: : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :   CRÔNICAS    : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :
 

   Supertorneio Corus 2002
 

Partidas interessantes e intensos combates assinalam o promissor início da temporada magistral
 

 

A - Br. jogam e ganham



B - Mate em 3 lances

 

    O 64º Corus Chess Tournament, que se realiza em Wijk aan Zee, na Holanda, entre 12 e 27 deste mês, com um rate-médio de 2688 pontos-ELO, categoria 18, vem-se notabilizando pelo acirramento dos embates, resultando em partidas movimentadas, ricas em idéias e inspirados sacrifícios, bem de acordo com o objetivo dos promotores de eventos dessa magnitude.

     Da segunda rodada, selecionamos um duelo que permanecerá na memória dos aficionados durante um bom tempo e que servirá de modelo para uma interessante e sempre controvertida linha de jogo.

L. Van Wely (2697) x (2605) J. Timman (2ª rod. Corus, Wijk aan Zee/HOL, 13.01.02 - Benoni, A 64)

1 d4 Cf6 2 c4 e6 3 g3!? c5! 4 d5 exd5 5 cxd5 d6  7 Bg2 Bg7  8 Cf3 O-O 9 O-O a6
Lances característicos da penosa Defesa Benoni, quando a estratégia de ambos os lados se estabelece com precisão: as pretas, por sua maioria (4 x 3) de peões na ala da dama, procurarão movimentar aquele setor, baseando-se em especial na estocada ...b5 agora facilitada pela ausência do bispo branco da diagonal f1-a6; as brancas farão o mesmo na outra ala, tendo como ponto alto de sua meta o demolidor avanço e5.

Wely

10 a4 Te8 - diag.1
Dentro da filosofia benoniana, é mister conservar uma visão estrábica dessa posição, ou seja, um olho na salutar expansão da "sua" ala da dama (...b5) e outro no impedimento do desastroso rompimento e5 adversário.

11 Cd2!
A idéia da pirueta desse cavalo, posicionando-o em c4, é a mais lógica possível: pressionar d6, colaborar com o avanço e5 e ainda desimpedir o trânsito de sua maioria na ala do rei — a marcha dos peões e4 e f4.

11...Cbd7 12 h3 Tb8 13 Cc4 Ce5 14 Ca3!?
Quanto mais peças no tabuleiro, maior a incômoda falta de espaço das pretas —- razão principal de seu alarmante índice de derrota e sofrimento, como denuncia seu próprio nome. Segundo a lenda, Jacob aproximou-se do berço do primogênito recém-nascido, dizendo: "Seu nome será Ben-Jamin (Filho do Prazer)". Mas Raquel ponderou: "Há um nome melhor para ele: Ben-Oni (Filho da Dor)". Ela fazia uma clara alusão à madrasta cidade de On, no Egito, onde Osíris reinou —- Osíris, Senhor da Morte. Por correlação, Ben-Oni, Filho da Morte (ou Dor). Enxadristicamente, esse nome se deve a Aaron Reinganum, que no prefácio de seu livro lançado em Frankfurt, 1825, escreveu: "Sempre que eu me sentia triste e desejava minimizar minha melancolia, sentava-me diante de um tabuleiro e meditava durante uma ou duas horas seguidas, dependendo das circunstâncias. Assim, a idéia desse livro tomou sua forma e seu nome Ben-Oni, Filho da Tristeza, deveria indicar sua origem".

14...Ch5 15 e4 Tf8!
Com a marginalização do cavalo branco em a3, Timman sente-se à vontade para mudar a proposta teórica dessa variante e incursionar na própria ala onde as brancas, se antes preponderavam com um peão a mais, agora padecem com uma peça a menos. Essa idéia já fora posta em prática por Timmam há exatos 22 anos, provocando do mestre Ronald Câmara a judiciosa observação:
"Posição fundamental dessa variante. A prática magistral mostra diversos exemplos que ajudam sobremodo na sua avaliação. Para prosperar no seu ataque na ala do rei, as pretas terão, mais cedo ou mais tarde, de sacrificar valioso material; enquanto isso, as brancas deverão arregimentar suas forças que estão dispersas e inativas na ala da dama" - O Povo, 30.03.1980.

