: : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :   CRÔNICAS    : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :
 

  Jakovenko
 

 

 

    O alucinante ritmo dos meios de comunicação (computador acessível, informação no fusível) vem provocando o surgimento de uma legião de jovens prodígios, que há alguns anos causariam uma verdadeira comoção mundial. E o assombro maior está na consistência técnica dessa moçada, que nos faz conjecturar numa possível e próxima indignação de um deles:

     — Xii, rapaz, já estás com 13 anos de idade e ainda não conseguiste o teu título de grande mestre?!...

     Depois de Fischer, passaram-se muitos anos até a explosão luminosa de Judit Polgar, superando-o em idade (15) na obtenção do título de GM. Em seguida, com incrível rapidez e agora já denunciando a soberania incontestável do computador, o tabuleiro internacional começou a pipocar de gênios facilitados: Peter Leko (14), Ruslam Ponomariov (13), Xiangzhi Bu (13) Etienne Bacrot (13), Teimur Radiabov (12) etc.

      Há pouco, o ‘‘coroa’’ Alexander Grischuk (17) perfilou-se entre os quatro semifinalistas do campeonato mundial, em Nova Delhi. E ainda este mês, outro ‘‘coroa’’, Dmitrij Jakovenko (19.06.83 Rússia 2.520) sagrou-se campeão no fortíssimo 9º Open Internacional Valle de Aosta, em Saint Vicent, Itália, superando nada menos do que 29 grandes mestres.

     D. Jakovenko (2.520) x (2.250) C. Pernigotti (1ª rod. Valle de Aosta, 03.02.01 — Francesa, C 14) 
     1 e4 e6 2 d4 d5 3 Cc3 Cf6 4 Bg5 Be7 5 e5 Cfd7 6 Bxe7 Dxe7 7 f4 a6 8 Cf3 b6 9 Dd2 c5 10 Cd1 Cc6 11 c3 Bb7 12 Bd3 Tc8 13 0-0 g6 14 Ce3 cxd4 15 Cxd4 b5 16 Tae1! Dc5 17 Bb1 b4 18 Rh1 bxc3 19 bxc3 Cxd4 20 cxd4 Dc3 21 Dd1 0-0 22 f5!! exf5 23 Cxf5! Tc4 24 Te3! Da5 25 Th3 Dd8 26 Dd2!, 1-0.

     D. Flores (2.355) x (2.520) D. Jakovenko (2ª rod. Valle de Aosta, 04.02.01 — Siciliana, B 22)
      1 e4 c5 2 Cf3 e6 3 c3 Cf6 4 e5 Cd5 5 Bc4 Cc6 6 0-0 d6 7 d4 cxd4 8 cxd4 Be7 9 De2 0-0 10 Cc3 dxe5 11 dxe5 Cxc3 12 bxc3 Da5 13 De4 Da4! 14 Bg5 h6! 15 Bxe7 Cxe7 16 Tab1 Tb8 17 Tfd1 b6 18 Td4 Bb7! 19 Dd3 Bxf3 20 gxf3 Dc6 21 Td6 Dc5 22 De4 Tbc8 23 Bd3 Cf5! 24 Td7 Dxc3 25 Txa7 Tcd8 26 Bf1 Td4! 27 De2 Td2 28 Ta3 Dd4! 29 De1 Td8 30 Bh3 Ch4 31 De3 Dxe3 32 Txe3 Txa2 33 Bf1 Tdd2 34 Bc4 Tab2 35 Txb2 Txb2 36 h3 b5! 37 Bd3 g5! 38 Be4 Rg7 39 Tc3 Cg6! 40 Bxg6 Rxg6 41 Tc7 Td2!!, 0-1.


Simultânea n’A HEBRAICA

     O Departamento de Xadrez d’A Hebraica, homenageando seu talentoso atleta André Diamant (09.02.1990), uma das maiores esperanças do xadrez nacional e que acaba de vencer brilhantemente o Campeonato Paulista Sub-12 realizado este mês em Santos, promoverá no próximo dia 4 uma "Simultânea Dupla", quando 20 enxadristas jogarão comigo e outros 20, com André.

     A participação é gratuita e aberta ao público, sendo que os interessados deverão dirigir-se à Rua Alceu Assis, nº 25 (ao lado da Rua Hungria, 1.000) até as 14h30. O diretor da prova, Milton Matone, garante a pontualidade dessa interessante simultânea para as 15h.


     D. Jakovenko (2.520) x (2.470) M. Cebalo (6ª rod. 9º Open International Vale de Aosta, Saint Vicent/ITÁLIA, 06.02.01 -- Siciliana, B 79)

     1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 d4 cxd4 4 Cxd4 Cf6 5 Cc3 g6!
    
