: : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :   CRÔNICAS    : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :
 

  54º Campeonato da Rússia
 

 

 

A - Br. jogam e ganham



B - Mate em 3 lances

    Este ano, o mais forte campeonato nacional do mundo, realizado entre 30 de abril e 8 de maio, em Elista, Kalmíquia, contou com a participação de 60 dos mais promissores mestres russos. Sob o regime suíço em nove rodadas, essa prova serviu para revelar a nova geração do melhor xadrez internacional, além de testar o novo ritmo de jogo imposto pela Fide, que estabelece para cada jogador 40 lances em 75 minutos, seguidos de 15 minutos (bônus de 30s por lance) a finish.

     Os dirigentes da Fide Commerce (firma que explora comercialmente todas as atividades oficiais da Fide) aproveitaram a ocasião para fazer uma enquete, imprópria e fajuta, com quase todos os presentes, sobre a viabilidade desse novo ritmo.

     Imprópria, por que aqueles que se houveram bem com esse ritmo vão, iludidos, dizer que ele é bom. E fajuta, por que feita na Kalmíquia, uma república autônoma situada na Sibéria, cujo presidente, Kirsan Iliushinov, também o é da Fide — interessada nessa mudança.

     — É de sua livre e espontânea vontade se casar, aqui, com a minha afilhada Benedita, grávida de cinco meses?
     — É, sim, seu Delegado...

     A tabela final desse 54º Campeonato da Rússia registrava: 1/2. Alexander Motylev (17.06.79 — 2.601) e Alexander Lastin (30.10.76 — 2.627) 6.5 pontos em 9 possíveis; 3. Andrei Kharlov (20.11.68 — 2.639) 6.0; 4/17. V. Malakhov, K. Chernyshov, E. Pigusov, M. Turov, V. Epishin, P. Smirnov, V. Arbakov, S. Ionov, E. Najer, A. Galkin, M. Kobalija, A. Bezgodov. A. Volzhin e V. Burmakin, 5.5. Alguns favoritos como Sergei Shipov e Dmitrij Jakovenko situaram-se além da 20ª colocação.

Motylev (2600) x (2640) Shipov (5ª rod. 54º Rus. Chess Champ., Elista, 04.05.01 — Siciliana, B 94) 
1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 d4 cxd4 5 Cxd4 Cf6 5 Cc3 a6 6 f3 e6 7 Be3 b5 8 g4 b4 9 Cce2 h6 10 Bg2 e5 11 Cf5 Be6 12 Bf2 d5 13 exd5 Dxd5 14 0-0 Cbd7 15 c3 Dxd1 16 Tfxd1 Bxf5 17 gxf5 Tc8 18 Tac1 bxc3b 19 Cxc3 Bc5 20 Bxc5 Txc5 21 Cd5 Txc1 22 Txc1 0-0 23 Cxf6+ Cxf6 24 Bf1 a5 25 Tc5 a4 26 Txe5 Td8 27 Tc5 Td1 28 Tc4 Tb1 29 Txa4 Cd5 30 Te4 Txb2 31 Bc4 Tb1+ 32 Rf2 Cf6 33 Te7 Tb2+ 34 Rg1 h5 35 Bxf7+ Rh7 36 Tc7 Rh6 37 h4 Tb5 38 Tc8 Txf5 39 Th8+ Ch7 40 Bg8 Tf8 41 Txh7+ Rg6 42 Th8 Rf6 43 Txh5 Txg8 44 Ta5 Tc8 45 Rg2 Tc2+ 46 Rg3 Rg6 47 a4 Ta2 48 Ta8 Ta1 49 a5 Ta4 50 a6 Ta5 51 a7 Rh7 52 h5! Ta1 53 f4 Tg1+ 54 Rf3 Ta1 55 f5! Ta6 56 Re3 Ta5 57 h6!, 1-0.

