: : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :   CRÔNICAS    : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :
 

  Dos Hermanas - 1
 

 

 

A - Br. jogam e ganham


B - Mate em 3 lances

    O festival enxadrístico de Dos Hermanas, na Espanha, em sua undécima edição e que se realiza entre 19 e 28 deste mês, compreende pelo menos 10 torneios fechados com dez participantes cada um, todos contra todos, além de exibições e exposições das últimas novidades do reino de Caíssa.

     No torneio principal (A), anotamos, por ordem de rating: 1. Mikhail Gurevich (22.02.59 Bélgica 2694) 2. Ilia Smirin (21.01.68 Israel 2686) 3. Alexey Dreev (30.01.69 Rússia 2685) 4. Zurab Azmaiparashvili (16.03.60. Geórgia 2670) 5. Ivan Sokolov (13.06.68 Bósnia 2659) 6. Mikhail Krasenkov (14.11.63 Polônia 2658) 7. Zoltan Almasi (29.08.76 Hungria 2640) 8. Miguel Illescas (03.12.65 Espanha 2562) 9. Francisco Vallejo (21.08.82 Espanha 2545) 10. Teimur Radjabov (12.03.87 Azerbaijão 2483).

     Esse torneio A, com um rate-médio de 2.628 pontos-ELO, Categoria 16, constitui-se num verdadeiro ‘‘batismo de fogo’’ para o jovem Teimur Radjabov. Agora, pela primeira vez, ele vai enfrentar a calejada turma da pesada — não, pelo oscilante e pouco confiável rating que eles ostentam, mas pela enorme e atualizada bagagem teórica e técnica que até os faz andar mais devagar.

     À exceção do jovem astro espanhol Paco Vallejo, todos têm em tempo de participação de torneios o que Teimur não tem de idade. Ainda assim, logo na primeira rodada, o mais jovem GM do mundo, alardeando uma técnica sublime, virou pelo avesso o melhor jogador polonês da atualidade.

     Nessa partida, Teimur transvestiu-se de tático e revelou um fino sentido combinatório, incomum, destoante de sua sólida formação posicional. Ou seja, além de exímio dançarino, ele sabe jabear e possui um direto terrível, demolidor.

Krasenkov x Radjabov (1ª rod. Dos Hermanas, 19.04.01 — India do Rei, E 90) 
1 Cf3 Cf6 2 d4 g6 3 c4 Bg7 4 Cc3 0-0 5 e4 d6 6 h3 e5 7 d5 Cbd7 8 Bg5 h6 9 Be3 Cc5 10 Cd2 a5! 11 a3 Ce8! 12 b4 axb4 13 axb4 Txa1 14 Dxa1 Cd7 15 c5 f5! 16 Cc4 f4! 17 Bc1 dxc5 18 bxc5 Cxc5 19 Ba3 b6 20 Bxc5 bxc5 21 Da5 f3! 22 g3 De7 23 Bd3 h5! 24 h4 Bh6! 25 Ca4 Cd6 26 Cxc5 g5!! 27 Ce6 Bxe6 28 dxe6 Cxc4 29 Bxc4 gxh4! 30 Txh4 Tb8 31 Ba2 Tb2! 32 Da4 Te2+ 33 Rd1 Txf2 34 Txh5 Tf1+ 35 Rc2 Dc5+ 36 Rb3 De3+! 37 Rb4 Dd4+! 38 Rb3 Dd3+ 39 Rb4 Bd2+! 40 Rc5 Tc1+!, 0-1.

Illescas x Dreev (1ª rod. Dos Hermanas, 19.04.01 — Caro-Kann, B 19) 
 1 e4 c6 2 d4 d5 3 Cd2 dxe4 4 Cxe4 Bf5 5 Cg3 Bg6 6 h4 h6 7 Cf3 e6 8 Ce5 Bh7 9 Bd3 Bxd3 10 Dxd3 Cd7 11 f4 c5 12 Be3 Da5+ 13 Bd2 Dc7 14 0-0-0 Cgf6 15 f5! cxd4 16 Cxd7 Dxd7 17 fxe6 fxe6 18 The1 0-0-0 19 Dc4+ Dc6 20 Dxe6+ Dxe6 21 Txe6 Td5 22 Tf1 Rd7 23 Tee1 d3 24 c3! Bc5 25 Cf5 Te8 26 Txe8 Cxe8 27 c4! Te5 28 Tf3! Re6 29 Cg3 Be7 30 Bc3!! Bxh4 31 Bxe5 Rxe5 32 Te3+ Rf6 33 Txe8 Bxg3 34 Rd2!, 1-0.


