: : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :   CRÔNICAS    : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :
 

  K-K 2000 - 2
 

 

 

     A julgar pelo excesso de empates nas seis primeiras partidas do match entre Kasparov e Kramnik (8 out-4 nov), que a Brain Games realiza em Londres, dificilmente alguém imaginaria que esse duelo está se notabilizando pelo acirramento de seus combates e desfechos dramáticos. 
      Na quarta e sexta partidas, Kasparov
(pretas) safou-se milagrosamente da derrota, razão pela qual estão cognominando-o agora de Garry Houdini, numa clara alusão ao famoso Harry Houdini (1874-1926), considerado até hoje o maior mágico de todos os tempos, incomparável por suas fugas impossíveis que iam muito mais além do que permitia a condição humana.

      KRAMNIK-KASPAROV (4/m. WCC Londres, 14.10.00 — GD Aceito, D 27) 1 d4 d5 2 c4 dxc4 3 Cf3 e6 4 e3 c5 5 Bxc4 a6 6 0-0 Cf6 7 dxc5 Dxd1 8 Txd1 Bxc5 9 Cbd2! N Cbd7 10 Be2 b6 11 Cb3 Be7 12 Cfd4 Bb7 13 f3 0-0 14 e4 Tfc8 15 Be3 Rf8 16 Cd2 Ce5 17 C4b3 Tc6 18 Tac1 Tac8 19 Txc6 Txc6 20 g4 h6 21 h4 Bc8 22 g5 hxg5 23 hxg5 Cfd7 24 f4 Cg6 25 Cf3 Tc2 26 Bxa6 Bxa6 27 Txd7 Txb2 28 Ta7 Bb5 29 f5 exf5 30 exf5 Te2 31 Cfd4 Te1+ 32 Rf2 Tf1+ 33 Rg2 Ch4+ 34 Rh3 Th1+ 35 Rg4 Be8 36 Bf2 Cg2 37 Ta8 Tf1 38 Rf3 Ch4+ 39 Re2 Th1 40 Cb5 Bxg5 41 Cc7 Re7 42 Cxe8 Cxf5 43 Bxb6 Rd7 44 a4 Th3 45 Cc5+ Rc6 46 a5 Te3+ 47 Rd1 Te7 48 Tc8+ Rb5 49 Ce4 Txe4 50 Tc5+ Ra6 51 Cc7+ Rb7 52 Txf5 Be3 53 Bxe3 Txe3 54 Txf7 Te5 55 a6+ Rb6 56 Txg7 Ta5 57 Rd2 Ta1 58 Rc2 Th1 59 Rb2 (Tg8!+-) Th8 60 Rb3 Tc8 61 a7 Rxa7 62 Rb4 Rb6 63 Cd5+ Ra6 64 Tg6+ Rb7 65 Rb5 Tc1 66 Tg2 Rc8 67 Tg7 Rd8 68 Cf6 Tc7 69 Tg5 Tf7 70 Cd5 Rd7 71 Tg6 Tf1 72 Rc5 Tc1+ 73 Rd4 Td1+ 74 Re5, 1/2-1/2.

     KASPAROV-KRAMNIK (5/m. WCC Londres, 15.10.00 — Inglesa, A 34) 1 c4 c5 2 Cf3 Cf6 3 g3 d5 4 cxd5 Cxd5 5 Bg2 Cc6 6 Cc3 g6 7 0-0 Bg7 8 Da4 Cb6 9 Db5 Cd7 10 d3 0-0 11 Be3 Cd4 12 Bxd4 cxd4 13 Ce4 Db6 14 a4 a6 15 Dxb6 Cxb6 16 a5 Cd5 17 Cc5 Td8 18 Cd2 Tb8 19 Cc4 e6 20 Tfc1 Bh6 21 Tcb1 Bf8 22 Cb3 Bg7 23 Bxd5 Txd5 24 Cbd2 e5, 1/2-1/2.

