: : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :   CRÔNICAS    : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :
 

  Bosna 2000 - I
 

 

 

   Em Sarajevo, na Bósnia-Herzegóvina, realiza-se (maio, 16-29) uma das mais fortes competições deste ano, o Chess Super Tournament Bosna 2000, com um rate-médio de 2.701 pontos-ELO, categoria 19, reunindo, por ordem de sorteio: 1. I. Sokolov (2.637) 2. N. Short (2.683) 3. A. Morozevich (2.748) 4. A. Shirov (2.751) 5. G. Kasparov (2.851) 6. K. Georgiev (2.677) 7. S. Movsesian (2.668) 8. E. Bacrot (2.594) 9. M. Adams (2.715) 10. M. Gurevich (2.680) 11. V. Topalov (2.702) 12. E. Bareev (2,709).

   G KASPAROV (2.851) x (2.594) E. BACROT (1ªrod. Sarajevo, 17.05.00 — Escocesa, C 45)

1. e4 e5 2 Cf3 Cc6 3 d4!?
 Essa controvertida abertura Escocesa é uma das principais armas de
Kasparov contra 1...e5. Mas parece-nos muito estranho que ele, com um match marcado para outubro contra Kramnik, valendo a verdadeira coroa de melhor jogador do mundo, fique oferecendo amostras grátis do seu invejável arsenal.

 3... exd4 4 Cxd4 Cf6 5 Cxc6 bxc6 6 e5 De7 7 De2 Cd5 8 c4 Ba6
 Nessa linha, nas duas partidas jogadas este ano por Kasparov, seguiu 8...Cb6 9 Cc3 De6 10 De4 e aqui Timman optou por 10...Bb4 11 Bd2 Ba6 12 b3 Bxc3 13 Bxc3 d5 14 Dh4! dxc4 15 Be2 Cd5 16 Bxc4 g5?! N 17 Dd4 e, superiores, as brancas venceram, 1-0 in 36, Wijk aan Zee 2000; Adams preferiu 10...Ba6 11 b3 0-0-0 12 Bb2 Bb7 13 0-0-0 Te8 14 f4 d5 15 cxd5 cxd5 16 Dc2! Rb8 17 Rb1 g6 18 Be2 c5 19 Bf3 Be7 20 g4 d4 21 Bxb7! e as brancas se impuseram, 1-0 in 77, GP Internet 2000.

 9 b3 g6
 Entre 9...f6/Dh4/0-0-0/Cb6 e o lance do texto, o jovem GM francês
Etienne Bacrot (22.01.83) elege o melhor, denunciando assim o esmero de sua preparação teórica. Por exemplo, 9...0-0-0 10 g3 Te8 11 Bb2 f6 12 Dd2 Cb6 13 a4! Rb8 14 a5 Cc8 15 Bh3 fxe5 16 Dxd7 e as brancas estão melhores, 1-0 in 27. Morozevich-Xie Jun, Pamplona 1998. Um detalhe, depois de 9...0-0-0 10 g3 g5!? 11 Ba3, as pretas dispõem de 1...Dxa3!, como ocorreu (1/2-1/2, 26) in Pavasovic-Giorgadze, Lippstadt 1998.

 10 f4!
  Por inversão, encontramos 10 g3 Bg7 11 Bb2 0-0 12 Bg2 Tae8 13 0-0 Cb6 14 Te1 f6! 15 De3 De6 16 Ba3 Tf7 17 Cc3 fxe5 18 Tad1 Bb7 19 Ce4 Df5 20 Bd6! Cc8! 21 Bxc7 d5! 22 Cd6! Cxd6 23 Bxd6 Td7 e nesse ping-pong de preciosidades, as pretas venceram, 0-1 in 48. Ponomariov-Bacrot, final do Young Masters, Lausanne 1999.

 10... Db4+ 11 Bd2 Db6 12 De4!?
 A ECO examina 12 Df3! Dd4 13 Cc3 Cxc3 14 Bxc3 Bb4!? 15 Tc1 Bxc3+ 16 Txc3 0-0 17 Td3! Da1+ 18 Td1! Db2! (18...Dxa2? 19 Dc3+-) 19 Be2 Tab8 20 Rf2!, com superioridade. O lance do texto possui o mérito de provocar o bonito e duvidoso pontaço a seguir.

 12... f5!? — diag. 1
 Não é demais registrar 12...Cb4?! 13 Cc3 Bb7 14 a3! f5? 15 Db1! Ca6 16 b4 d6?? 17 c5!!, 1-0. Pavosovic-Roguli, Dresden 1998. O lance 12..f5 é registrado pela dupla Fritz-6.0 e Hiarcs-7.32 como o mais viável para equilibrar a posição. Será que a gente pode mesmo confiar no julgamento posicional dessas máquinas?

