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   III Open de Dos Hermanas
 

Partidas vibrantes e grandes revelações na mais sedutora festa do xadrez espanhol
 

 

A - Br. jogam e ganham



B - Mate em 3 lances

 

      O GM espanhol Francisco Vallejo Pons (21.08.82 Menorca 2629), confirmando seu favoritismo e a ótima fase que vem atravessando, sagrou-se vencedor invicto do forte e concorrido IIIº Open Internacional Ciudad de Dos Hermanas, Sevilha, na Espanha, realizado entre 5 e 13 deste mês. GM Francisco Vallejo Pons, vencedor em Dos Hermanas

       Um total de 132 participantes, entre eles 16 GMs, 15 MIs e 5 MFs, compunha o invejável campo dessa competição. Paco Vallejo foi o único a somar 7.5 pontos em 9 possíveis, seguido de 2/6. Oleg Korneev (25.07.69 Rus 2568) Bogdan Lalic (08.03.64 Ing 2523) Julian Radulski (24.05.72 Bul 2499) Ivan Cheparinov (26.11.86 Bul 2450) Alexander Rustemov (06.07.73 Rus 2607) 7.0; 7/10. Daniel Cámpora, Atanas Kolev, Miguel Illescas e Antoaneta Stefanova 6.5, etc.

Depois dos espanhóis, o maior número de inscritos era o de búlgaros, com destaque especial para a WGM Antoaneta Stefanova, superando uma infinidade de titulados, e a grande revelação do evento, MI Ivan Cheparinov, exibindo uma preparação teórica incomum e uma irrefreável paixão pelas partidas explosivas.

WGM Antoaneta Stefanova

M. Suba (2525) x (2450) I. Cheparinov (7ª rod, Dos Hermanas, 11.04.2002 - Índia do Rei, E 71)
1 c4 g6 2 d4 Bg7 3 Cc3 Cf6 4 e4 d6 5 h3
Ainda outro dia, escrevi sobre os perigos de um comportamento enxadrístico padronizado, rotineiro, imutável. E nessa crônica intitulada “Siri da pata maior”
(bccafe.com.br - 30.06.2001), explicava eu que “no Nordeste, essa expressão serve para identificar alguém que se utiliza de um mesmo método ou de uma mesma figuração para resolver os mais variados tipos de problema. O siri GM Mihaí Subatem na pata direita, enorme, seu instrumento de defesa e que só lhe serve para isso. Já a pata esquerda, diminuta se comparada à outra, ele a utiliza para tudo, para se alimentar principalmente. No xadrez, quando um jogador emprega sempre a mesma linha de jogo, costuma-se reconhecê-lo como "sábio da efelogia", isto é, um fulano que do dicionário decorou tudo o que deriva ou se relaciona com a letra efe. Atualmente as máquinas operam com uma velocidade absurda e um comportamento ortodoxo, invariável, pode transformar qualquer um num alvo imóvel, fácil de ser acertado". Com isso queremos dizer que o veterano GM Mihaí Suba (01.06.47 Romênia) comete a imprudência de, contra a Índia do Rei, jogar invariavelmente essa linha, sujeitando-se assim aos mais variados tipos de preparativos contra essa temerária determinação. Só nesse torneio, ele jogou três vezes essa mesma linha.

5...0-0 6 Bg5 c5 7 d5 e6!
Com a diagonal c1-h6 desobstruída, o bispo branco de casas pretas mesmo em c1 já está desenvolvido, sendo que o seu posicionamento em g5 se assemelha muito mais a um passeio turístico do que a uma necessidade estratégica. Assim, observa-se que as brancas praticaram dois “lances frouxos” (h3, Bg5), em detrimento do desenvolvimento do cavalo de g1 e do bispo de f1. Nesse caso, as pretas precisam detonar imediatamente o centro para tentar tirar proveito dessas “imprecisões”.