     KRAMNIK-KASPAROV (6/m. WCC Londres, 17/10/00 — GD Aceito, D 27) 1 d4 d5 2 c4 dxc4 3 Cf3 e6 4 e3 c5 5 Bxc4 a6 6 0-0 Cf6 7 a4 Cc6 8 De2 cxd4 9 Td1 Be7 10 exd4 0-0 11 Cc3 Cd5 12 Bb3 Te8 13 h4 Ccb4 14 h5 b6 15 Ce5 Bb7 16 a5 b5 17 h6 g6 18 Ce4 Cc7 19 Cc5 Bd5 20 Ta3 Cc6 21 Bxd5 Dxd5 22 Ccd7 Tad8 23 Cxc6 Txd7 24 Cxe7+ Texe7 25 Tc3 f6 26 Be3 Rf7 27 Tdc1 Db7 28 Tc5 Cd5 29 Df3 Cb4 30 De2 Tc7 31 Bf4 Txc5 32 dxc5 e5 33 Dd2 Cc6 34 Dd5+ Rf8 35 Be3 Dd7 36 Df3 Rf7 37 Td1 e4 38 De2 Df5 39 Td6 Te6 40 Td7+ Te7 41 Td6 Te6 42 Dd1 g5 43 Dh5+?! Rf8 44 Dd1 Rf7 45 Td7+! Rg6 46 Tg7+ Rxh6 47 Dd7 Te5 48 Df7 Td5 49 Rh1? (49 b4! Cxb4 50 Rh2!! Cc6 51 g4!+-) 49...Cd8! 50 Txh7+ Dxh7 51 Dxd5 Rg6+ 52 Rg1 Dc7 53 Dg8+ Rf5 54 Dd5+ Rg6 55 Dxe4+ Rg7 56 Da8 Dd7 57 Rh2 Dd3 58 g3? Cf7 59 Db7 Rg6 60 Dxa6 Ce5! 61 Da8 Cg4+ 62 Rh3 Df5! 63 Dg8+ Rh6 64 Dh8+ Rg6 65 De8+ Rh6 66 Dh8+, 1/2-1/2. 

     KASPAROV-KRAMNIK (7/m. WCC Londres, 19.10.00 — Inglesa, A 31) 1 c4 c5 2 Cf3 Cf6 3 d4 cxd4 4 Cxd4 a6 5 Cc3 e6 6 g3 Dc7 7 Dd3 Cc6 8 Cxc6 dxc6 9 Bg2 e5 10 0-0 Be6 11 Ca4, 1/2-1/2.

        Demorou. Aliás, desde a segunda partida, quando Kramnik manteve sempre a iniciativa das ações, após exibir uma exuberante preparação teórica das aberturas, culminando no único ponto positivo desse match até agora, que a turma do sereno estava esperando uma reação turbulenta de Kasparov.

       Nada aconteceu e tudo parecia seguir seu curso normal. O campeão, numa atitude lógica, surpreendeu a todos ao utilizar-se de uma defesa bastante rara em seu repertório técnico. Essa orientação, porém, revelou-se um desastre e ele, por muito pouco, não amargou (como merecia) uma segunda e terceira derrotas.

       Não se pode esquecer que o próprio Kasparov foi o principal responsável pela efetivação desse duelo, depois que ficaram descartados os matches contra Shirov, "por ser pouco comercial", e contra Anand - este, por que o indiano exigiu uma preventiva antecipação monetária. A vaca é sagrada, mas o povo está com fome. Ou como dizem os baianos: farinha pouca, meu pirão primeiro.

       Kramnik surgia então como o nome ideal. Além de segundo colocado na lista do ranking internacional, jamais ganhou um match contra ninguém. Melhor ainda, nesses matches eliminatórios (contra Kamsky, New York 1994 e contra Shirov, Cazorla 1998), ele não conseguiu sequer uma simples e minguada vitória. Em outras palavras, um adversário supimpa assim, sob medida, nem com holofotes Diógenes encontraria.

       Como, então, um desafiante desse quilate teve o desplante de acertar logo na segunda rodada o senhor absoluto dos onze mares (estamos incluindo aí um da Lua e três de Marte)?

       "Algo tiene", costuma dizer o desconfiado cigano espanhol quando alguma coisa não está correndo bem. Busca daqui, procura de lá, e eis que o primeiro mistério já está solucionado: o incógnito quarto elemento da equipe de Kramnik foi finalmente identificado. Além do GM espanhol Miguel Illescas, técnico em informática e que participou ativamente do match Deep Blue-Kasparov (New York, 1997) de dolorosa lembrança, estavam concentrados com Kramnik em Mallorca, na Espanha, o GM francês Joel Lautier e o GM russo Evgeny Bareev e... Valery Krilov, que há 25 anos trabalha com Anatoly Karpov, o arqui-inimigo de Kasparov!

       Krilov possui os títulos de psicólogo, fisiólogo e preparador físico, mas não será surpresa para ninguém se descobrirem nele uma autoridade em paranormalidade e telepatia, A cadeira de parapsicologia (agora extinta) da Universidade de Leningrado era tão famosa e tão séria que a simples presença de um dos seus graduados provocou a paralisação do match Karpov-Korchnoi, Baguio City (Filipinas), em 1978.

