: : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :   CRÔNICAS    : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :
 

  Reykjavik
 

 

 

   No 19º Open de Reykjavik, na Islândia (abril, 5-13), além da surpreendente vitória do GM Hannes Stefaansson, totalizando 7.5 pontos em 9 possíveis, superando dezenas de destacados GMs, as atenções se voltaram principalmente para os segundos colocados: 2/8. Short, Korchnoi, Grischuk, Woitkiewicz, Miles, Bu e Ehlvest, 7.0; 9/13. Sokolov, Timman, Markowski, Conquest e Arizmend, 6.5, num total de 76 participantes.
     Com uma meritória atuação, Bu Xiangzhi (10.12.85 China 2.565), que ano passado conquistou o laurel de mais jovem GM de todos os tempos, consolida seu prestígio entre os melhores do topboard internacional.

    Outro destaque, Victor Korchnoi (22.03.31 Suíça 2.659), que, igual às pirâmides egípcias, vem zombando do tempo — embora saibamos que seja essa uma partida perdida, porquanto ‘‘jamais a morte nos concede empate: cedem-se à tumba as armas da ilusão, cessam-se vida e jogo — é xeque-mate!’’.

     Para completar o quadro de surpresas, o jovem MI inglês Luke McShane (07.01.84 Inglaterra 2.438) consignou sua segunda norma de GM. E ainda venceu na terceira rodada seu rival Bu.

L. McSHANE (2.438) x (2.491) H. OLAFSSON (8ª rod. 19º Reykjavik Open,12.04.00 — Siciliana B 80)

     1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 d4 cxd4 4 Cxd4 Cf6 5 Cc3 a6 6 Be3 e6 7 f3 b5 8 Dd2
   
Contra quase todas as variantes da defesa Siciliana,
Luke McShane adota essa esquema de jogo popularizado há mais de 30 anos pelos mestres ingleses, cuja filosofia se baseia num rápido desenvolvimento, seguido de sôfrego e violento ataque na ala do rei — ou no centro, se o rei preto aí
permanecer.

    8... Cbd7 9 g4! Cb6 10 Bd3 Bb7 11 0-0-0 Tc8 12 Rb1
     Sair com o rei da linha do trem, complementando seu roque, não deixa de ser um lance de desenvolvimento; nessa variante, assim como na B 66 (Richter-Rauzer), as pretas passam toda a fase de abertura pererecando, numa tentativa de iludir seu adversário ao não se definir posicionalmente. Ocorre, porém, que até uma visualização superficial desse momento revelará que as pretas já não podem mais grande-rocar e que estão sofrendo de uma comprometedora atrofia na ala do rei. Assim, os lances brancos são ditados pelas próprias imprecisões que as pretas cometem.

     12... b4 13 Cce2 d5 14 g5! Cfd7
     Com duas peças inativas, Bf8 e Th8, o GM islandês Helgi Olafsson instintivamente recusa o entrevero tático no centro do tabuleiro, embora seja o que recomendam minhas máquinas, Fritz-6.0 e Hiarcs-7.32: 14...dxe4! 15 gxf6 exd3 16 fxg7 Bxg7 (16...dxc2+?? 17 Cxc2+-) 17 Dxd3 Bf6, com um perigoso equilíbrio.

     15 exd5!
     Claro, quem tem um maior número de peças atuantes à sua disposição deve acirrar a luta, abrindo a posição e provocando as escaramuças táticas o máximo possível.

     15... Cxd5  16 g6!
    
‘‘Se segura no pincel, que eu vou retirar a escada’’, seria a tradução desse lance. Enquanto isso,
minhas máquinas, que hoje parecem atacadas de anemia, recomendam o opaco prosaísmo de 16 The1 ou 16 h4, lances que até o Gingantão faria. Aliás, um dos meus leitores (que não quer se identificar, mas que, pela poesia de seu gesto, eu bem poderia cognominá-lo de Lira), enviou-me nada menos de nove CDs-ROM, entre os quais Shredder-3.0, Rebel Tiger, Genius-6.5, Júnior-6.0, etc. Ou seja, proximamente, deverei mudar a expressão ‘‘minha dupla dinâmica’’ para ‘‘meu esquadrão’’, mercê desse material agora comigo.

     16... hxg6 17 Cxe6! fxe6 18 Bxg6+ Re7 19 Cd4! C7f6?
    Lance natural e ruim, próprio de quem se encontra debaixo de cacete. A dupla F/H recomenda 19...Rd6!!, com um índice de 0.97/1.0, respectivamente. Mas quem teria coragem de, fantasiado de Luis XVI, enfrentar a turba enfurecida?! A proposta é que depois de 20 The1 e5 21 Cf5+ Rc7 22
Bg5 C5f6 23 Cxg7 Rb8, o rei preto encontraria um improvisado, mas oportuno casebre onde se abrigar dessas momentâneas e mortais convulsões táticas.

     20 The1! Dd6  21 Bf4!
   
Muito melhor do que 21 Cf5+? exf5 22 Bc5+ Rd8 23 Bxd6 Bxd6 24 Te2 f4 25 Bf5, com leve superioridade. Aqui, nem é preciso dizer, se 21...Dxf4?? 22 Dxf4 Cxf4 23 Cf5++.

     21... Db6 22 Txe6+ Dxe6 23 Cxe6 Rxe6 24 De2+! Rd7 25 Bf5+ Rd8 26 Bxc8?!
     As pretas têm três peças pela dama e sua inferioridade consiste no fato de não poder mobilizá-las, caso contrário, seriam as brancas a lamentar sua risonha aventura tática. Agora, por exemplo, a dupla F/H dá para esse lance uma eloquente superioridade de 3.47/2.50, enquanto que a cotação é de 8.59/8.84 (!) para o demolidor 26 De6!!+-.

     26... Rxc8 27 De6+?!
    Esse lance pode até ser bom, mas fatal, mesmo, seria 27 Dc4+! Rd7 28 Dc7+ Re6 29 Dxb7 Cf4 30 Dc8+!! Re5 (30...Rf7 31 Dc7+) 31 Te1+ Rd5 32 Df5+, ganhando.

     27... Rd8 28 Be5! Th6 29 Bxf6+ Txf6 30 Txd5+ Bxd5 31 Dxd5+ Rc7
   
Posição interessantíssima, em que o rei preto contra a solitária dama branca não pode levar mate; a torre em f6 defende o peão de a6 e o bispo de f8; o bispo de f8 defende o peão de b4 e o peão de g7, que por sua vez defende a torre de f6. Isto é, uma posição intocável. Assim sendo, aceitas empate?

     32 c3! bxc3 33 De5+ Bd6!?
 Esse lance pode ser feito, mas com a promessa de voltar imediatamente para f8. Já o finalista Hiarcs recomenda 33...Rb6/Rc6/Rd7, embora registre uma superioridade para as brancas de 3.32. É muito raro encontrar um mestre que opte pela estratégia da inação, recomendada no presente caso.

     34 Dxc3+ Rb7 35 Db3+ Ra7 36 De3+ Rb7 37 Dg5 Bf8!
    O famoso zeitnot vai ajudar McShane, porque aqui as brancas, para pontuar, teriam de jogar outra partida, começando por mobilizar seu rei e as maiorias de ambas as alas, até conseguir zugar seu adversário e desmontar assim esse original gatilho defensivo.

    38 h4! Tc6? 39 Dd8 Tc7??, 1-0.



 
 

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