8 Bd3 exd5 9 exd5 — diag. 1
Essa retomada é que é a verdadeira “impressão digital” dessa variante, quando se sabe que aqui a continuação mais lógica seria 9 cxd5, conservando o centro e dando à estrutura das pretas uma identidade de Benoni Moderna. Por exemplo, 9 cxd5 Te8 10 Cf3 c4 11 Bc2 b5 12 a3 Ca6 13 0-0 Cc5 14 Dd2 Bb7 15 Tfe1 Db6 16 Be3 a5 17 Bd4 Cfd7 18 Bxg7 Rxg7 19 Dd4+ f6 20 a4! b4 21 Cb5! Tac8 22 Cd2 e as brancas não tiveram dificuldades para vencer, 1-0 in 33. Lazarev-Vesin, Geneva/SUI 2002. No presente caso, como avaliado por Mikhail Shereshevsky em seu precioso livro The Soviet Chess Conveyor, “as pretas, por sua estrutura de peões, necessitam jogar ativamente para não correr o risco de um esmagamento posicional. As brancas têm uma clara vantagem de espaço e de algum modo vão pressionar sobre o ponto d6”. E Shereshevsky propõe que após completar seu desenvolvimento (Cf3, 0-0, Dd2), “as brancas deverão trocar uma torre na coluna-e (Tae1), para seguir então com Bf4, g4, Rg2, Bg3, Df4, Cf3-g5-e4, etc”. Particularmente o que me assombra é que qualquer capivara na ex-URSS sabe disso....

9...Cbd7 10 Cf3 Te8+ 11 Rf1 h6 12 Bf4
Ou então, 12 Be3 Ce5 13 Cxe5 Txe5 14 Bf4 Te8 15 g4 a6 16 a4 De7 17 Rg2 Df8 18 Dd2 Cd7! 19 g5 hxg5 20 Bxg5 Cf6! 21 Tae1 Bd7 22 b3 Txe1 23 Txe1 Te8 24 Txe8 Dxe8 25 Bxf6 Bxf6 26 Ce4 De5! 27 Cxf6+ Dxf6 e com um final superior, as pretas se impuseram, 0-1 in 47. Delemarre-Lobzhanidze, Vassingen/HOL 2001.

12...Ce5 13 Cxe5 dxe5 14 Be3 b6 15 a4 a5!?
Ivan CheparinovOu seja, com a ala da dama travada, a luta se desenrolará na ala do rei, onde as pretas preponderam (...Ch5, f5) com um peão de vantagem e uma concentração maior de peças. Antes, acontecera 15...Bd7 16 Dd2 Rh7 17 g4 Cg8 18 Re2 f5 19 gxf5 Bxf5 20 f3! Cf6 21 Dc2 e4! 22 fxe4 Cxe4! 23 Cxe4 Dh4 24 Bf2 Df4 25 Be3 Dh4 26 Bf2 Df4 27 Be3, ½-½. Suba-Spasov, Debrecen/HUN 1992.

16 Dd2 h5 17 Re1!?
Claro, o rei branco vai ligeiro se homiziar na segurança aparentemente inabalável de um flanco estagnado. E o que é pior (ou melhor) com seu rei a salvo, elas próprias incrementarão as escaramuças na ala do rei, onde num palácio bastante arejado, com pilastras em f7, g6 e h5, se refestela sem se dar conta desse perigo o lustroso Otelo adversário.

17...e4! 18 Be2 Cd7 19 Rd1 Ce5!
Posicionalmente, com esse peão passado em d5 e sem nenhuma debilidade estrutural, as brancas estão muito superiores; Ivan sabe disso, como sabe também da premente necessidade de provocar um explosivo acirramento tático, procurando punir esse temático, mas debochado passeio do rei branco pelos seus domínios.