O GM croata Miso Cebalo (06.02.45) adota sempre a variante do Dragão, uma das mais perigosas e controvertidas dentre as muitas que existem. Mas é preciso ter muita coragem para isso, algo assim como colocar a cabeça na boca de um leão e rezar para que ele tenha acabado de fazer uma opípara refeição. Senão...

     6 Be3 Bg7 7 f3 0-0 8 Bc4 Cc6 9 Dd2
     Dmitrij opta pelo ataque Rauzer, de assalto direto à ala do rei, quando fica estabelecida uma luta de roques opostos. Alguns teóricos denominam-no como ataque Iugoslavo; já entre o capivaréu, popularizou-se com o nome de ataque São Jorge -- o querido santo corinthiano que aniquila o Dragão.

     9... Bd7 10 Bb3!? Da5!?

    

     Vejam vocês o que é a volubilidade da teoria: em 1968, na Olimpíada de Lugano, na Suiça, enfrentavam-se Brasil x Escócia. Eu, no terceiro tabuleiro, jogava com o MI Davy Levy, que acabara de lançar um livro sobre a variante do Dragão -- fato do meu completo desconhecimento. Nesse livro, há o registro recriminando 10 Bb3, lance duvidoso, em vista de 10...Cxd4! 11 Bxd4 b5! e as pretas "crescem" na ala da dama com muita rapidez, observando-se o detalhe de que elas sequer precisaram perder um tempo com ...a6 para empreender uma expansão naquela ala.
     Depois de 11...b5!, eu segui com 12 h4?! a5! 13 h5. Aqui, levantei-me para cumprimentar um amigo que eu não via há muito, Gandolpho Giorgio, um aeronauta italiano que eu conhecera no Rio, mas que parara de fazer vôos intercontinentais. No caminho, o capitão de nossa equipe, mestre Ronald Câmara, perguntou-se como eu estava me sentindo na partida e eu, sem me deter, lhe respondi que estava me sentindo bem, muito bem.
     Uma observação: o mestre Ronald sempre foi um "dragoneiro" incondicional e o seu título de bi-campeão brasileiro se deve em boa parte a essa aguda linha de jogo, sem falar nos muitos sucessos que ele obteve na arena internacional sempre empunhando esse gládio de dois afiadíssimos gumes, que os expertos garantem ser mais amolado pelo lado de dentro...
     Minha partida seguiu com 13...e5! 14 Be3 a4! 15 Bd5 b4!! 16 Ce2 Cxd5! 17 Dxd5 Be6. Somente nessa posição, eu comecei a perceber o alcance da pergunta que Ronald me formulara e a ingênua resposta que eu lhe dera. Aqui, mesmo sem ter consciência disso, eu estava era perdidinho da silva. Posicionalmente, então, a situação das brancas é um desastre, sendo que nem rocar é plausível. Mas como quem não tem aonde ir, qualquer caminho é caminho, resolvi completar o meu esboço de ataque na ala do rei, por mais sonrisal que ele pudesse parecer.
     Essa dolorosa partida continuou com 18 Dd2 b3! 19 Bh6?? Bxh6! 20 Dxh6 Dc7? "As pretas ganhariam imediatamente com 20  ... g5!!, deixando a dama branca inoperante, e enclausurada", conforme análises de Anthony Miles & Eric Moscow, no livro "Sicilian Dragon, Yuguslav Attack" (Batsford 1979, pg.133), referentes a essa minha partida. E a tragédia se movimentou com 21 cxb3 axb3 22 a3 Da7! 23 Cc3 Tac8?! 24 Tc1 Tc6?! Talvez por desestímulo, Levy não se esforça por encontrar o melhor, que seria a imediata detonação do centro.
     25 hxg6 fxg6 26 Cb5! Numa posição em que até perder é um bom resultado, pois acaba de vez com o nosso sofrimento, Levy relaxa sua guarda e comete algumas imprecisões , sem afetar contudo sua superioridade.
     26... Txc1+ 27 Dxc1 Db6 28 Cc3 Dd4! 29 Ce2 Da7 30 Dd2 Td8 31 Cc3 Db6 O apenas estar superior não vence partida e Levy devia ter procurado desde o início o rompimento ...d5 (ao invés de lances como 23...Tac8?!). Aos poucos, as brancas vão conseguindo respirar, não obstante a precária situação de seu rei malabarista.
     32 Rd1 d5 33 exd5 Bxd5 34 Cxd5 De6 35 Re2! Txd5 36 Db4 Td8 37 Tc1! Parodiando o samba de Paulo Vanzolini, o lema do capivara devia ser esse: "Reconhece a queda e o esculacho: se agacha, rasteja silente... e dá a volta por baixo!"...
     37... Td4 38 Db7 Td7 39 Dc8+ Rf7 40 Dc4 Td5 41 Tc3! É claro que se 40 Td1?? Td2+ e ganham.
     41... Rf6 42 Dh4+ Rg7 43 Txb3 Da6+ 44 Rf2 Da7+ 45 Rg3 Td2 46 Dg5! Agora, é a vez das brancas defenderem seu ponto fraco (g2) com uma guilhotina vertical. Se, por exemplo, 46...Df2+?? 47 Rh3 e as pretas não teriam como parar as ameaças Dxe5+ e/ou Tb7+, ambas fatais.
     46... Td5 47 Rh2 h6 48 De3 De7 49 De4! Df7 É claro que se 49...Td4 50 Tb7!, ganhando.
     50 Tb6 g5  51 Tg6+! Dxg6 52 Dxd5 Df5 53 De4 De6 54 b4! h5 55 b5! g4 56 fxg4 hxg4 57 a4! Rf7 58 a5! Dd6 59 a6! Rf8 60 a7, 1-0.
     Levy cumprimentou-me educadamente, mas era visível seu acabrunhamento, seu transtorno. O resultado, além de injusto, impedia-o de exaltar seu correto ponto de vista com relação a essa variante.
     Após a assinatura das súmulas, levantei-me e olhei para trás. À pouca distância, o nosso capitão (Ronald), em pé, sério, apenas meneava a cabeça lenta e negativamente, como quem diz "como é que pode!?".
     À noite, ao jantar, ele me contou que tinha o livro de Levy e conhecia toda a variante. Qualquer comentário que porventura ele tivesse feito arruinaria a minha "benfazeja ignorância".
     Realmente, meio caminho andado para se perder uma partida é sentir-se perdido. E uma vez mais eu me lembrei do meu saudoso amigo Ademarzão (Adhemar Mendonça), quando ele me passava a fórmula da felicidade:
"Feliz de quem nasce burro, vive ignorante e morre de repente!".