Kharlov (2635) x (2520) Timofeev (1ª rod. 54º RCC, Elista, 30.04.01 — Grunfeld, D 85) 
1 d4 Cf6 2 c4 g6 3 Cc3 d5 4 cxd5 Cxd5 5 e4 Cxc3 6 bxc3 Bg7 7 Bc4 0-0 8 Ce2 Cc6 9 0-0 Ca5 10 Bd3 b6 11 Bg5 c5 12 d5 h6 13 Bh4 g5 14 Bg3 e6 15 f4 exd5 16 exd5 f5 17 fxg5 hxg5 18 d6 De8 19 Dd2 f4 20 Bxf4 gxf4 21 Cxf4 De5 22 Cg6 Txf1+ 23 Txf1 Dxd6 24 De2 Bb7 25 Ce7+ Rh8 26 Dh5+ Dh6 27 Df5 Td8 28 Cg6+ Rh7 29 Ce5+ Rg8 30 Df7+ Rh8 31 Cg6+ Rh7 32 Ce5+ Rh8 33 De7 Txd3 34 Cf7+ Rh7 35 Cg5+ Dxg5 36 Dxg5 Td5 37 Dh4+ Rg8 38 Te1 Bc6 39 Dg4 Td2 40 De6+ Rh8 41 Dc8+ Rh7 42 Df5+ Rg8 43 Te7 Txg2+ 44 Rf1 Rh8, 1-0.


 


CENTENÁRIO DE MAX EUWE 

     Há 20 anos, dia 17 de maio de 1981 mais precisamente, o mestre Ronald Câmara publicava n'O POVO, de Fortaleza-CE, uma crônica assinalando o 80º aniversário do ex-campeão mundial Max Euwe, com o título de "Le grand professeur", que reproduzimos a seguir, em homenagem à centenária data natalícia desse gigante do tabuleiro internacional:

 

    Em 1935, o mundo enxadrístico foi surpreendido com a derrota de Alexandre Alekhine, no match em disputa do título mundial que ostentava desde 1927. Consagrado como um dos mais notáveis campeões da história do xadrez, Alekhine, após seu sensacional triunfo frente a Capablanca, havia defendido o trono por duas vezes e não tivera dificuldades para vencer seu desafiante, o grande-mestre Effim Bogoljubov. Era, portanto, considerada como certa sua vitória na terceira oportunidade em que colocava em jogo seu título, mormente porque seu adversário não vinha precedido por retumbantes façanhas, nem desfrutava de grande renome nos meios enxadrísticos.

     Daí porque causou surpresa geral quando, depois de um começo arrasador, com três vitórias e quatro empates, Alekhine foi pouco a pouco cedendo terreno e acabou derrotado, perdendo o match e, conseqüentemente, o cetro de campeão mundial. O autor desse memorável feito foi o holandês Machgielis Euwe, mais conhecido pelo hipocorístico de Max Euwe.

     No próximo dia 20 de maio, essa figura extraordinária do xadrez mundial estará completando 80 anos de idade, merecendo uma justa homenagem de todos os aficionados pela sua brilhante e fecunda trajetória no mundo dos trebelhos não apenas como jogador e didata, mas também como dirigente e propagador da arte de Caíssa.

     Emérito professor, laureado em Altas Matemáticas, o sucessor de Alekhine sempre primou por uma extrema modéstia e acendrado espírito esportivo. Sua formação escolástica teve grande influência em seu estilo, fazendo com que a lógica e o racionalismo fossem fatores preponderantes em suas atividades.

    Seu curto reinado tem sido pouco compreendido pela grande maioria dos críticos. Somente alguns, destacando-se entre estes o saudoso escritor e mestre norte-americano Fred Reinfeld, no seu admirável livro "The Human Side of Chess", penetraram no âmago da questão e fizeram uma análise completa de todos os obstáculos que impediram a integral realização de Max Euwe como campeão do mundo.

     A realidade evidencia que somente se dedicando de corpo e alma ao xadrez, dele fazendo não apenas um hobby e atividade secundária, mas sim a razão de ser de sua própria existência, pode um campeão mundial manter-se em nível de acordo com sua hierarquia. Em caso contrário, como aconteceu com Euwe, que sempre pôs em primeiro plano suas funções como professor, a tendência natural é o desgaste e rápida superação. E foi extamente isto o que ocorreu com Le Grand Professeur.

     Mesmo sem condições de brilhar por muito tempo no firmamento como a primeira estrela da constelação enxadrística, o Dr. Max Euwe desenvolveu um magnífico trabalho, seja lecionando, seja escrevendo e, principalmente, dirigindo o órgão máximo do enxadrismo mundial.

