: : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :   CRÔNICAS    : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :
 

  Corus - 2
 

 

 

  

    O Supertorneio Corus (cat. 19), que ora se realiza na aprazível Wijk aan Zee, na Holanda, reúne, sem exceção, os mais fortes super GM-As da atualidade. E num palco assim, proscênio esplendidamente propício, seria impossível que a abelha da presunção e a vespa da vaidade não voejassem sobre (quase) todos, com mais intensidade e zumbido.

    Kasparov, por exemplo, recusou-se a cumprimentar, com um aperto de mão, seu adversário da nona rodada, Shirov. A alegação para tal descortesia é que este publicara um artigo expondo a impropriedade (em vários aspectos) do match Kasparov-Kramnik, em Londres. No entanto, Kasparov, que sempre alardeou uma conduta ilibada, bem podia rebater por meio dessa mesma Imprensa as "mentiras’’ difundidas por Shirov.

    Agora, em março, o Number One (Kasparov) disputará na França a Copa do Mundo de Xadrez Rápido, sob a égide da Fide. Da Fide? É, da Fide! Segundo suas próprias palavras: ‘‘Eu não me importo em jogar um torneio da Fide, se a procedência do dinheiro for limpa’’. Non olet, Garry.

    Uma situação dessas lembra-nos automaticamente a história do marido enganado, que perdoa a traição, mas ‘‘veja bem, mulher, eu não vou me esquecer’’.

Shirov (2.818) x (2.700) Van Wely (6ª rod. Corus, Wijk aan Zee, 20.01.01 — Francesa, C 02) 
1 e4 e6 2 d4 d5 3 e5 c5 4 c3 Cc6 5 Cf3 Bd7 6 Be2 Cge7 7 Ca3 cxd4 8 cxd4 Cf5 9 Cc2 Db6 10 g4! Cfe7 11 0-0 h5 12 h3 hxg4 13 hxg4 f6 14 Bd3 0-0-0 15 b4! Cxd4 16 Ccxd4 fxe5 17 De2 e4 18 Bf4! Cg6 19 Tac1+ Bc6 20 Bg3 Bd6 21 b5 Bxg3 22 fxg3 exf3 23 De3 Dc7 24 Txf3 Ce5 25 bxc6 Cxf3+ 26 Dxf3 De5 27 cxb7+ Rxb7 28 Cc6, 1-0.

Fedorov (2.575) x (2.717) Ivanchuk (6ª rod. Corus, Wijk aan Zee, 20.01.01 — Gb. Rei, C 39) 
1 e4 e5 2 f4 exf4 3 Cf3 g5 4 h4 g4 5 Ce5 Cf6 6 d4 d6 7 Cd3 Cc6 8 c3 Cxe4 9 Bxf4 d5 10 Cd2 Bd6 11 Ce5 0-0! 12 Cxe4 dxe4 13 Dc2 Df6 14 Bg5 Df5 15 Cxc6 Bg3+! 16 Rd1 bxc6 17 Bc4 Bf2!! 18 De2 Be6 19 Tf1 g3 20 Be3 c5 21 Bxf2 Bxc4 22 Dxc4 gxf2 23 De2 cxd4 24 Txf2 De5 25 Dg4+ Rh8 26 Tf5 Dd6 27 Rc2 d3+ 28 Rd2 Tae8 29 Te1 e3+! 30 Txe3 Txe3 31 Rxe3 d2! 32 Tf1 Te8+ 33 Rf2 Df6+! 34 Df3 Db6+!, 0-1.

Timman (2.629) x (2.575) Fedorov (7ª rod. Corus, Wijk aan Zee, 21.01.01 — Siciliana, B 76) 
1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 d4 cxd4 4 Cxd4 Cf6 5 Cc3 g6 6 Be3 Bg7 7 f3 Cc6 8 Dd2 0-0 9 0-0-0 d5! 10 De1 e5 11 Cxc6 bxc6 12 exd5 Cxd5 13 Bc4 Be6 14 Ce4 Dc7 15 Cg5 Cxe3 16 Cxe6 Db6! 17 Cxf8 Cxc4 18 Dc3 Da6! 19 Db3 Txf8 20 Rb1 e4! 21 c3 e3 22 Ra1 Cd2 23 Dc2 Te8 24 The1 Te5! 25 a3 Dc4, 0-1.