     11 0-0-0 Tfc8 12 h4 Ce5 13 g4 b5 14 h5
    
Outra possibilidade seria 14 Bh6 Bxh6 15 Dxh6 Txc7!? 16 bxc3 Dxc3 17 Rb1 a5 18 Dd2 Dc5 19 g5 Ch5 20 f4 Cf4 21 Bxc4 bxc4 22 c3 Ba4 23 Tc1 e5 24 Ce2 Bc6, com um ativo jogo de peças compensando a qualidade, 0-1 in 43. Raineri-Cebalo, Open Milão 2000.     

   14... Cc4 15 Bxc4 bxc4 16 Bh6
     Ou então, 16 hxg6 fxg6 17 Rb1 Tab8 18 Ra1 Db4 19 Tb1 Tc5 20 a3 Db7, com um jogo indefinido em que as chances de ambos são equivalentes, ½-½ in 72. Rogers-Cebalo, Casino Open, Baden/SUIÇA, 1999. Como se observa,
Miso Cebalo é um empedernido dragoneiro e isso deve ter facilitado a preparação teórica de Dmitrij, que por certo sabia de sua preferência por esse específico seguimento (...Da5, Tfc8, b5).

      16... Bh8  
     É arriscado seguir com 16...Tab8?! 17 Bxg7 Rxg7 18 hxg6 fxg6 19 Dh6+ Rf7 20 g5 Ce8 21 Th4! e5 22 Dxh7+ Cg7 23 Th6 exd4 24 Dxg6+, 1-0. Geenen-Rouillon, Open Cannes/FRANÇA, 2000.

     17 Rb1
     O mais comum é 17 Cf5!? Te8 18 Dg5! Db6 19 fxg6 fxg6 20 Bg7! Bxg7 21 Cxg7 Teb8 22 Ch5 Cxh5 23 gxh5 Be8 24 b3 cxb3 25 axb3 Dc5 26 Cd5 Tb7 27 Cxe7+ Txe7 28 Dxe7 Tc8 29 Th2 e as brancas se impuseram, 1-0 in 39. Nunn-Ward, Birmingham/UK, 1998; ou ainda, 17 Cf5!? Bxf5 18 gxf5 Tab8 19 hxg6 fxg6 20 fxg6 Txb2 21 g7! Da3 22 gxh8=D+ Rxh8 23 Dd4! Tcb8 24 Tdg1 Txa2+ 25 Rd1 Tb1+ 26 Cxb1 Dxf3+ 27 Rc1, 1-0. Ristic-Naegele, Open Bad Wildbad/ALEMANHA, 2000.

