd3 d5 6 Cf3 c5 7 0-0 cxd4 8 exd4 dxc4 9 Bxc4 b6!?
Na década dos 70, esse seguimento foi ultradifundido pelo então campeão mundial Anatoly Karpov, e de tal modo que passou a ser conhecido como variante Karpov; sua idéia é fortalecer o controle sobre a casa d5, acentuando assim o isolamento do peão branco em d4.

10 Bg5 Bb7 11 Te1 Cbd7 12 Tc1 Tc8 13 Db3
GMI Giovanni Vescovi, foto MI Joara ChavesAs brancas se desenvolvem numa cadência natural e volumosamente perigosa, com todas as suas peças colocadas em sítios de onde se pode extrair o máximo de suas potencialidades. A postura acanhada das pretas nessa variante é falsa e provisória, a exigir por isso uma tensão constante que lhes impeça a consecução de seu plano estratégico. Por exemplo, 13 Bd3 Bxc3!? 14 bxc3 Dc7 15 c4 Tfe8 16 De2 h6 17 Bd2 Bxf3! 18 Dxf3 e5! 19 Dg3? exd4 20 Txe8+ Cxe8 21 Bf4 Dc6 22 Bf5 Td8 23 h3 Cc5 e as pretas venceram, 0-1 in 40. Portisch-Karpov, Bugojno/YUG 1978. O lógico lance do texto já foi uma novidade: 13 Db3!? N De7? 14 Bd5!!+/- Ba6 15 Da4! Bxc3 16 bxc3 Cb8 17 Bb3 b5? 18 Da5 Db7? 19 Bxf6 gxf6 20 d5! exd5 21 Db4 Dd7 22 Dh4 Rg7 23 Cd4!, 1-0. Browne-Ljubojevic, Tilburg/HOL 1978.

13…Bxc3
Há pouco, ocorreu um famoso desastre: 13...Be7 14 Bxf6! Cxf6 15 Bxe6!! fxe6 16 Dxe6+ Rh8 17 Dxe7 Bxf3 18 gxf3 Dxd4 19 Cb5!
(diagrama A) 19...Dxb2 20 Txc8 Txc8 21 Cd6! Tb8? 22 Cf7+ Rg8 23 De6! Tf8? 24 Cd8+!! Rh8 25 De7!, 1-0. Kramnik-Kasparov, Londres 2000. E olhem que essa linha já fora jogada: 19...Df4 (no lugar de 19...Dxb2) 20 Txc8 Txc8 21 Cd6 Dxf3?! 22 Cxc8 Dg4+ 23 Rf1 Dh3+ 24 Re2 Dxc8 25 Rd2! h5 26 Tg1 Cg4 27 h3 Df5 28 Dd8+ Rh7 29 Dd3! Dxd3+ 30 Rxd3 Cxf2+? 31 Re3 Cxh3 32 Tg3!, 1-0. Hazai-Danielsen, Valby 1994.

14 Txc3 De8?!
Sem o preventivo 14...h6, a teoria consigna esse lance como um equívoco, não obstante o resultado positivo quando de sua aparição. A recomendação é 14...h6 15 Bh4 Tc7 16 Ce5 Cxe5 17 dxe5 Dd4 18 Bxf6 gxf6 19 Bxe6 Txc3 20 bxc3 Dd2! 21 Td1 Dg5 22 Bd5 Bxd5 23 Dxd5 Dxe5 com igualdade, ½-½ in 41. Shchekachev-Boudre, Metz/FRA 2002. Observe-se que depois de 14...h6, a retirada do bispo de g5 (15 Bh4) conservando a cravadura do cavalo de f6, desabilita-o então para o sacrifício recorrente nesta partida.

15 Cd2! h6?!
Depois que o cavalo branco“limpou” a terceira fileira “telegrafando” um iminente ataque de peças pesadas sobre o roque adversário, o lance do texto se nos afigura como uma provocação, uma indução irrecusável ao sacrifício a seguir. Há, porém, um recente e ilustrativo refugo nessa posição: 16 Bh4 Cd5 17 Tcc1 C7f6 18 Bf1 Txc1 19 Txc1 Db8! 20 Bg3 Cf4! 21 f3 Td8 22 De3 C6d5 e o jogador das brancas, que tinha 165 pontos-ELO a mais do que o seu oponente (2630 x 2465), teve de se contentar com um descolorido empate em 77 lances. Zvjaginsev-Ramesh, Aníbal Open, Linares 2001.

16 Bxh6! gxh6 17 Th3!
O meu Chess Tiger 14.0 me adverte que se antes 17 Tg3+? Rh8! 18 Th3 Cg8, as pretas é que estão melhores). 17...Txc4?! (esse lance denuncia o desconhecimento do condutor das pretas sobre os antecedentes dessa linha, senão ele seguiria com o já consagrado 17...Cg4! (diagrama B) 18 Tg3 Cf6 19 h3 Dd7 20 hxg4? Dxd4 21 Td3 Df4 22 f3 Tfd8 23 Dc3?? b5! 24 Bxb5 Txc3 25 Txd8+ Rg7 26 bxc3 Dc7!, 0-1. Brodsky-Kruppa, Alustha/UCR 1994. Brodsky podia ter melhorado seu jogo com 18 f3! Dd8! 19 Tg3 h5 20 De3, com superioridade; segundo o Tiger, também não seria melhor 17...Ch7?! 18 De3 Cg5 19 Txh6 De7 20 Bd3 Rg7 21 Th5 f6 22 f4 e o alarmante índice de superioridade das brancas superaria os 2.0 pontos.

