: : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :   CRÔNICAS    : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :
 

   Melody Amber 2002 - 1
 

Um admirável show de competência e virtuosismo nas modalidades mais lúdicas do xadrez magistral
 

 

A - Br. jogam e ganham



B - Mate em 3 lances

 

Em Monte Carlo, entre 16 e 28 deste mês, realiza-se um dos mais instigantes eventos do nosso calendário magistral, o Amber Blindfold and Rapid Tournament, agora em sua 11ª edição, uma homenagem que o mecenas holandês J. J. van Oosterom presta à sua filha Melody Amber.

     Este ano, o campo da prova conta com a participação dos mais destacados astros do topboard internacional, anotando-se, por ordem de rating: 1. Vladimir Kramnik (25.06.75 Rus 2809); 2. Alexander Morozevich (18.07.77 Rus 2742); 3. Veselin Topalov (15.03.75 Bul 2739); 4. Vassily Ivanchuk (18.03.69 Ucr 2717); 5. Alexey Shirov (04.07.72 Esp 2715); 6. Peter Leko (08.09.79 Hun 2713); 7. Boris Gelfand (24.06.68 Isr 2709); 8. Evgeny Bareev (21.11.66 Rus 2707); 9. Loek Van Wely (07.10.72 Hol 2697); 10. Jeroen Piket (27.01.69 Hol 2659); 11. Zoltan Almasi (29.08.76 Hun 2644); 12. Ljubomir Ljubojevic (02.11.50 Iug 2548). Rate-médio de 2699 pontos-ELO, cat. 18.

     Na presente edição, registraram-se duas alterações com relação ao ano passado: os GM-As russos A. Morozevich e E. Bareev substituiram os ex-campeões mundiais da Fide, Viswanathan Anand e Anatoly Karpov, sem alterar-lhe contudo a sua força de rating.

     Esse torneio evidencia duas modalidades que requerem um aprimoramento específico. São dois matches diários defrontando os mesmos adversários nas modalidades às cegas (25 minutos a finish para cada um, mas com um bônus no “relógio de Fischer” de 20 segundos por lance executado) e rápida (25m + 10s p/ lance).

     Nas partidas às cegas, cada jogador tem diante de si a figura de um tabuleiro no monitor vazio. Os lances são executados através do mouse ou digitados no teclado. Quando o lance aparece na tela, o relógio de quem tem o lance a ser feito é acionado. Em seguida, a tela volta a ficar vazia. Daí em diante, o jogador conta apenas com o finíssimo e virtual fio metálico de sua memória para “visualizar” a posição e se equilibrar no precipício de suas dúvidas.

     Na galeria dos campeões do “Melody Amber”: 1. (1992) V. Ivanchuk; 2. (1993) L. Ljubojevic; 3. (1994) V. Anand; 4. (1995) A. Karpov; 5. (1996) V. Kramnik; 6. (1997) V. Anand; 7. (1998) A. Shirov e V. Kramnik; 8. (1999) V. Kramnik; 9. (2000) A. Shirov; 10 (2001) V. Topalov e V. Kramnik.

     As rodadas são efetuadas no luxuoso Hotel Metropol Palace de Monte Carlo e os prêmios ultrapassam 193 mil dólares. Aos internautas interessados em mais detalhes sobre essa magnífica prova, recomendamos o site http://chess.lostcity.nl/amber.

A. Shirov (2715) x (2655) J. Piket (1ª rod. Amber, às cegas, 16.03.02 Espanhola, C 99)
 1 e4 e5 2 Cf3 Cc6 3 Bb5 a6 4 Ba4 Cf6 5 0-0 Be7
Com certos jogadores, parece haver um tácito acordo de jogarem entre si sempre a mesma abertura, como a querer provar alguma coisa; quando
Shirov (brancas) e Piket (pretas) se encontram, todos já sabem que vão testemunhar uma Espanhola —- não importando qual variante. Assim, em 1999, 2000, 2001 e agora este ano, sempre na modalidade às cegas do “Amber” aconteceu essa abertura. Em 1999 (C 78), 5...b5 6 Bb3 Bc5 7 a4 Tb8 8 axb5 axb5 9 c3 d6 10 d4 Bb6, ½-½ in 31; em 2000 (C 84), 5...Cxe4 6 d4 b5 7 Bb3 d5 8 dxe5 Be6 9 Be3 Be7 10 c3 Cc5, 1-0 in 32; em 2001 (C 96), 5…Be7 6 Te1 b5 7 Bb3 d6 8 c3 0-0 9 h3 Ca5 10 Bc2 c5 11 d4 Bb7, 1-0 in 35.

6 Te1 b5 7 Bb3 d6 8 c3 0-0 9 h3 Ca5
Outra possibilidade seria 9...Cd7 10 d4 Bf6 11 a4 Bb7 12 axb5 axb5 13 Txa8 Dxa8 14 d5 Ca5 15 Bc2 Cc4 com equilíbrio, ½-½ in 37. Shirov-Piket, Montecatini/ITA 2000. É incrível como esses dois insistem nessa pendenga.

10 Bc2 c5 11 d4 Dc7 12 Cbd2 cxd4 13 cxd4 Td8
 Ou então, 13...Cc6 14 Cb3 a5 15 Be3 a4 16 Cbd2 Bd7 17 a3 Tfe8 18 Bd3 Db7 19 De2 exd4 20 Cxd4 d5 21 Cxc6 Bxc6 22 e5 e, superiores, as brancas venceram, 1-0 in 59. Shirov-Fritz on Primergy K800, m/computer, Frankfurt/ALE 2000.