     Em 1970, teve início uma nova fase em sua carreira, quando assumiu a presidência da Fédération Internationale Des Échecs. O seu trabalho à frente dessa Entidade foi um dos mais profícuos, com a adoção de reformas fundamentais e extraordinária expansão, numa infatigável campanha para levar a prática enxadrística a todos os rincões mundiais.

     Além disso, soube enfrentar com galhardia um dos períodos mais difíceis da história da disputa do título máximo: primeiro, teve de superar as enormes dificuldades decorrentes da ascenção e queda do fenomenal e contraditório Bobby Fischer; em seguida, em 1978, já ao término de seu segundo e último mandato, enfrentou com muita diplomacia e habilidade os conflitos ocorridos entre Karpov e Korchnoi, antes e durante aquele match pelo campeonato do mundo. Sobre o assunto, é oportuno lembrar a resposta que deu, no auge dos problemas que cercaram esse encontro crucial. Indagado se quando era participante de match semelhante, não havia tanto atrito e incidentes, o Dr. Euwe respondeu de forma incisiva:

     No meu tempo, ainda existiam cavalheiros...

     Em duas oportunidades, o Dr. Max Euwe esteve em Fortaleza: em 1947, ao ensejo de sua participação no Torneio Internacional de Mar del Plata, empreendeu uma "tounée" pelo Brasil, graças ao trabalho do inesquecível paladino do xadrez nacional Gilberto Câmara; em 1971, após assistir o match entre Fischer e Petrosian, em Buenos Aires, e abrir os trabalhos do Congresso Pan-Americano em Tucumán (Argentina), fez uma série de exibições nas principais cidades brasileiras, patrocinadas pela C.B.X., na companhia deste redator, então vice-presidente técnico dessa Confederação. Nessa ocasião, além de uma concorrida simultânea, o Dr. Euwe fez interessantes palestras sobre os mais diversos assuntos.

     Ao atingir tão provecta idade, esse "monstro sagrado" do xadrez mundial se mantém lúcido, capaz e atuante, como demonstrou recentemente ao vencer o mestre holandês C. Kuipers, num match interclubes, da seguinte maneira:

Dr. Euwe x Kuipers (Francesa, C 04) 1 e4 e6 2 d4 d5 3 Cd2 Cc6 4 Cgf3 Cf6 5 e5 Cd7 6 Bb5 a5 7 0-0 Ca7 8 Bd3 c5 9 c4! dxc4 10 Cxc4 b5 11 Bg5! Dc7 12 Ca3 c4 13 Be4 Bb7 14 d5! Bxa3 15 bxa3 exd5 16 Bxd5 Cb6 17 Bxb7 Dxb7 18 Dd6! Cbc8?? 19 Dd8#.

No decorrer de sua carreira internacional, cujo início data de 1919, quando jogou pela primeira vez o torneio inglês de Hastings, o Dr. Max Euwe produziu inúmeras partidas dignas de uma antologia. Quem não conhece "A pérola de Zandvoort", que praticamente decidiu o primeiro match com Alekhine? Ou então, sua brilhante partida com Tartakower, no Torneio de Veneza, 1948, quando mostrou sobejamente seus dotes combinatórios, sacrificando inúmeras peças para conseguir uma geométrica peregrinação do rei adversário até a estocada final?! E as suas expressivas partidas na primeira fase do Torneio de Candidatos de 1953 e tantas outras significativas produções?

A sua partida favorita, conforme declarou no interessante livro inglês "Chess Treasury of the Air", editado por Terence Tiller, ocorreu em Zurich, 1953, no torneio de candidatos efetuado nessa cidade suiça e teve como "vítima" o conhecido grande-mestre argentino Miguel Najdorf

Com os comentários do próprio Dr. Euwe, apresentamos a seguir "l'enfant chéri du maitre".