Fedorov (2.575) x (2.745) Morozevich (10ª rod. Corus, Wijk aan Zee, 25.01.01 — Siciliana, B 70)
 1 e4 c5 2 Cc3 d6 3 Cge2 Cf6 4 g3 Cc6 5 Bg2 g6 6 d4 cxd4 7 Cxd4 Bg4 8 Cde2 Bg7 9 h3 Bd7 10 0-0 0-0 11 a4 a6 12 Cd5 Tb8 13 c3 b5! 14 axb5 axb5 15 Bg5 Cxd5 16 exd5 Ce5 17 Cd4 b4 18 cxb4 Txb4 19 Cc6 Bxc6 20 dxc6 h6! 21 Bd2 Txb2 22 Ba5 Dc8 23 Dd5 Df5 24 g4 Df4! 25 c7 Cxg4! 26 hxg4 Be5! 27 Dxe5 dxe5 28 Tad1 Tc2 29 Td8 c4 30 Bb6 Dxg4 31 Ta1 e3 32 Taa8 Tc1+, 0-1 (33 Rh2 Dh4+ 34 Bh3 Df4+!!).
  

KASPAROV (2.849) x (2.718) SHIROV (9ª rod. Corus, Wijk aan Zee, 23.01.01 -- Petrov, C 42)

    1 e4 e5 2 Cf3 Cf6
    Alexey Shirov aparta-se de sua defesa favorita (Francesa), prevenindo assim qualquer linha eventualmente preparada contra ele por seu terrível adversário. Alguns comentaristas assinalaram essa mudança de defesa como uma demonstração de que Alexey estava jogando para ganhar. Nada mais leviano: o número de empates com a defesa Petrov é simplesmente assustador -- isso, quando as pretas não perdem...
   
A falsa impressão de agressividade da Petrov é que, logo no segundo lance, as pretas se defendem contra-atacando, numa atitude muito parecida com a de quem finge que vai sacar de um revólver e o que mais consegue fazer é coçar a barriga por baixo da camisa.

    3 Cxe5 d6 4 Cf3 Cxe4 5 d4 d5 -- diag. 1
   
Um daltônico logo pensaria que Shirov está com as brancas, pelo tamanho do seu cavalo. Com a ajuda do Zé Limeira, poeta do absurdo e desconcertante repentista, poderíamos dizer que essa posição originou-se de 1 d4 d5 2 Cf3 Ce4! Ou como dizia um repente do Zé: "Eu briguei cum cabra macho / Mas não sei o que se deu: / Eu entrei pru dentro dele, / Ele entrou pru dentro deu, / E num zuadão daquele / Não sei se eu era ele / Nem sei se ele era eu".

    6 Bd3 Bd6 7 O-O O-O 8 c4! c6
   
A luta gira em torno do controle do centro e todos os lances até agora, de ambos os lados, foram os mais precisos nessa variante principal.

    9 Dc2!
   
É possível que Shirov esperasse inocentemente que Kasparov repetisse a mesma variante do penúltimo encontro entre eles, quando seguiu 9 cxd5 cxd5 10 Cc3 Cxc3 11 bxc3 Bg4 12 Tb1 Cd7!, com igualdade, não obstante o resultado desastroso (1-0 in 52, Linares 200), mais por culpa do derrotado do que pelos méritos do vencedor. Mas Kasparov é famoso pelo esmero com que prepara as variantes que vai jogar. Com ele, nada é deixado ao acaso.

    9... Ca6!?
   
Conhecido como gambito de Krause, a última coisa que um jogador de bom senso deve fazer é aceitá-lo e sujeitar-se ao entrudo de Shirov. Por exemplo, 10 Bxe4 dxe4 11 Dxe4 Te8 12 Dh4 (Keres recomendava 12 Dd3! Cb4 13 Db3 Bf5 14 Bg5+/=) 12...Dxh4 13 Cxh4 Cb4 14 Ca3 Te4 15 Cf3 Bg4 16 Be3 Bxf3 17 gxf3 Th4=/+.