       Korchnoi recusava-se em continuar jogando, enquanto Mr. Zukov estivesse presente no auditório onde se desenrolavam as partidas. E foi assim que ele transformou um match perdido em 5x2 (o vencedor seria aquele que fizesse seis pontos positivos) num dramático empate em 5x5.

       Na última partida, foi a vez de Karpov engrossar, recusando-se a jogar diante daquela "discriminação insultuosa" contra os seus amigos. Afinal, nada podia ser provado. E a KGB sentou à força, na primeira fila, o famoso Mr. Zukov. Como se recorda, Korchnoi jogou uma defesa inteiramente alheia ao seu repertório (Pirc) e foi derrotado com facilidade. E o ridículo, aliás, o trágico dessa história toda é que Korchnoi já se utilizara dos serviços de Zukov, como ele próprio confessou depois, para robustecer o seu protesto.

       Acredita quem quer, mas contam que esses sujeitos têm tanta força mental desenvolvida que conseguem torcer a vontade de qualquer um. Podem até transformar em galináceo um Schwarzenegger mais desavisado, que em vez de dizer bom-dia, dirá có-có-ri-có. E assim, no lugar do correto Bg5, alguém executará o perdedor Ca4.

       Há exemplos, mas não há jurisprudência sobre esse assunto e ninguém vai poder argumentar com validade em cima de hipóteses. E não sabemos se motivado por esse affair-Krilov, foi levantada uma questão deveras acabrunhante, após a sétima partida. Os dirigentes da Brain Games, firma patrocinadora do evento, pediram a anuência de Kramnik para, antes do início das partidas, seja feita uma "revista geral" em cada participante...

       É claro que tal sugerência não partiu da equipe de quem está vencendo. A alegativa é de que alguém pode estar usando um "ponto eletrônico" no ouvido. De alhures, alguém consulta um computador e sopra o melhor lance. E é por isso que, a partir dessa sétima partida, todos que assomam ao local dos jogos, são eletrônicamente revistados. Talvez só assim possa se tornar compreensível por que é que deus está perdendo o match para um simples mortal.

       Por enquanto, o dedo dos seguranças está entrando apenas no ouvido de Kramnik. Mas é bom Vlady se precatar: cobra cega e dedo irresponsável entram em qualquer lugar.

       V. KRAMNIK (2.770) x (2.849) G. KASPAROV  (4/m. WCC-Londres, 14.10.00 -- Gb. Dama Aceito, D 27) 

       

       1 d4 d5 2 c4 dxc4 
      Sem tempo hábil para recauchutar sua principal arma de defesa (Grunfeld), o campeão se vale desse arcabuz um tanto enferrujado, que ele foi desencavar no empoeirado arsenal teórico das aberturas.

    5 Bxc4 a6 6 0-0 Cf6 7 dxc5 
    Essa linha é a menos arriscada para as brancas, mas também é a mais despretensiosa. Vlady costuma jogá-la em partidas sem compromisso, como em active-chess ou blindfold.

       7... Dxd1 8 Txd1 Bxc5 9 Cbd2 Cbd7 10 Be2!? b6 11 Cb3  
      Até então, Volodia jogava apenas 11 Cc4, como o demonstram suas partidas contra Karpov (1-0 i n 52, Frankfurt 1999), contra Lautier (½-½ in 27, Mônaco 1997) e contra Anand (0-1 in 29, Mônaco 1997). O lance do texto conta com o aval de Bareev e livra as brancas de alguma eventual preparação laboratorial.

       11... Be7 12 Cfd4 Bb7 13 f3! 0-0 14 e4 Tfc8 15 Be3 Rf8 16 Cd2!? 11... Be7 12 Cfd4 Bb7 13 f3! 0-0 14 e4 Tfc8 15 Be3 Rf8 16 Cd2!?  
      
Novidade que deixou Kasparov pensando um longo tempo: o que se conhecia era 16 Rf2 Ce5 17 Cd2 Tc7 18 C4b3 Tc6 19 Tac1 Tac8, com igualdade, ½-½ in 45. Bareev-Rublevsky, Ol. Elista 1996.

       16... Ce5 17 C4b3 Tc6 18 Tac1 Tac8 19 Txa6 Txc6 20 g4!  
      
A idéia é "diminuir" os bem postados cavalos pretos e não se vê como Gazza possa impedi-lo.

       20... h6 21 h4! Bc8  
      
A posição das pretas já é difícil: 21...Tc2? 22 Bxb6 Cfd7!? 23 Bd4 Bxh4 24 Bc3! e 25 Cd4 ou 25 Ca1+-; ou então, 21...Cfd7 22 f4 Cg6 23 h5+-; ou ainda, 21...Cg6 22 Cc4 Cxh4 23 Cd4, com superioridade.

