: : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :   CRÔNICAS    : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :
 

  Astana - 1
 

 

 

A - Br. jogam e ganham



B - Mate em 3 lances

AstanaEm homenagem aos dez anos de sua (re)emancipação político-econômica, realiza-se em Astana, capital do Casaquistão, entre 19 de maio e 1 de junho, um dos torneios mais fortes do nosso calendário, com um rate-médio de 2.733 pontos-ELO, atingindo a considerável categoria 20.

   Por ordem de rating, 1. Garry Kasparov (13.04.63 RUS 2835) 2. Vladimir Kramnik (25.06.75 RUS 2797) 3. Alexandre Morozevich (18.07.77 RUS 2749) 4. Alexey Shirov (04.07.72 ESP 2722) 5. Boris Gelfand (24.06.68 ISR 2712) 6. Darmen Sadvakhasov (28.04.79 CAS 2585). Duplo turno.

   Há três anos, 10 de junho de 1998, Astana transformou-se oficialmente na capital do Casaquistão, substituindo nesse mister a gloriosa Alma-Ata — uma das cinco cidades-heróicas da ex-URSS, durante a 2ª Guerra Mundial.   

    A justificativa dessa mudança está em sua localização central, sendo, exatamente como a nossa Brasília, uma cidade projetada e construída com a finalidade de ser a sede política do país.

    No folder propagativo deles, esse fato é observado na exaltação que fazem de dois nomes consagrados, Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Mas a similitude entre as duas capitais deve parar por aí, por que se eles já nos superaram ao promover um torneio dessa magnitude, jamais conseguirão nos sobrepujar, ao reunir numa única cidade tantos e tão formidáveis políticos...

Shirov x Kasparov (1ªrod. Astana, 20.05.01 — Siciliana, B 84)
 1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 d4 cxd4 4 Cxd4 Cf6 5 Cc3 a6 6 Be3 e6 7 Be2 Dc7 8 0-0 b5 9 a4 b4 10 Ca2 Cxe4 11 c3 b3! 12 Dxb3 Be7 13 Bf3 Bb7 14 Dc2 Cf6 15 Bxb7 Dxb7 16 b4 0-0 17 b5 Cg4 18 Bf4 e5 19 De2 exd4 20 Dxg4 axb5 21 axb5 Dxb5 22 cxd4 Dc4 23 Tae1 Cc6! 24 Cc1 Dxd4 25 Ce2 Da4 26 Dg3 Tfd8 27 Cc3 Db3 28 Te3 d5 29 Bh6 Bf8 30 Ce4 Db2 31 Cc5? Bxc5! 32 Tc3 Bxf2+! 33 Txf2 Ta1+ 34 Tf1 Db6+ 35 Te3 Txf1+ 36 Rxf1 Dd4! 37 Dc7? Dc4+, 0-1.

Morozevich x Sadvakhasov (1ª rod. Astana, 20.05.01 — Siciliana, B 90) 
1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 d4 cxd4 4 Cxd4 Cf6 5 Cc3 a6 6 f3 e5 7 Cb3 Be6 8 Be3 h5 9 Dd2 Cbd7 10 0-0-0 Tc8 11 Rb1 Be7 12 h3 Dc7 13 Bd3 b5 14 g4! Cb6 15 Bxb6 Dxb6 16 g5 Cd7 17 Cd5 Bxd5 18 exd5 g6 19 The1 Dc7 20 h4 Cb6 21 f4! exf4 22 Dxf4 0-0 23 Cd4 Tfe8 24 Cf5! Bf8 25 Ch6+ Bxh6 26 gxh6 Rh7 27 Df6! Rxh6 28 Te6!!, 1-0.

Morozevich x Kramnik (5ª rod. Astana, 25.05.01 — Peão Dama, D 00) 
1 d4 d5 2 Bg5 c6! 3 Cf3 h6 4 Bh4 Db6 5 b3 Bf5 6 e3 e6 7 Bd3 Bxd3 8 Dxd3 Be7 9 Bxe7 Cxe7 10 c4 Cd7 11 Cc3 0-0 12 0-0 Da6! 13 Tfd1 Tfd8 14 Tab1 b6 15 Df1 Tac8 16 Td2 Cf6 17 Ce5 dxc4 18 Cxc4 Ced5 19 Tc2?! Cxc3 20 Txc3 c5! 21 dxc5?? b5! 22 Ce5 Ce4! 23 Td3 Cd2 24 Txd8+ Txd8 25 Td1 Cxf1 26 Txd8+ Rh7 27 c6 Da5!, 0-1.

       


Stalemate
 

     Marco Aurélio dizia que  "a experiência é um troféu composto por todas as armas que nos feriram". Hoje em dia, porém, com a realidade virtual, a experiência está bem mais acessível e nem precisamos chegar a extremos para adquiri-la. Para tanto, recomenda-se um pouco de humildade, ainda que essa virtude seja reconhecidamente alérgica, incompatível mesmo com essa estranha legião de deslumbrados, que nós conhecemos como enxadristas.