    10 a3 Bg4
   
O lance recomendado por Krause era 10...f5 11 Cc3 Cc7 e aqui tanto 12 b4 quanto 12 c5 leva a uma posição de chances equivalentes.

    11 Ce5 Bh5?! -- diag. 2
  
Em seus comentários, Kasparov nos diz que "esse é um lance raro, que há muitos anos tive a oportunidade de analisar com Makarichev. Posteriormente, eu e Dokhoian (seu segundo) encontramos novas idéias para enfrentar essa linha".
   
É muito azar de Shirov! Isso nos lembra a história de um fulano morto de sede no meio do deserto. Encontra um casebre contaminado do alicerce ao teto, onde todos os ocupantes estão doentes, principalmente o "nono" -- o mais velho deles. Lá, essa família se servia de um único caneco para mitigar sua sede. Assim sendo, num golpe de mestre, ele teve o cuidado de beber a água com a boca bem juntinha da asa do caneco (...Bh5), como ninguém costuma fazer. Foi aí que o caçula da família observou: "Olhem, ele bebe água igualzinho ao vovô".
   
O lance 11...Bxe5 é praticamente forçado, como demonstram vários exemplos: 11...Bxe5 12 dxe5 Cac5 l3 f3 Cxd3 14 Dxd3 Cc5 15 Dd4 Cb3 16 Dxg4 Cxa1 17 Bh6 g6 18 Cc3!? N (ou 18 cxd5 Dxd5 19 Cc3 Dc5+ 20 Rh1 Cb3 21 Df4 Tfe8 22 Ce4 Dxe5 23 Cf6+ Rh8 24 Dh4 Te6 25 Bd2! Dxf6 26 Bc3 Dxc3 27 bxc3 b6 28 Te1 Tfe8 29 Tx6 Txe6, com igualdade, ½-½ in 43, Giaccio-Ginzburg, Camp. Argentino 1998) 18...Db6+ 19 Tf2 Tfe8 20 Dfr4 f5! 21 cxd5 Cb3! e as pretas estão melhores, ½-½ in 71. Shirov-Leko, Linares 2000. Uma outra opção seria 11...Bf5!? N, com promissoras alternativas, como ocorreu na partida (½-½ in 40) Shirov-Adams, Sarajevo 2000.

    12 cxd5 cxd5 13 Cc3!? N  -- diag. 3
   
Direto do laboratório de Kasparov para a farmácia quadriculada do tabuleiro. Mas não se pode esquecer que em farmácias também se vende veneno.

    13...Cxc3  14 bxc3 Rh8?!
   
Agora, era duvidoso 14...Bxe5? 15 Bxh7+ Rh8 16 dxe5 g6 17 Dd2! Rxh7 18 Dh6+ Rg8 19 Bg5 f6 20 Bxf6 Txf6 21 exf6 Dxf6 22 f3" Df5 23 Tf2! e as brancas estariam ganhas.

    15 f4
   
Kasparov confessa que demorou um tempão analisando o sedutor 15 Bxh7 g6 16 Dd2  Rxh7 17 Dh6+ Rg8 18 Bg5 e aqui, uma bifurcação: a) 18...f6?  19 Cxg6 fxg5 (19...Bxg6 20 Dxg6+ Rh8 21 Tfe1! fxg5 22 Dh6+ Rg2 23 Te6+-) 200 Dh8+ Rf7 21 Dxh5, vencendo; b) 18...Be7! 19 Bxe7 Dxe7 20 Tae1 Df6 21 Cd7 Dg7 22 Df4 f6 23 Cxf8 Txf8 24 g4 g5 e o bispo escapa; ou 18...Be7!  19 f4 Bf6 20 Bxf6 Dxf6 21 f5 Dh8 e embora as brancas possam recuperar material com o posterior avanço g4, não se vê claramente como elas possam ganhar.

    15... Bxe5?
   
Jogar bem contra Kasparov leva à derrota; jogar mal, ao desastre. A partir daqui, os comentaristas são unânimes em reconhecer que a posiç~sao das pretas está perdida. Kasparov sugere como razoável 15...f6 16 Cf3 Dd7 17 Ch4 g6 e as pretas ainda oporiam uma forte resistência.