       22 g5! hxg5 23 hxg5 Cfd7 24 f4 Cg6 25 Cf3  
      
A vantagem de espaço obtida pelas brancas já é bastante significativa e ainda lhe oferece notáveis perspectivas.

       25... Tc2!?
      
  Kasparov não joga de cócoras e sabe que é preferível o risco da iniciativa do que se manter numa constante posição defensiva.

       26 Bxa6! Bxa6 27 Txd7 Txb2 28 Ta7! Bb5  
      
Notem que é exatamente a situação de ambos os reis, um por não se mover (Rf2) e o outro por se ter movido (Rf8), que determina a substancial vantagem das brancas.

       29 f5! exf5 30 exf5 Te2  
      
Quando alguém começa a jogar apenas lances forçados é por que a sua posição não é nada agradável.

       31 Cfd4! Te1+ 
      
É claro que se 31...Txe3 32 Cxb5 e as pretas perderiam uma peça ante as ameaças 33 Tc8+ e 33 fxg6.

       32 Rf2 Tf1+ 33 Rg2 Ch4+ 34 Rh3 Th1+ 35 Rg4 Be8 36 Bf2! 
     
Vlady atua com calma e lógica, apertando devagar e sempre as cravelhas de seu adversário. As peças pretas estão mal colocadas e sem coordenação.

       36... Cg2
      
E aqui já começa a lambança, as análises desencontradas sobre essa partida. Illescas exclama o lance que foi jogado a seguir (38 Ta8!), enquanto a turma do Califa acentua-o como duvidoso (?!) e oferece como mais promissora a sequência 37 Cf3! -- cortando as saídas do cavalo de g2 -- 37...Bd6 38 Bxb6
Bc6 39 Ca5 Be4 (se 39...Bd5 40 Td7!) 40 Cc4 e as pretas estariam em palpos d'aranha. Já o meu Junior-6.0, que nem registra 37 Ta8 sequer entre as opções secundárias, afere para 37 Cf3 +-0.62. No entanto, esse programa oferece como melhor (+-1.09) 37 f6! gxf6 38 Cf5! Bb4 39 gxf6 e, realmente, depois disso as pretas não teriam muito o que fazer. Exemplo, 39...Tf1 40 Bxb6 Bc6 41 Tc7 Be8 42 Tc8 e as pretas estariam mais estranguladas ainda.

       37 Ta8!? Tf1 38 Rf3 Ch4+??  
   
  Apurado no tempo, Kasparov erra outra vez e não encontra o lance apropriado, 38...Cf4! Ainda assim, Illescas argumenta que o seguimento 39 Cd2 Td1 40 Cc4 Cd5 41 Cb5 Ng5 42 Re2! seria ganhador.

        39 Re2 Th1 40 Cb5 Bxg5 41 Cc7 Re7 42 Cxe8 Cxf5 43 Bxb6 Rd7
     
Por instinto, Kasparov leva seu rei para a ala em que as brancas procurarão promover seu peão que, bem apurado, devia render outra peça de vantagem.

       44 a4! Th3 45 Cc5+ Rc6 46 a5! Te3+ 
     
O Junior propunha 46...Be3, com um índice negativo de -2.40, Para o lance do texto, o registro é pior ainda, -2.47.

       47 Rd1 
      
Interessante, mas desde a primeira vez que eu examinei essa partida que o Junior recomendava 47 Rf2!, com um índice de +2.51, enquanto que para o lance do texto o registro é de +2.45. Mas quem teria coragem, no zeitnot, querendo promover o jogo na ala da dama, de deixar seu rei do lado de cá, sozinho, brincando de cirandinha com três mortais peças adversárias?

       47... Te7 48 Tc8+ Rb5 49 Ce4?! 
      
Um lance bonito e duvidoso, ruim mesmo, se considerarmos que 49 Cc7+ era definitivo: 49...Rc4 50 Ce4 Txe4 -- 50...Ce3+ 51 Re2 Txe4 52 Ce6++- -- 51 Ce6+ Rb5 52 Cxg5 Tf4 53 Cxf7, ganhando.

       49... Txe4 50 Tc5+ Ra6 51 Cc7+ Rb7 52 Txf5 Be3! 
     
A única chance de empate é exatamente essa, enfraquecer o peão-a, acabando com essa amizade sincera do peão-a5 defendendo o bispo-b6 e vice-versa.