     Um dos primeiros registros conhecidos de "afogamento" em final de torre foi feito por Salvio, em 1634. Constava da posição a seguir (diag. 1), com o enunciado "As pretas jogam e empatam"  

     Um trabalho tão antigo assim revela claramente a ingenuidade da solução, mas também a validade do ensinamento de vigência atual. Nesse estudo de Salvio, depois de 1...Th2+! 2 Rg6 Te2!! 3 Ta1 Ta2!! (carrapato), surge o tema de afogamento, se 4...Txa2, uma vez que o rei preto, na borda do tabuleiro, não dispõe de nenhum lance válido.

     Vejamos agora, por exemplo, se a posição fosse assim (diag. 2)    

    Outra a vez, as pretas escapariam mediante 1...Ta8!, posto que se 2 Txa8, essa torre branca em a8 transformaria a sétima fileira em borda de tabuleiro, impossibilitando com isso qualquer lance válido do rei preto -- estabelecendo-se, portanto, uma poisição de "pat", que na linguagem do compositores significa "stalemate" ou "empate por afogamento".

     É interessante observar que essa mesma posição de pat existe verticalmente, mas, é claro, com um bispo fazendo as vezes do peão. E podemos encontrá-la em famoso estudo de Reti, 1928 (melhorado posteriormente por H. Rink, 1935), com a proposta (diag. 3) "As brancas jogam e ganham"

     Aqui, salta aos olhos a "facilidade" da solução: 1 Bc6+ Rd6 2 Td4+ Re5 3 Te4+ Rd6! e agora, depois de 4 Txe3 e1=D! 5 Txe1, pat! A coluna-e, dominada pela torre branca, serve de borda do tabuleiro e bispo e rei brancos ajudam na composição desse frustrante "pat vertical".

     Nesse caso, percebendo-se que o "abraço" desse bispo em c6, tal qual insuportável tenaz proibindo as casas d7 e d5, é o que leva ao nosso já conhecido modelo de pat, o solucionista logo intuirá que com 1 Bf5+! a casa d5, livre e desimpedida, evitará o pat que vimos na análise anterior: 1...Rd6 2 Td4+ Re5 3 Te4+ Rd6 4 Txe3 e1=D 5 Txe1, ganhando.

     Seria simples, se fosse assim. Depois de 1 Bf5+! Rd6 2 Td4+ Re7! 3 Te4+ Rd8!! e agora, se 4 Txe3 e1=D 5 Txe1, chegaríamos, mesmo que enviesadamente, a mais uma posição de pat. A solução desse estudo vocês encontrarão ao final desse artigo.

     Até agora, falamos de estudos, falamos de hipóteses. E o lado prático desses dois tipos de pat (horizontal e vertical), onde encontrá-los?                

     Nesse último caso, que ilustramos com um estudo de Reti, há um exemplo na partida Castro x Rocha (52º Camp. Brasileiro, Brasília/1985), que chegou à seguinte posição do diag. 4.

       As brancas acabaram de jogar 84 Rf6, ameaçando 85 Th8#. A partida seguiu com 84...Tf2+? 85 Bf5 Rd8 86 Td7+ Re8 87 Td4! Tf1 88 Th4! Rd8 89 Tc4!, 1-0. No entanto, a partida ainda estaria longe de terminar, se Rochinha tivesse "entregado" sua torre de c2, com 84...Rd8!! 85 Th8+ Rc7 86 Tc8+ Rd6! e as pretas se salvariam.

     Voltemos agora ao tema principal, que é o "pat horizontal" em finais de torre. Antes, precisamos apresentar um dos protagonistas da cena que vamos comentar: Dr. Ossip Bernstein (1882-1962), um dos maiores enxadristas de sua época, Bernstein tornou-se mais famoso ainda por protagonizar um episódio singular. Na abertura do Supertorneio de St. Petersburg, 1914, ele insurgiu-se contra a "presença inexpressiva de jogadores incipientes, como, por exemplo, o Sr. Capablanca". Resultado: o genial cubano conquistou o prêmio de beleza desse torneio justamente às custas do melindrado Ossip, como veremos a seguir.

     Capablanca x Bernstein (St. Petersburg, 1914 - Merano, D 52) 
1 d4 d5 2 Cf3 Cf6 3 c4 e6 4 Cc3 Cbd7 5 Bg5 Be7 6 e3 c6 7 Bd3 dxc4 8 Bxc4 b5 9 Bd3 a6 10 e4 e5 11 dxe5 Cg4 12 Bf4 Bc5 13 0-0 Dc7 14 Tc1 f6 15 Bg3 fxe5
(diagrama) 16 b4 Ba7 17 Bxb5 axb5 18 Cxb5 Dd8 19 Cd6+ Rf8 20 Txc6 Cb6 21 Bh4 Dd7 22 Cxc8 Dxc6 23 Dd8+ De8 24 Be7+ Rf7 25 Cd6+ Rg6 26 Ch4+ Rh5 27 Cxe8 Txd8 28 Cxg7+ Rh6 29 Cgf5+ Rh5 30 h3 Cc8 31 hxg4+ Rxg4 32 Bxd8 Txd8 33 g3 Td2 34 Rg2 Te2 35 a4 Cb6 36 Ce3+ Rh5 37 a5 Cd7 38 Chf5 Cf6 39 b5 Bd4 40 Rf3 Ta2 41 a6 Ba7 42 Tc1 Tb2 43 g4+ Rg6 44 Tc7 Txf2+ 45 Rxf2 Cxg4+ 46 Rf3, 1-0.
 

