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   Gaviões da Fiel & Águias Magistrais
 

Após o consagrador desfile dos gaviões, a cena pertence agora às águias do xadrez magistral
 

 

A - Br. jogam e ganham



B - Mate em 3 lances

 

   O desfile carnavalesco da Escola de Samba Gaviões da Fiel, da feliz nação corinthiana, com o vitorioso tema Xeque-Mate, notabilizando a origem e evolução do xadrez, fez mais pela divulgação do nosso esporte, em 70 minutos, do que todas as promoções efetuadas entre nós nesses últimos sete anos. Os autores, José Rifai e Alemão do Cavaco, foram muito felizes no desenvolvimento do tema, ao mesmo tempo em que faziam oportunas correlações com o “tabuleiro da vida” e suas condenáveis mazelas sociais.

     A história dos sambas de enredo remonta ao início dos anos 20, mais precisamente1923, quando o consagrado escritor e poeta (“ser mãe é desdobrar fibra por fibra o coração”) Henrique Maximiniano Coelho Neto propôs que as músicas animadoras dos então blocos carnavalescos tivessem um cunho cívico, apologético de alguma figura do nosso panteão político ou artístico.   

     Sua proposição previa que cada bloco desenvolvesse uma “Aquarela    Brasileira” (daí, por que Ari Barroso batizou seu samba-exaltação     deexaltação de Aquarela do Brasil, diferenciando-o da sugestão de Coelho Neto — remendo que se repetiria, com famigerada notoriedade, entre PCB e PCdoB).

     Já que era inviável acabar com “a pagodeira nos dias de carnaval”, que se procurasse uma maneira instrutiva de aproveitá-la, sem lhe tirar no entanto o espírito folgazão. Algo assim, como colocar uma aberrante gravata no pescoço de um índio para minimizar seu natural despudor.

     As transformações de blocos em escolas e das composições com repetitivo estribilho (que mais serviam para fustigar o pessoal dos blocos adversários do que para exaltar quem quer que fosse) em sambas que contivessem algum enredo objetivo só aconteceria em 1934.

     Segundo o historiador José Ramos Tinhorão em seu bem documentado livro Pequena História da Música Popular “em 1934, o prefeito do então Distrito Federal (Rio de Janeiro), Pedro Ernesto, percebendo a importância política das agremiações carnavalescas, àquele tempo as únicas organizações capazes de congregar as massas populares da cidade, dispôs-se a oficializar os desfiles de carnaval, sendo que uma das condições para o recebimento de dotações era a legalização de tais grupos na polícia”.

     Dessa data em diante, o que temos visto (e ouvido, principalmente) é um esforço sobre-humano da moçada pouco instruída sobre fatos históricos a desenvolver temas laudatórios e quilométricos, focalizando figuras esquecidas na densa bruma de nosso passado. E esses esforços nem sempre felizes, pesquisa precária, têm provocado a cruel gozação dos “rapazes de seda” — cronistas de formação secundária, que nunca passaram fome e muito menos pegaram no pesado, a se divertir com algum lapso ou desinformação, como se isso diminuísse a alegria ou a mensagem contida nesse empenho. Aliás, o “Samba do Crioulo Doido” estaria mais adequado se se intitulasse “Bestialógico do Branquela Neurótico”.

     Sem rebuscos nem complicações, os atuais autores de samba-enredo encontraram uma forma intermediária entre o “lençol” (composições extensíssimas) e o refrão de quatro versos (sobre o qual se improvisavam). No caso do “Xeque-Mate”, a medida foi perfeita, além do recado oportuno e moralizador de seus autores.   

   Ainda assim, enquanto muitos pesquisadores citam a "Natureza bela do meu Brasil" como paradigma de uma composição enxuta, exemplar num samba-enredo, mas com laivos de uma seriedade incompatível com descontraído momento momesco, merece ser lembrada uma marcha, uma simples e genial marcha do saudoso Alberto Ribeiro, gravada pelo Almirante em 1936, que em seu notável poder de síntese e afiada sátira aliava a fórmula clássica de narrativa com a (velada) denúncia de cunho social:
    
"As armas e os barões assinalados/ vieram assistir o carnaval./ Cantando espalharei por toda a parte/ e o porta-estandarte vai ser o Cabral/ (1) Peri e Ceci de palhaços, / Caramuru de Arlequim,/ mandaram beijos e abraços,/ pagaram chope pra mim. (2) O Pero Vaz de Caminha/ vem de Pierrot furta-cor./Traz na mão fechadinha/ uma cartinha de amor".