    16 fxe5 Bg6
   
Eis aí no que dá um jogador tático perdendo seu tempo com elucubrações estratégicas: o bispo de casas pretas, quando muito, protege os próprios peões -- essa é a idéia.O outro lado da moeda, porém, é que com isso as pretas podem se despedir de suas casas pretas, que passarão a ser dominadas por esse ebúrneo torpedo.

    17 a4!! Dd7 18 Ba3! Tfe8
   
No caso de 18...Bxd3 19 Dxd3 Tfc8 20 Tf1! Tc7 21 Taf1 De6 22 Th3 Dg6 (25...h6? 23 Tf6!+/-) 23 Dxg6 fxg6 24 e6!, ganhando – Kasparov.

    19 Bxg6 fxg6
   
Meus alunos sabem que esse lance corresponde a ficar com um peão a menos (e5). Mas em compensação, diz-nos o Junior-6.0 que se 19...hxg6 20 Tf4 Rg8 21 Taf1 Te6 22 Txf7 Dxf7 23 Txf7 Rxf7 24 Db3!, com um índice vitorioso de +2,30.

    20 Db3! b6 21 Bd6! Cc7
   
Ou seja, as brancas dispõem da troca do bispo pelo cavalo quando bem lhes aprouver.

    22 Tf3! Tac8 23 Taf1
   
Bispo melhor do que o cavalo, peão de vantagem e domínio da única coluna aberta do tabuleiro. Finito, kaput.

    23... h6 24 Dc2
   
O Junior sugere 24 Tf7 Dc6 25 Bxc7 Txc7 26 Txc7 Dxc7 27 Dxd5 Dxc3 28 Dd7 De3+ 29 Rh1 Tg8 30 e6, ganhando. No entanto, Kasparov descartou essa linha por que viu  que depois de 28 Dd7 Tc8! (no lugar de 28...De3+) 29 h3 De3+ 30 Rh2  Tc1 e as pretas têm chance de perpetuar seus xeques. Kasparov prefere, então, adotar a filosofia da sucuri, que quando tem sua presa subjugada, aperta-a gradual e lentamente, até o desenlace final.

    24... Dg4!
   
Esse lance foi menosprezado nas análises de Kasparov, que avaliara apenas o conforto de 24...Te6 25 Tf7 Dc6 26 Tf8+ Txf8 27 Txf8+ Rh7 28 Tc8+- ou então, 24...Ce6 25 Dxg6 Dxa4 26 Tf6! Dd7 27 Tf7 Dc6 (27...Da4 28 Be7) 28 Txg7! Cxg7 29 Tf7!, ganhando. Isso, sem falar na inviabilidade de 24...Rh7?? 25 Tf7 Dc6 26 T1f6+-.

    25 Tg3 Dh5 -- diag. 4
   
É claro que se 25...De4 26 Dxe4 dxe4 27 Bxc7 Txc7 28 Te1, ganhando facilmente.

    26 Th3 Dg5 27 Tg3 Dh5 28 Bxc7!
   
Capablanca já teria feito isso há muito tempo, trocando uma posição superior, mas entrevada, por um final simples e superior -- suficiente para ganhar.

    28... Txc7 29 Txg6 Dh4
   
Num último alento, Shirov vislumbra uma miragem: 30...Dxd4+ 31 cxd4 Txc2. Mas isso não refresca em nada sua posição perdida.

    30 h3! Dxd4?! 31 cxd4 Txc2 32 Tf7 Tg8 33 Td6! -- diag. 5


  
O Junior se apressa no ganho material (33 Txa7). Em vez disso, Kasparov quer corretamente fazer dois peões passados, que valerão muito mais.

    33... Tc4 34 Txd5 Txa4 35 Tdd7 Ta1+ 36 Rf2 Ta2+ 37 Rf3 Rh7 38 e6! Rg6 39 d5! Tc8 40 Tc7! Te8 41 g4 a5 42 Txg7+ Rf6 43 Tgf7+ Re5 44 Tf5+! Rd4 45 e7, 1-0.
   
Há muito, essa partida perdera o interesse do aficionado, porquanto uma luta sem esperança nenhuma para as pretas. Valeu como referência estatística, estabelecendo um escore favorável para Kasparov (sem contar os empates) de 9 x 0!

 

 

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