K-K-K versus FIDE

     Hoje, abrimos um breve espaço para divulgar o assunto do momento, deixando nossos leitores a par do que se passa nos bastidores da luta pelo Campeonato Mundial. Sem parti pris ou qualquer tipo de simpatia para com os envolvidos nesse caso, nossa intenção é expor a realidade dos fatos com um mínimo possível de comentários.
    
    O leitor tem todo o direito de julgar quem não tem razão. Ou melhor, qual das partes tem menos razão

     Um mérito pelo menos devemos reconhecer nessa entidade que se identifica com a sigla FIDE (Fédération Internationale Des Échecs), também conhecida simplesmente como Federação Internacional: conseguiu provocar num mesmo bloco de descontentamento a automática e até então bem pouco provável união dos Capas (ou Ks, se preferírem) mais famosos do mundo enxadrístico -- Karpov, Kasparov e Kramnik.

     A cizânia entre a Fide e a "turma do Kasparov" vem desde 1993 e não pretendemos aqui entrar em seu mérito, porquanto até hoje, nesse embróglio todo, em ambas as partes, tem sido muito mais fácil encontrar culpados do que inocentes. Uma coisa, porém, é fora de qualquer dúvida: nenhum deles, se se transformassem em farinha, serviriam para fazer hóstia consagrada.

     O ponto culminante dessa disputa ocorreu agora, com a divulgação da nota da Fide, proveniente do Congresso de Teerã, datada de 26 de dezembro de 2.000, com um estilo que lembra muito a Alemanha da década de 30, quando pensar era perigoso e agir era proibido. Em resumo e em síntese, tal nota enfatiza que:

     1.  Como única entidade reconhecida pelo COI (Comitê Olímpico Internacional), responsável pelo jogo de xadrez e seus campeonatos, de acordo com os registros históricos, a Fide anuncia através deste comunicado seu papel de suprema curadora dos títulos de Campeões Mundiais de Xadrez;
     2.  O título individual de Campeão Mundial é conferido àquele indivíduo que tenha participado e vencido a prova organizada pela Fide com esse propósito, que consta de um processo classificatório livre e democrático (e, não, um assunto passível de exploração por um indivíduo ou um grupo) devidamente aprovado pelas Federações Filiadas à Fide, incluindo a participação, se necessária, de jogadores classificados em Campeonatos Nacionais, Torneios Zonais ou Continentais, através de um sistema de avaliação da Fide, que também examinará outros eventos com essa finalidade.

     3.  O detentor do título de Campeão Mundial de Xadrez fica na obrigação de defender seu título no evento oficial organizado pela Fide e ser-lhe-á impedido de participar de qualquer outro evento que procure designar um campeão mundial, Além disso, qualquer campeão mundial que se recusar a defender seu título, ainda que seja por motivo de saúde, ou que participe de outro torneio não autorizado pela Fide, mas com esse fim, será despossuído de seu título -- passando a ser qualificado automaticamente como ex-campeão mundial.

     4.  Os membros da Imprensa e o público em geral, com esse esclarecimento, deverão saber, portanto, como tratar esse assunto. E vocês serão sempre bem-vindos para expressar opiniões ou dirimir qualquer dúvida a esse respeito.

     A resposta desse comunicado veio agora, este mês, com a..........

CARTA ABERTA À COMUNIDADE ENXADRÍSTICA GLOBAL

     Na qualidades de 12º, 13º e 14º campeões do mundo, subscrevemos este comunicado conjunto, para manifestar nosso desacordo com as recentes declarações de decisões unilaterais da Fide. Preocupa-nos em especial a política da Fide relacionada às mudanças que pensa introduzir nos controles de tempo, o tratamento que vem dando à história do Campeonato Mundial e sua franca hostilidade para com os organizadores de torneios tradicionais.