20 Rc2 Bf5 21 Rb3
Nessa posição, há exatos 16 anos, antes mesmo que Ivan Cheparinov tivesse nascido, pois ele é de 26.11.1986, a partida seguiu com 21...Ta7 22 Tag1 h4 23 Bg5 Bf6 24 Bxf6 Dxf6 25 Dh6 Cd3 26 Bxd3 exd3 27 Te1 Tae7 28 Txe7 Txe7 29 Td1 Dd4 30 Dd2 Te8 31 Cb5 Df6 32 Dc3 Dd8 33 Td2 f6! 34 d6!? Rf7 35 g4 hxg3-ep 36 fxg3 Te3 37 g4 Be4 38 h4 Th3 39 g5 Bf5 40 d7 fxg5 41 hxg5 De7 42 Cc7 Dxg5 43 Cd5 Bxd7 44 Txd3 Txd3 45 Dxd3 Dd8 46 Df3+ Bf5 47 Df4 e as pretas não conseguiram concretizar sua vantagem, ½-½ in 72. Suba-Nunn, ol. Dubai 1986. A pergunta é essa: por que Ivan não seguiu como o GM Nunn, com 21...Ta7!? A resposta está na tela do computador, com o meu Shredder-6.02 registrando 21...Dd7 como a melhor opção, ainda que acuse uma ligeira vantagem para as brancas. E ele, Ivan, certamente conhecia todas essas partidas, ao preparar-se para jogar contra o confiado Suba...

21...Dd7!? 22 Bh6 Bh8!
Ao contrário de Nunn, Ivan conserva o “bispo de Gufeld” — alma, essência, esteio, baluarte de todo esse esquema de jogo. O surrealista Pepe Ilegal nos garante o absurdo de que
“até mesmo uma dama que se atreva nessa diagonal (h8-a1), deverá ser muito jeitosa para que eu troque por esse bispo”.

23 Taf1 h4 24 Te1
O posicional Shredder indica a glutoneria de 24 Bg5 como melhor, propondo também 24...Cd3 25 Bxh4 e agora, 24...b5!?, violenta estocada que ocorrerá mais adiante.

24...Tad8 25 Df4 b5!?
Sacrifício muito mais especulativo do que correto, quando são levados em consideração o zeitnot do adversário, sua idade, seu estado de ânimo, etc. O Chess Tiger 14.0 (mudei o soft, o Shredder é muito posicional) garante-nos que depois de 26 axb5 a4 27 Cxa4 e3 28 fxe3! De7 29 e4, as brancas estariam ganhas em +3.22.

26 axb5 a4+! 27 Cxa4 e3!!
Agora, com uma invejável fortuna de dois peões a mais, Mihai não se preocupa em tomar esse terceiro peão, como devia ter feito, mas sim em reforçar esse chifre (b5-d5) ameaçador e definitivo.

28 Cc3 Cc6! 29 bxc6??
O Tiger propõe 29 dxc6! Dd2 30 Tc1 Bxc3 31 Txc3 Dxe2 32 Df3 Dxf3 33 gxf3 e2 34 Te1 Td1 35 Tc1 Td3+ 36 Tc3 Td1 37 Tc1, empatando.

29...Tb8+ - diag. 2
Segundo o Tiger, as brancas levam mate em 7 lances, se sacrificar a dama; ou em 6, se seguir como na partida.

30 Cb5 Txb5+!! 31 cxb5 Dxd5+ 32 Dc4 Bc2+!!, 1- 0.

     E eis aí a ponta de toda a combinação, revelando a diabólica e mortal engrenagem montada pelo MI búlgaro: o verdadeiro verdugo do rei branco não é esse seminarista que em c2 apenas arremata seu cadafalso, mas aquele bispo sinistro e distante, despercebido em h8, cuja mitra parece furar o último ângulo do tabuleiro: 33 Rxc2 Dd2+ 34 Rb3 Dxb2+! 35 Ra4 Ta8#.

 

 


Soluções
634 A (C. Bernhardt, Schachstudien, 1952)
1 Dh8+ Rg6 2 De8+ Rg5 3 Db5+Df5 4 f4+! Rxf4 5 Tf8! Dxf8 6 De5+ Rg4 7 Dg3+ Rf5 8 Df3++-.
B (L. Kubbel, Bohemia, 1908)
1 Cd5! (zug) 1…Rxc8 2 Bc7! d6 3 Be6#; 1…Re7 2 Be7! d6 3 Cf6#

 

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