 



 

     Em 1946, vamos encontrá-lo pimpão e lampeiro, ainda na ativa, disputando o Torneio de Groningen, um dos mais fortes do século passado. E ei-lo enfrentando nada menos do que um dos maiores nomes da época e em plena ascenção, que viria a ser um sólido campeão mundial: Vassily Smyslov ! 
     Vassily fez o veterano Ossip passar maus bocados, tendo chegado à ganhadora posição do
diag.
6

     Aqui, alardeando uma tranqüilidade que nunca se deve ter em se tratando de final de torre -- esse jogo tão parecido com o xadrez (Alekhine) -- o jovem Smyslov não hesitou ao jogar o "ganhador" 59...b2 e qual não deve ter sido sua surpresa, quando Ossip jogou 60 Txb2!! Só aí então é que o futuro campeão do mundo compreendeu que jogara pela janela da inexperiência todo o penoso labor de uma partida, pois se 60...Th2+ 61 Rf3!, empatando. 

     É evidente que o correto seria 59...Te3+! e se 60 Rd2, as pretas teriam o rei branco exilado na ala da dama e ganhariam com o seu peão-f. Ou então, se 60 Rf2, o rei preto passaria para a ala da dama, ganhando com o peão-b. O desastre é que, sempre, o lado em vantagem pensa que vai ganhar com os dois peões a mais, quando, na realidade, basta-lhe apenas um para concretizar sua superioridade. Em tempo: onze anos depois desse vexame, Smyslov (em parceria com Lowenfisch) publicou o mais famoso e básico livro sobre esse tipo de final: "Finais de Torre". 

     Agora, em Astana, 2ª rodada, na partida Shirov-Morozevich  ,chegou-se à seguinte posição do diag. 7
     O meu soft Hiarcs-7.32, excepcional finalista, registra uma vantagem ganhadora para as brancas de +-1.80 e indica o correto 54 Ta5+ Rb6 55 Tf5! Th4 e aqui, sem pressa, Shirov podia seguir com 56 Rb2! Rc7 57 Ra3 Th1 58 Ra4 Ta1+ 59 Rb5 Te1 60 b4 Te6 61 Rc5! Tc6+ 62 Rd5 Rb6 63 Re5! Tc4 64 Tf4!! Tc3 65 Tf6+, ganhando.

     O super GM-A Alexey Shirov (que tem 2.722 pontos-ELO) jogou 54 Ta6? Seu adversário, o super GM-A Alexandre Morozevich (que tem 2.749 pontos-ELO) seguiu com 54...Th3+! 55 Rb2 -- diag, 8

    Será que agora vocês perceberam aonde eu quero chegar? Será que esse último diagrama não lhes faz lembrar de nada?

     Jogando como jogou, Shirov permitiu que aqui Morozevich jogasse, como não jogou55...Txh5!!, empatando. Pelas minhas contas (2.749 + 2.722), estamos diante de uma cegueira dupla, majestosa capivarada, orçada em 5.471 pontos-ELO -- possivelmente, um novo e acabrunhante recorde para quem se rotula como a refinadíssima elite do xadrez mundial.

     Diante do exposto, somos obrigados a reconhecer que, de acordo com Alekhine, em termos de finais de torre -- TODO O MUNDO É CAPIVARA!

SOLUÇÃO do estudo de Richard Reti: 1 Bf5+! Rd6 2 Td4+ Re7! 3 Te4+ Rd8!! 4 Bd7!!! e1=D (se 4...Rxd7 5 Txe3+-) e agora, 5 Bb5! -- acobertando seu rei de qualquer incômodo xeque e ameaçando um mate indefensável em e8.

     Como começamos este artigo falando sobre experiência, nada nos custa arrematá-lo com uma sentença de Sêneca: "O juízo dos homens experientes descobre pelas coisas claras, as escuras; pelas pequenas, as grandes; pelas próximas, as remotas, pela partes, a totalidade".

    Muito mais de acordo com estas notas descontraídas, porém, está o pensamento de Judith Stern: "A experiência é um pente que a vida nos dá quando já não temos mais cabelos".                  



 


Solução: 588
A
(J. Sehwers, Schachstudien, 1911) 1 Tb4! Dc8 (1...Da7 2 Be3 Da8 3 Tb8!+-) 2 Tb8 Dc6 3 Tb6!! Dxb6 4 c5+!+-.     
B
(Y. Pavlov, Conc. in Ucrânia KFS, 1951) 1 Bh1! Rxh1 2 Rg3 Rg1 3 Tb1++; 1... Rf1 2 Re3 g3 3 Tb1++; 1...g3 2 Rf3 g2 3 Tb1++.

 

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