     Mais preocupante ainda é a conduta da Fide em face do prestígio e tradição do Campeonato Mundial de Xadrez. A declaração da Fide, em Teerã, pretendendo ser possuidora de um título criado antes dela e que seguramente seguirá existindo até mesmo depois que ela desapareça. Um século de tradição não se pode ignorar assim, afirmando-se simplesmente que as coisas são assim. A verdadeira tradição perdura em nós e na mente e memória de milhões de entusiastas do xadrez de todo o mundo. É totalmente inaceitável que a Fide pretenda exercer direito sobre o Campeonato Mundial de Xadrez, ao mesmo tempo em que pretende destruir as estruturas sobre as quais se assenta sua tradição.
     Nem mesmo os torneios clássicos, que tanto têm dado ao xadrez, estão a salvo da Fide. Sua ameaça de programar torneios que coincidam com torneios tradicionais não se pode considerar outra coisa que não seja um ataque aos organizadores, jogadores e aficionados de torneios como Linares, Dortmund e Wijk aan Zee.
     O xadrez não é propriedade da Fide, para que ela possa se permitir brincar com ele como se tratasse de uma diversão. O jogo de xadrez pertence à comunidade enxadrística do mundo inteiro.
     A julgar pelas declarações da Fide, pretendem sejam tais nefastas medidas adotadas numa tentativa de popularização do xadrez. Isso seria um admirável objetivo, desde que, para alcançá-lo, não se destruisse o que há de mais elevado em nosso jogo: bonitas partidas de xadrez, torneios clássicos do mais alto nível e a luta pelo Campeonato do Mundo.
     A comunidade internacional enxadrística espera que seus líderes contribuam com uma solução razoável e democrática nesse insatisfatório estado de coisas. Propomos, em conseqüência disso, um diálogo aberto sobre esses assuntos entre a Fide, as Federações Nacionais e os enxadristas (tanto profissionais como aficionados), a quem o xadrez deve muito. Nós, que temos dado e recebido tanto do xadrez, não hesitamos em nos situar na primeira linha de frente para proteger o status e a legitimidade do jogo que amamos.

Anatoly Karpov, Garry Kasparov, Vladimir Kramnik.
Abril de 2001.

A seguir, através seu Diretor Executivo, nigeriano Emmanuel Omuku,

A RESPOSTA DA FIDE

     A respeito da carta aberta, firmada pelos GMs Anatoly Karpov, Garry Kasparov e Vladimir Kramnik, a Fide sempre aceitou o diálogo com os membros da fraternidade mundial do xadrez com relação a todas as suas decisões, que são tomadas em benefício do xadrez e de suas legiões de jogadores, depois de consultar dirigentes, jogadores e patrocinadores desse nobre esporte.

Com esse mesmo espírito, a Junta Diretiva decidiu, em reunião celebrada em Cannes, dias 24 e 25 de março, aceitar o compromisso proposto pelo presidente da Fide (Kirsan Iliushinov), quanto a adoção do novo controle de tempo, ao se certificar  da preocupação expressada pelos presidentes de várias federações européias. A próxima está programada reunião da Junta Diretiva está programada para o próximo Congresso de Halkidiki (Grécia), em setembro, quando todos os pontos de vista serão examinados.

Na reunião em Cannes, a Fide reiterou que sempre colaborará com os patrocinadores independentes dos torneios tradicionais, procurando assegurar-se de que as datas de seus torneios não sejam coincidentes. Ao mesmo tempo, a Junta Diretiva encarregou a Fide Commerce e a Octagon Marketing para que elaborem meios de cooperação com os organizadores tradicionais no sentido de que eles também cooperem no desenvolvimento de um Grand Prix.

Por último, a respeito do Campeonato Mundial, a Fide mantém que o divulgado na Declaração de Teerã reflete uma tradição bem documentada dos feitos históricos e como a Fide iniciou a firme aplicação dos sistemas classificatórios para o Campeonato do Mundo, assim como a custódia do título, desde 1946. Esse processo já testemunhou o surgimento de campeões mundiais como Botvinnik, Smyslov, Tal, Petrosian, Spassky, Fischer, Karpov, Kasparov e Khalifman, até o recente título de campeão mundial ganho pelo GM indiano Viswanathan Anand, em dezembro de 2.000.

Lausanne (Suiça), 20 de abril de 2001.

Emmanuel Omoku, diretor executivo.

     Depois desse inicial ping-pong entre os famosos Ks (Karpov, Kasparov, Kramnik) e a FIDE, alguns notáveis do xadrez internacional, capitaneados pelo GM russo Valery Salov, que vem sistematicamente atacando a figura de Kasparov em todas as oportunidades possíveis, emitiram a seguinte nota:

     Depois de ler a carta dos três Ks, gostaríamos de aceitar o amável convite dos autores e participar da discussão sobre os candentes problemas do xadrez moderno. É claro, e infelizmente, algumas passagens dessa carta nos obrigam a comentar antes seu conteúdo.
     Estamos acostumados ao fato de V. Kramnik auto-denominar-se como o 14º campeão do mundo, mas o que realmente nos surpreende é o 12º. No início de 1998, depois de derrotar V. Anand, em Lausanne, Karpov proclamou-se a si mesmo como campeão e chamou de impostor o Sr. Kasparov. Em 10 de janeiro de 2001, também em Lausanne, o Sr. Karpov (ante o Tribunal de Arbitragem Desportiva e por U$ 50.000 dólares) admitiu a legitimidade dos títulos do 14º e 15º campeões do mundo, A. Khalifman e V. Anand, respectivamente. E agora, quem subscrevem essa carta conjunta são "os campeões mundiais 12º, 13º e 14º'!
     A Federação Internacional não detém a exclusividade de organização do campeonato do mundo, mas apenas do oficial. E é claro, também, que a Fide tem muito mais direitos do que, por exemplo, a BGN (Brain Games Network -- Cartel de Jogos Mentais), que convidou o perdedor do Torneio de Candidatos (Sr. Kramnik) para o duelo final com Kasparov, duelo cuja fonte ($$$) de financiamento está sendo agora investigada pela polícia britânica.
      Não é a primeira vez que assinalamos a participação de TODOS os enxadristas ativos no último Campeonato do Mundo oficial em Nova Delhi e Teerã, exceptuando-se os representantes dessa "misteriosa irmandade de alto nível", ou seja, os autores dessa carta aberta.
     Estamos dispostos a participar da busca de caminhos para modificar o ciclo do Campeonato Mundial. Mas consideramos inaceitável converter esse Campeonato num processo de seleção para um duelo com o Sr. Kasparov que, por sua vez, deverá classificar-se para um duelo contra o Sr. Kramnik (ou vice-versa). O Campeonato Mundial deve transformar-se numa nobre competição de todos os melhores desportistas, sem nenhum privilégio para ninguém.
     Estamos de acordo que a Fide Commerce (não, a Fide) tenha feito uma apresentação muito superficial do Grand Prix 2002, tanto do ponto de vista das condições financeiras como do calendário. Ainda assim, se esse projeto for devidamente concluído, os torneios de Grand Prix podem converter-se numa valiosa inovação. Referimo-nos a torneios para 32 jogadores e, não, para seis, como Linares e Dortmund. E nesse contexto, além de Linares e Dortmund, estariam (ao menos no calendário de 2001), Wijk aan Zee, Cannes, Mônaco, Astaná, Mérida, León e muitos outros torneios importantes. Por isso, quando se estabelecem torneios do Grand Prix não é possível evitar algumas coincidências de datas. E assim, em algum momento, "os milhões de entusiastas" podem desejar que os melhores jogadores atuem, ao invés de ceder sua participação para muitos desses treinadores de "superstars".
     Vejamos agora o controle de tempo. Cada organizador deve ter a oportunidade de adota-lo em seu torneio. Por exemplo, a casualidade do torneio em honra da lenda viva do Século XX, Viktor Korchnoi, em que vão participar todos os que estão firmando esta carta,  seja na modalidade de xadrez rápido -- o que demonstra que há uma inclinação objetiva para que se acelerem o ritmo das partidas. E ninguém vai proibir o ritmo clássico, ainda que provavelmente a qualidade de jogo com esse ritmo seja ligeiramente inferior ao do xadrez avançado.
     Concluindo e citando a carta dos 3Ks, quando enfatiza que "as partidas pertencem à comunidade mundial de xadrez". Jamais ninguém pensou que o xadrez pudesse pertencer a alguém. Mas os interesses dos jogadores profissionais estão aí. E não devem ser questionados nem pela Fide nem pelos senhores que firmaram aquela carta.

St. Petersburgo, 22 de abril de 2001.

     FIRMAM: Alexey Shirov (vice-campeão mundial), Alexander Khalifman (14º campeão mundial), Vladimir Akopian (vice-campeão mundial de 1999), Boris Jropov (vice-presidente da Federação de Xadrez de Saint Petersburg), Boris Kurjinen (gerente da Escola de Xadrez de Saint Petersburg) e os participantes do Campeonato de Saint Petersburg de 2001: Valery Popov (campeão), Sergey Ivanov, Vassili Yemelin, Sergey Yonov, Valery Loginov, Vladimir Karasev, Evgeny Aleixeev, Sergey Sivojo, Ruslan Kashtanov, Alexey Polianinov, Alexander Utkin, Konstantin Aseiev, Genrij Chepukaitis e Valery Salov (presidente do Conselho Mundial de Jogadores).

   


Soluções 583
A (P. Heuäcker, Wiener Neueste Nachrichten, 1929) 1 Ch5!! Rb1 2 Db7+ Ra2 3 Da6+ Rb1! 4 Db5+ Ra2 5 Df1 Rb2 6 Cf4!+-.
B (A. Elkan, Schachminiaturen, 1903)
1 Bb2! Rd5 2 Df5+ Rc4 3 Cd2++!; 1...Rxe4 2 De6+ Rf4 3 Bc1++.

 

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