Dr. MAX EUWE x MIGUEL NAJDORF (2º Torneio de Candidatos ao Título Mundial, Zurich, Suiça. 1953 -- India do Rei, E 65)

1 d4 Cf6 2 c4 g6 3 g3 Bg7 4 Bg2 0-0 5 Cc3 c5 6 d5 e5 7 Bg5 h6 8 Bxf6 Dxf6 9 d6!?
Uma jogada aguda. É evidente que esse avanço restringe a posição das pretas, mas, ao mesmo tempo, esse peão pode tornar-se fraco, uma vez que as brancas têm poucas posibilidades de defendê-lo. O lance do texto tem a vantagem de abrir a grande diagonal branca, permitindo ainda a ocupação da casa d5, seja por um cavalo ou pelo próprio bispo fianchettado. Tudo isso, pois, justifica sua adoção.

9... Cc6 10 e3 b6 11 Bd5! Rh8 12 Ce4 Dd8 13 h4 f5 14 Cg5! Bb7 -- diag. 1
Naturalmente que o cavalo não pode ser capturado, pois nesse caso, a TR das brancas entraria em cena. Agora, parece que as brancas podiam obter a vantagem de uma qualidade, mediante 15 Cf7+ Txf7 16 Bxf7. Mas era exatamente isso que Najdorf estava desejando, pois teria continuado com 16...Cb4 17 Th2 Df6 18 Bd5 Bxd5 19 cxd5 e4! e as pretas teriam excelentes perspectivas.

15 g4! e5 16 Ce2 Bxb2 17 Cf4! -- diag. 2
Uma posição verdadeiramente complicada, com muitas possibilidades. A ameaça óbvia é 18 Cxg6+, seguido de 19 gxf5, eliminando assim a barreira protetora de peões pretos. As pretas rejeitaram 17...Bxa1, porque com 18 Dxa1+, a dama branca participaria imediatamente da luta. O lance feito parece mais adequado. Posteriormente, a análise fria do laboratório mostrou que o ilógico 17...Bxa1 era a melhor hance à disposição das pretas para tentar salvar a partida.

17... Df6 18 gxf5! Bxa1 19 Cxg6+ Rg7 20 Cxe4 Bc3+ 21 Rf1 Dxf5 22 Cf4! -- diag. 3
As brancas não estão à procura da torre, mas sim do rei preto! É notável verificar que mesmo com uma torre de vantagem, as pretas estão perdidas! Pode-se pensar que isso foi decorrente de um cálculo profundo. Na realidade, o número máximo de lances que vi nessa ocasião foram três! Por exemplo, neste momento, apenas me fixei na ameaça 23 Cg3 De5. Não é de forma alguma surpreendente que numa posição dessa natureza, as brancas disponham de tantas possibilidades. Todas as suas peças participam do ataque e suas peças ligeiras controlam as importantes casas brancas no campo inimigo. Como já afirmei, não é necessário fazer cálculos de combinações extensas, mas simplesmente jogar. Se me fosse indagado se estava temeroso de perder neste momento à falta de material, eu responderia com toda a sinceridade: "Não, de forma alguma". Em partidas como essa, têm-se a nítida sensação de que tudo irá dar certo!

22... Rh8 23 Cxc3 Tde8 24 Cce2 Tg8 25 h5 Tg5 26 Cg3 Txg3 27 fxg3 Txe3 28 Rf2! Te8 29 Te1! -- diag. 4
Decisivo. As pretas não podem evitar a penetração de uma das peças pesadas das brancas no seu reduto, tornando insustentável sua posição.

29... Txe1 30 Dxe1 Rg7 31 De8!
A batalha está terminada. As pretas têm apenas alguns xeques desesperados  (esperneio) e tudo então estará concluído...

31... Dc2+ 32 Rg1 Dd1+ 33 Rh2 Dc2+ 34 Cg2 Df5 35 Dg8+ Rf6 36 Dh8+!! Rg5 37 Dg7+, 1-0.
O mate era inevitável: 37...Rxh5 38 Bf7+ Dxf7 39 g4#


Solução: 587
A (T. Kck, Schachstudien, 1936 — Tema Plachutta) 1 g3! Txg3 2 f7! Tf3 3 Cf5!! Tgxf5 4 f8=D+! Txf8 5 a7 Re8 6 a8=D+ Rf7 7 Dxf3++-.
B
(M. Dudanov, Volgogradskaia pravda, 1966) 1 Bd3! Rf3 2 Cc4! Rg2 3 Be4++; 2...Rg4 3 Ce5++; 2...g4 3 0-0++!

 

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