     17... Db6 18 hxg6 fxg6 19 Dh2!
     Taí um lance com cheiro de resina, chip e lataria: a dama em h2 é uma régua-T, atuando horizontal (segunda fileira) e verticalmente (coluna-h), permitindo a volta do bispo de h6 para c1, defendendo o mate em b2 e desobstruindo o caminho de assalto das brancas na ala do rei.

     19... Tab8 20 Bc1 Bg7 21 Cd5
     O meu Fritz-6.0 sugere 21 Dh4! (+0.53), enquanto que para 21 Cd5 a vantagem aferida é de apenas +0.41. O fato, porém, é que o lance do texto destroi o principal esteio da defesa das pretas, que é esse cavalo em f6.

     21... Cxd5! 22 exd5
     Seria um desastre 22 Dxh7+?? Rf7 23 exd5 Th8 e as pretas venceriam.

     22... h6
     Se 22...Bxd4+?? 23 Dxh7+ Rf8 30 Bh6+, seguido de mate.

     23 c3 Tf8 24 Dc2!
    
Agora é a vez de deslocar a dama na defesa de b2, liberando o bispo para o assalto em h6. Quais sílfides esvoaçantes, os lances de Dmitrij lembram-nos por sua leveza os envolventes passos de dança de Fred Astaire flutuando no tablado de nossa imaginação.

     24... g5 25 Ra1 Tf7 26 f4!!
    
Depois desse lance, o Fritz assinala uma vantagem para as brancas assaz significativa de +1.09.

     26... Bxg4
     No caso de 26...gxf4 27 Cf5! Bxf5 28 gxf5 a5 29 Bxf4 a4 30 Tb1, com um diagrama parecido com o da partida.

     27 Tdg1! Bxd4
     Se 27...Bd7 28 Ce6! a6 29 fxg5 Bxe6 30 dxe6 Tf2 31 Dxf2 Dxf2 32 gxh6 +2.25.

     28 Txg4 Bg7 29 fxg5 Tf2
    
É notável como os lances de Dmitrij coincidem com os lances do Fritz. Ou será que são os lances do Fritz que coincidem com os lances de Dmitrij?

     30 Dxf2! Dxf2 31 gxh6 Df3 32 Txg7+ Rh8
     Se 32...Rf8 33 Te1 Df2 34 Teg1! Re8 35 T7g2!+-.

      33 Thg1 Tf8 34 h7!?
      O Fritz se recusa a entregar seu peão-h e, com sua costumeira fome material, recomenda 34 Txe7; Dmitrij, porém, vislumbra uma humana, bela e irresistível rede de mate, que lhe renderá maiores dividendos.

     34... Tf7 35 Tg8+ Rxh7 36 T8g3!
     Agora, a dama está condenada a permanecer indefinidamente na coluna-h, sem poder sair daí para nada. 

     36... Dh5 37 a3
     Movido talvez pelo zeitnot, Dmitrij executa um lance profilático, liberando de vez seu bispo defensivo de c1.

     37... a5 38 Ra2 a4 39 Be3!!
     Depois que esse bispo se instalar em d4, as pretas não terão tempo nem de abandonar.

     39... Dh4 40 T1g2 Dh5 41 Bd4! Dh6 42 Tg8 Tf6
     Única, mas insuficiente. O arremate é irrepreensível.

     43 T2g4 Dd2
     As pretas precisam impedir a sequência 44 T4g7+ Rh6 45 Be3+. Não servia 44...Dh3, em vista de 45 T4g7+ Rh6 46 Th8+! Rxg7 47 Txh3 e as brancas ficariam com uma torre inteira de vantagem.

     44 Bxf6! exf6 45 T4g7+! Rh6 46 Tg2!!, 1-0.
     As pretas perderiam a dama ou levariam mate. Uma partida que revela um jogador de estilo apurado, uma séria promessa capaz de figurar em futuro próximo entre os melhores do Olimpo caissano.

     Uma última observação: Jakovenko que tem força de GM é apenas Mestre Internacional, faltando-lhe ainda duas normas para o título de Grande Mestre. Os 29 GMs que ele superou já têm esse título; ele, a força.


Soluções 575   
  (T. Gorgiev, Concurso in Moscou, 1935 -- 1ª MH) 1 d7 g2+! 2 Rxg2 Te2+ 3 Rf3 Td2 4 Rf4! Tc3 5 Bd3!! Tcxd3 6 d8=D+! Txd8 7 Th1+ Th2 8 Txh2#. 
B
  (G. Zahodiakin, URSS, 1966) 1 Dg2! (zug; se 1 Df3? Bf7! ou 1 Dh1? Bg8!) 1...Bf7 2 Df3!! Be6 3 Df8#; 2...Be8 3 Dxe5#.

 

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