14 b3 exd4 15 Bb2 Cc6 16 Cxd4 Cxd4 17 Bxd4 Be6 —- diag. 1
 
A teoria consagra esta continuação, mas há quem prefira 17...Bb7 18 Tc1 Da5 19 Bb1 Tac8 20 Txc8 Txc8 21 Cf1 Te8 22 Ce3! e sempre com a iniciativa, as brancas se impuseran, 1-0 in 41. Judit-Milos, Mem. Najdorf, Buenos Aires/ARG 2001.

18 Cf3!?
 
Em três marcantes exemplos referentes a esta posição, todos seguiram com 18 Tc1 Da5 19 Cf1, sendo que um deles, o mais recente, parece ter servido de modelo para o ataque desenvolvido por Shirov: 19...Tac8 20 Ce3 g6 21 Cf5! Bxf5 22 exf5 Cd5 23 fxg6 hxg6 24 Bxg6 fxg6 25 Dg4 Rh7 26 De6 Txc1? 27 Df7+! Rh6 28 Bg7+ Rh5 29 Df3+, 1-0. Dervishi-Estrada Nieto, 10º Open Valle d'Aosta/ITA 2002.

18...h6 19 Tc1 Da5
 
A ameaça era 20 e5 e 21 Bh7+. Esta partida e o exemplo que acabamos de ver demonstram que todos os males das pretas derivam do perigoso exílio de sua dama, agora precariamente equilibrada no parapeito do tabuleiro, sem poder participar do drama que vitimará seu consorte.

20 Bb1 Tac8 21 Txc8! Bxc8 22 Te2 Bb7
 De acordo com o que dissemos, o Chess Tiger 14.0 recomenda aqui o imediato 22...Dc7, reintegrando a dama no combate; ainda assim, sua inferioridade seria de insignificantes -0.34. Com o lance do texto, a miséria já é de razoáveis -0.50.

 23 Ch4!
  Você me diz onde está postada a sentinela que eu quero passar pelo outro lado dela. Nesta posição, o Tiger registra uma vantagem de +0.52 para as brancas, é claro.

23...g6 24 Dc1! Rh7 25 Df4 Rg7
 
Observem que todas as peças brancas atuam a pleno no assédio à ala do rei; aqui, Alexey vai seguir com o “normal” 26 Dg3, que o Tiger sequer registra entre suas três principais opções, que são: A. 26 Rh2!? (+0.92) B. 26 g4! (+1.08) e principalmente C. 26 Te3!!, com um vitorioso índice de +-1.76.

26 Dg3 Rf8 (diag. 2) 27 Cxg6+!!
 Ganharia também o “olho de caranguejo” 27 De3!, ameaçando pontos diametralmente opostos (h6 e b6), para quem o Tiger atribui +-1.48. Para esse fulminante sacrifício, porém, ele registra o vitorioso índice de +-3.70.

27...fxg6 28 Dxg6 Da3!? 29 Te1
 Pragmático, o Tiger recomenda 20 Rh2! (+5.82) ou mesmo 29 Te3 Tc8 30 Bxf6 Tc1+ 31 Rh2 Bxf6 32 Dxf6+ Re8 33 e5! Rd7 34 e6+ Rc7 35 e7 Bc6 36 Bg6 etc.

29... Db4 30 Td1!
 Essa régua-T em d1 anula completamente a participação da dama preta no combate. Depois disso, vem aquele sonoro pigarro e a indefectível pergunta: “onde foi mesmo que nós paramos?...”

30...Ce8
 
O Tiger atenua a inferiorioridade das pretas (-5.34) sugerindo 30...Td7 — como quem recomenda arsênico no lugar de cianureto para evitar que a morte seja instantânea.

31 Dxh6+ Rf7 32 e5!
 
Convocado, o bispo de b1 presto se paramenta para ministrar a extrema-unção no Otelo em f7.

32...dxe5 33 Bg6+ Re6 34 Bf5+!!
 
Ou seja, desencastelando o rei adversário para que melhor ele seja alvo da turba enfurecida. E aqui, é lógico, se 34...Rd5 35 De6# ou 34...Rf7 35 Be6#.

34...Rxf5 35 g4+! Re4 36 Dg6+! Rf3
 Isso conduz ao mate; para prolongar a agonia, 36...Rd5 37 Bb6+! Dd4 38 Txd4+ exd4 39 Bxd8 Bxd8 40 Dxe8 Ba5 41 Dd7+, com fácil triunfo.

37 Df5+ Re2 38 Dd3#, 1-0.

     Não se pode esquecer de que esta partida foi jogada às cegas, de memória, sem que nenhum dos dois pudessem ver o que se desenrolava no tabuleiro que ficava aos cuidados de um árbitro que apenas reproduzia o que ambos jogavam digitalmente.


Soluções
630 A (M. Palmer, The Checkerist, 1926) 1 c7! Tc8 2 Bd7!! Txc7 3 Bb8 Rd6 4 Ba4 h5 5 Rf2! h4 6 Rg1! g4 7 Rg2 f4 8 Rg1!! h3 9 Rh2 f3 10 Rg3 f2 11 Rxf2 h2 12 Rg2 g3 13 Rh1+-.
B (M. Marandiuk, Tinerímia Moldavia, 1981 - 2º pr.) 1 Bg3! (zug) 1... Rc5 2 Rc3 c6/Rd5 3 Da5/Dc4#; 1…c6 2 Rd3 c5/Rc5 3 Be1/Da5#; 1…c5 2 Be5 g3/c4 3 Bc3/Bd6#.

 

 

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