     Com relação ao impecável desfile da Gaviões da Fiel, no último carro, com animada participação, mas numa inequívoca demonstração (por mais esforço que fizessem) de que não são do ramo, anotava-se a presença dos mestres internacionais Alexandru Segal, Cícero Braga, Herman Claudius e Jéferson Pelikian — ainda bem que dissimulados nesse transe crucial pela presença marcante de três “colombinas” e também mestras internacionais, mas que sabem sambar de verdade: Joara Chaves, Regina Ribeiro e Jussara Chaves Garcez Leme.

    Joara Chaves, que joga com o patrocínio da Livraria Saraiva, sagrou-se em janeiro a atual campeã paulista, com 6.5 pontos em 7 possíveis, numa arrasadora exibição de força. Em fevereiro, ei-la como campeã do carnaval paulista (coisa que eu não consegui segurando na Av. Presidente Vargas a corda para o desfile da Portela). E olhem que ainda faltam março, abril, maio...

J. Chaves x N. Colangelo (7ª rod. Camp. Paulista, jan/2002 - Escandinava, B 01)
1 e4 d5 2 exd5 Dxd5 3 Cc3 Da5 4 d4 Cf6 5 Cf3 Bf5 6 Bc4 e6 7 De2 c6 8 0-0 Cbd7 9 h3 Dc7 10 a3 Bd6 11 Te1 Cb6 12 Bb3 0-0 13 Ch4 Bg6 14 Bg5 Be7 15 Cxg6 hxg6 16 Tad1 Tad8 17 Df3 Td7 18 Ce2 Tfd8 19 Cf4! Txd4 20 Txd4 Txd4 21 Bxe6! Td8 22 Bb3 Cbd5 23 Cxd5 cxd5 24 Dd3! d4? 25 Dxg6, 1-0.

     A partir de hoje e numa incômoda coincidência, começam os supertorneios de Linares-2002 (2732 pontos-ELO, cat. 20), na Espanha, e o NAO Chess Masters (2678, cat. 18), em Cannes, França. Os internautas podem acompanhar on-line ambos os torneios : http://www.fbescacs.org/ (Linares) e http://nao-ccc.com/ (Cannes).

    Em Linares, duplo turno, a expectativa maior gira em torno da performance do atual campeão da Fide, Ruslan Ponomariov, de 18 anos —- idade proibitiva para que uma pessoa seja perfeita em qualquer tipo de atividade humana, como sentenciava o nosso considerado Pepe Ilegal. Em verdade, Ivanchuk foi que venceu Anand, então campeão mundial. Ruslan apenas valeu-se da eficaz “pata do gato” para a sua consagração.

     No 26º capítulo d'As 48 Leis do Poder (Joost Elffers e Robert Greene, Editora Rocco, 2000), reproduz-se uma fábula de La Fontaine narrando a cena de um macaco e um gato diante de uma lareira acesa, onde a dona da casa acabara de depositar algumas “gordas castanhas para assar, das quais exalavam deliciosas fragrâncias”.
     Na ausência momentânea da dona da casa, o macaco alertou o gato de que “bem poderíamos saborear aquelas iguarias, se eu tivesse as suas garras. Seria um golpe de mestre”.
     Ato contínuo, o macaco pegou a pata do “prestativo” colega, agarrou as frutas da lareira e enfiou-as na boca. Nesse mesmo instante, volta a dona da casa e eles, rápidos, se escafederam. O gato com a pata dolorida e o macaco com o sabor das castanhas em sua boca.

     Em entrevista recente, Ivanchuk declarou que “minha vitória nas semifinais sobre o hindu Anand, campeão mundial até então, me fez sentir como o novo campeão. Quando voltei a Lvov (houve um interregno de duas semanas antes da disputa da final), todos me cumprimentavam como se eu fosse o novo campeão mundial.
    
Ficava até difícil me convencer de que ainda havia um outro match contra um duro rival. Para mim, era um sentimento estranho, como se eu tivesse ganho a coroa de campeão, mas com a obrigação de vencer um outro match disputando essa mesma coroa”.

     O que Ivanchuk está precisando mesmo é de ouvir o samba (aproveitando a força do mês de fevereiro) do Noel e do Nonô, intitulado Vitória, que tem um começo altamente sugestivo: “Antes da vitória, não se deve cantar glória — você criou fama, deitou-se na cama...”.


Soluções
626 A (D. Przepiorka, Szachista Polski, 1920) 1 Te2! Dg8! 1 Cg7!!!+- (2 Cf6? Dg1! 3 Te8+ Rg7 4 Tg8+ Rh6!!=). B (A. Galitzky, Chess Miniatures in Three, 1908) 1 Tg8! (zug) 1…Rxh4 2 Cf5+ Rh5 3 g4#; 1…Rf4 2 Te8! Rg4 3 Te4#.

 

 

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