       53 Bxe3 Txe3 54 Txf7? 
   
Kramnik, jogador prático, não viu um gatilho próprio de "estudo" (Brancas jogam e ganham), que seria colocar o cavalo mortalmente em b4, para em seguida jogar Tb5+, quando o rei preto seria obrigado a fugir da ala da dama sob pena de levar mate. Por exemplo, 54 Cd5! Tb3 55 Rc2 Tb5 56 a6+ Rb8 57 Te5 Ta5 58 Te8+ Ra7 59 Cb4+-: ou então, 54 Cd5! Ta3 55 Cb4 f6 56 Tb5+! Rc7 57 Rc2 g5 58 Rb2 Ta4 59 Rb3 Ta1 60 a6 g4 61 Tb7+ Rc8 62 Tg7 f5 63 a7 Ta5 64 Cd5!+-; ou ainda, 54 Cd5! Te4 55 Rc2 g6 56 Tf6 Ta4 57 Tb6+ Ra7 58 Tb5+-; e finalmente, 54 Cd5! Te6 55 Txf7+ Rc6 56 Tf5 Td6 57 a6+-, ganhando. Peões em finais de torre a gente só come quando é necessário, para desobstruir colunas ou fileiras. O mestre Pinheiro diria:"a gente ganha com o nosso peão e, não, com o do adversário".

       54... Te5? 
     
Um festival de erros: era forçoso jogar 54...Rc6! e no caso de 55 a6 Ta3= ou 55 Rc2 Ta3 56 a6 Tb6=. No caso de (54...Rc6!) 55 Ca8!? Te5! 56 Tc7+ Rb5 57 Ta7 Rb4 58 a6 Rb5 59 Rd2 g5 60 Rd3 g4 61 Rd4 Tg5=; ou mesmo, (54...Rc6!) 55 Ca8 Te5! 56 Tc7+ Rb5 57 Cb6 g5 58 Cc4 Td5+ 59 Re2 g4 60 Rf2 Tg5 61 Rg3 Tg8, empatando.

       55 a6?   
    
 De campeonatos mundiais, essa partida certamente ficará conhecida como a mais rica em chances perdidas. Outra vez, Kramnik vai deixando escapar o ponto: 55 Cd5+! Rc6 56 Cb4+ Rb5 57 Tf4+-; ou 55 Cd5+! Rb8 56 Cb4+-; depois de 55 Cd5+! Ra8/Rc8 56 Cb6/Ce7++-; e se 55 Cd5+! Ra6 56 Cb4+ Rb5 57 Tf4 g5 58 Tg4 Tf5 59 a6, ganhando.

       55... Rb6 56 Txg7 Ta5 
    
  Illescas exclama esse lance e diz que empata com ele. Já a turma do Califa e o meu Junior dão como melhor, forçando realmente o empate, 56...Th5!! Vejamos: 57 Tg8!? Ta5! 58 Tc8 Rc6 59 Ce6+ Rd7 60 Ta8 Rc6!! 61 Rd2 Rb6, empatando.

       57 Rd2 Ta1?! 
     
Uma vez mais, Gazza desperdiça a variante anterior.

       58 Rc2 Th1??  
     
Aí está, Kasparov viu na hora errada o lance certo. E esse tão comum "efeito retardado" é que o leva ainda uma vez a rifar a partida. Ele devia ter continuado com 56...Ta5 59 Rb3 e agora, 59...Ta1! -- impossibilitando o progresso das brancas.

       59 Rb2?  
     
Não era mesmo o dia de ninguém... E lá se vai a última chance de vencer: 59 Tg8!! a) 59...Ta1 60 Cd5+! Rc5 (60...Ra7 61 Cb4) 61 Tg5!+-; 59 Tg8!! b) 59...Th2+ 60 Rd3 Th3+ 61 Re2 Th2+ 62 Rf3 Th3+ 63 Rg2 Ta3 64 Cd5+ Rc5 65 Tg5! Ta2+ 66 Rf3 Ta3+ 67 Re2 Ta2+ 68 Rd3 Ta3+ 69 Rc3 Ta2+ 70 Rb3+-, ganhando.

       59... Th8! 60 Rb3 Tc8 61 a7 Rxa7 62 Rb4 Rb6 63 Cd5+ Ra6 64 Tg6+ Rb7 65 Rb5 Tc1 66 Tg2 Rc8 67 Tg7 Rd8 68 Cf6 Tc7 69 Tg5 Tf7 70 Cd5 Rd7 71 Tg6 Tf1 72 Rc5 Tc1+ 73 Rd4 Td1+ 74 Re5, ½-½.

       Uma coisa é certa: um programa de xadrez (soft), qualquer um, por pior que fosse, não deixaria escapar tantas chances de vitória. E o desfecho dramaticamente humano dessa partida prova que ela realmente foi jogada por... pessoas inteligentes!

 
 

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