18 Cxc4 Rg7 19 Dg3+! Rh7 20 Dd3+! Rg7
As brancas ganharam um “tempo” preciosíssimo em sua mortal escalada, mormente se levarmos em consideração que durante um ataque de mate o tempo vale muito mais do que o material sacrificado.

21 Cd6! Db8
O lance 14...De8 já seria recriminável pelo simples fato de transformar a torre de f8 num “prego de caixão”, ou seja, impedindo que o rei preto consiga fugir de seu asfixiante sarcófago em g7/g8 - h7/h8.

22 Txe6!
Depois desse lance, o Tiger afere para as brancas um vitorioso índice de 5.26 e oferece a seqüência 22...Tg8 23 De3 Th8 24 Cf5+ Rg6!? 25 Ch4+ Rg7 26 Tg3+ Rf8 27 Da3+! etc.

22...fxe6?
Agora, o Tiger assinala que as brancas dão mate em 5 lances, exatamente como seguiu na partida.

23 Tg3+! Cg4
É evidente que depois de 23...Rh8 24 Dg6 não há defesa para os vários mates que as brancas podem dar.

24 Txg4+ Rf6 25 Dh7!, 1-0.
As brancas abandonaram. Esse lance (25 Dh7) “tira o peixe fora d'água” ou, se preferirem, impede que o rei preto volte para o seu refúgio salvador. Aqui, após 25...Dxd6 26 Dg7+ Rf5 27 Dg6#.

A. Obodchuk (2435) x I. Sokolov (2ª rod. Poikovsky, 17.04.02 — Eslava, D 10)
1 d4 d5 2 c4 c6 3 Cc3 dxc4 4 a4 e5!? 5 e3 exd4 6 exd4 Be6 7 Cf3 Cf6 8 Be2 Bb4 9 0-0 Cbd7 10 Dc2 a5 11 Td1 0-0 12 Ca2 b5 13 Cc3 Bxc3 14 bxc3 Bd5 15 Bf4 Be4 16 Db2 Cd5 17 Bd6 Te8 18 axb5 cxb5 19 Tdc1 C7b6 20 Bg3 b4 21 cxb4 c3 22 Db3 axb4 23 Ce5 Txa1 24 Txa1 c2 25 Bb5 Txe5 26 dxe5 Dg5 27 f4 Cxf4 28 Dxb4 Ch3+! 29 gxh3 De3+ 30 Bf2 Df3 31 Rf1 Dh1+ 32 Re2 Dxa1 33 Dd2 Dd1+!! (34 Dxd1 Bf3+!!), 0-1.

S. Rublevsky (2655) x (2610) G. Vescovi (6ª rod. Poikovsky, 19.04.02 — Siciliana, B 52)
1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 Bb5+ Bd7 4 Bxd7+ Dxd7 5 c4 Cc6 6 Cc3 g6 7 d4 Bg7 8 d5 Bxc3+ 9 bxc3 Ca5 10 Cd2 e5 11 0-0 Cf6 12 f4 exf4 13 Txf4 Ch5 14 Tf1 0-0 15 e5! dxe5 16 Ce4 f5 17 Cxc5 Dd6 18 Ce6 Cxc4 19 Cxf8 Txf8 20 Bh6 Td8 21 Db3 Dc5+ 22 Rh1 b6 23 Bg5 Td7 24 Da4 b5 25 Da6 Dxd5 26 Tab1 Rg7 27 Txb5 Dd3 28 Te1 h6 29 Bh4 g5 30 Tc5! Cb2 32 De6 gxh4 32 Tc6 h3 33 Dxh6+ Rg8 34 Tc8+ Td8 35 Dg5+, 1-0.


Soluções
635 A (A. Troitzky, Deutsche Schachzeitung, 1907) 1 Bf8+ Rh7 2 Tg7+Rh8 3 Be7! De1 4 Bf6 Dxe2+ 5 Rh1! De6 6 Bd4 Dc4 7 Ba1 h4 8 Bf6 De6 9 Bd4 Dc4 10 Ba1! h3 11 Bf6 De6 12 Bd4 Dc4 13 Ba1! h2 14 Bf6 De6 15 Bd4 Dc4 16 Ba1+-. B (L. Kubbel, Izbranie zadatch, 1939) 1 Th6! (zug) 1…Cxh6 2 Cg5! Cf5 3 Cf7#; 1…Ce7 2 Cf4! Cf5 3 Cg6#; 1…Cf6 2 Txf6 h5 3 Th6#.

 

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