13 Df3! Dd4
 No caso de 13...Cb4 14 Rd1 Bb7 15 Cc3, com ligeira superioridade; mas, não, 14 Bxb4? Bxb4+ 15 Cc3 Dd4 16 Tc1 Bb7 17 Be2 c5! e as pretas venceram, 0-1 in 53. Gonczi-Turzo, Hungria 1999.

 14 Cc3 Cxc3 15 Bxc3 Bb4 16 Tc1 Bxc3+ 17 Txc3
 Como se observa, sem os lances 16 De4 f5, entraríamos direitinho na variante inferior analisada pela ECO, garantindo uma pequena vantagem para as brancas nesse final que se avizinha. Notem também que, mercê do 12...f5, o peão branco em e5 é o destaque da posição.

 17... 0-0-0 18 c5! (diag. 2) Bb7?
 As máquinas F/H registram o imediato 18...Bxf1, porquanto seria preferível um final inferior de torres do que de bispos. E outra, as brancas podem (e vão) pintar de preto todos os seus peões, reduzindo o bispo de b7 a um eficiência zero. Aliás, zero, não, pois ele pode servir pelo menos para ministrar a extrema-unção naquele palerma de c8. É claro que depois de 18...Bxf1 19 Txf1 g5 20 De3!? ou 20 Dd3! (como quer o Hiarcs), as brancas conservariam as melhores chances — mas sem nenhuma peça de vantagem! Aqui, depois de 18...Bb7, Kasparov, para variar, fez uma cara de desgosto e balançou a cabeça negativamente várias vezes. Ou seja, nem o direito de jogar errado seus adversários têm...

19 De3! Dxe3+ 20 Txe3 d6 21 Bc4!
 Agora, pode-se perceber claramente o mausoléu onde ficou encerrado o bispo de b7, e, é lógico, qualquer troca de peões que as pretas façam só agravará o seu desastre posicional. Aqui, com pequenas, mas insignificantes alterações na ordem dos lances, a dupla F/H antecipa todo o desenrolar dessa partida, como se já a conhecesse, numa espécie de paródia de uma ópera bufa da qual todos nós já decoramos seu invariável final.

 21... Rd7
 O finalista Hiarcs oferece como atenuante 21...The8 22 Rf2 d5 23 Bd3 Rd7 24 The1 Re6 25 b4 Re7 26 Th3 h5, ou seja, quase como ocorrerá na partida.

 22 h4! d5 23 Bd3 h5 24 Tg3 Th6
 Se 24...Thg8 25 Tg5 Re6 26 g4! hxg4 27 h5!, liquidando a partida.

 25 b4!
 Além de colocar mais um peão na casa preta, dá passagem para as torres na terceira fileira. E será esse movimento pendular, Ta3/Tg3, que decidirá a sorte desse cotejo.

 25... Re6 26 Rd2 Ta8 27 Tb1! a6
 As pretas têm sete peões em casas brancas. Sete, se contarmos com o halterofilista de b7. Ainda assim, Kasparov necessitará de um descuido de Bacrot, para concretizar seu
intento.

 28 Tb3 Rf7 29 Ta3 Thh8 30 Tg5 Th6 31 Rc3 Tb8!? 32 Ta5 Ta8 33 Rd4 Thh8 — diag. 3
 Devia ser essa a posição que ambos tinham em mente quando entraram nesse final. Bacrot, com pretas, estaria muito contente com um empate e se dispôs a manter uma defesa ‘‘neurótica passiva’’, mas intransponível. A dupla F/H registra mais de +1.00 de vantagem, mas não oferece nada conclusivo, não obstante a vantagem virtual desse peão branco em e5.

 34 Bc2 Tab8 35 Bd3 Ta8 36 Be2 Thb8?
 
A ameaça de romper no flanco-dama era absolutamente falsa, mas induziu o erro de Bacrot; a chance real de Kasparov sempre esteve na ruptura g4 e h5 ou f5, conforme o caso.

 37 Ta3! Th8?
 Como último recurso, 37...Bc8!? 38 Ta4 Bb7, repetindo o diagrama anterior. O que segue é definitivo.

 38 Tag3 Tag8 39 Bxh5!!, 1-0.

  Depois de 39...Txh5 40 Txh5 gxh5 41 e6+! Rf8 42 e7+ era fatal. Como dizia Tartakower: ‘‘Marombai, marombai... que alguma coisa sai!’’.

 
 

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