16 Rh2
Na partida básica dessa linha, Scheeren-Timman, camp. Holanda 1980, seguiu 16 g4 Dh4! 17 gxh5 Bxh3 18 h6 Bh8 19 Ce2 f5! 20 exf5 Txf5 21 Cg3 Tbf8! 22 Cxf5 Txf5 23 Db3 Bxg2 24 Rxg2 De4+! 25 f3 Cxf3! 26 Dxf3 — se 26 Txf3 De2+ 27 Rg3 Be5+ 28 Bf4 Tg5+ 29 Rh3 Dg2+ 30 Rh4 Th5# —- 26...Txf3 27 Txf3 De2+ 28 Tf2 Dg4+ 29 Rf1 Dd1+ 30 Rg2 Bd4 31 Tb1 Dg4+ 32 Rf1 Dd1+ 33 Rg2 Dg4+ 34 Rf1 b5! 35 axb5 axb5 36 Ta1 Bxf2 37 Rxf2 Da4! 38 Tb1 Dh4+ 39 Re2 De4+! 40 Rd1 Df3+. 0-1.

16...f5 17 f4 b5 18 axb5
Aqui, há um precedente: 18 fxe5 Cxg3 19 Rxg3 Bxe5+ 20 Rf2 Dh4+ 21 Rg1 Dg3 22 Tf3 Dh2+ 23 Rf1 Bd7! 24 Cc4 bxc4 25 Ta3 fxe4 26 Cxe4 Bxh3! 27 Bxh3 Dxh3+ 28 Re2 Dg2+ 29 Cf2 c3!! 30 Txf8+ Txf8 31 Be3 Df3+ 32 Rd3 c4+ 33 Rxc4 Dxe3 34 Cg4 Tf4+ 35 Rb3 Db6+, 0-1. Birnboim-Arnasson, Randers 1982.

18…axb5 19 fxe5 N - diag.2
Pelo exagerado tempo de reflexão gasto por Loek nessa posição, deduz-se que ele se esqueceu do "dever de casa", isto é, da recomendação consagrada pela teoria; 19 Caxb5 fxe4 20 Ca7!? e3 21 De2 Cxg3 22 Rxg3 g5 23 f5 Bxf5 24 Dxe3 Dd7 25 Cc6 Tbe8 26 Dxg5 e as brancas se impuseram, 1-0 in 34. Alburt-H. Olafsson, Reykjavik 1982. Nesse mesmo ano, ocorreu o famoso encontro Korchnoi-Kasparov, Ol. Lucerna 1982, quando tivemos 19 Caxb5 fxe4 20 Bxe4! —- contra 20...Ca7!?, Kasparov propõe 20...Db6 ou 26...Bd7, com chances recíprocas —- 20...Bd7 21 De2 Db6 22 Ca3 Tbe8 23 Bd2? Dxb2! 24 fxe5 (24 Tfb1? Cf3+!) 24...Bxe5 25 Cc4 Cxg3! 26 Txf8+ Txf8 27 De1 Cxe4+ 28 Rg2 Dc2?! (28...Tf2+! 29 Dxf2 Bxh3+!) 29 Cxe5 Tf2+? 30 Dxf2 Cxf2 31 Ta2! Df5 32 Cxd7 Cd3 33 Bh6 -- segundo o mestre Ronald Câmara, "até mesmo nas análises, essa partida foi polêmica. Nos boletins dessa Olimpíada, o lance do texto (33 Bh6) mereceu um ponto de admiração; nas pesquisas feitas pelo jovem MI inglês Nigel Short, esse lance foi adornado com uma significativa interrogação e, em substituição, ele mencionou um curioso recurso para as brancas: 33 Ta8+ Rg7 34 Ta7! Df2+ 35 Rh1 Dxd2 36 Ce5+! Rf8 37 Ta8+ Re7 38 Ta7+ Rd8 39 Ta8+ e as pretas não poderiam fugir aos xeques-perpétuos, pois 39...Rc7? ensejaria 40 Cb5+! Rb7 41 Ta7+, ganhando" (RC). A luta prosseguiu: 33...Dxd7 34 Ta8+ Rf7 35 Th8 Rf6 36 Rf3? Dxh3+, 0-1. Na posição crítica de todo esse sistema (23 Bd2?), o mestre Ronald volta à carga para nos explicar que essa "foi a primeira falha técnica, decorrente de um erro de cálculo. É claro que a aceitação do cavalo de e4 permite que as pretas intensifiquem seu ataque. O areópago de analistas que dissecou essa partida em Lucerna se inclinou, neste instante, por 23 Dg2, protegendo o ponto crítico de g3 e conservando defendido o bispo de e4" (RC). Realmente, dois anos após esse tormentoso match, aconteceu a coerente recomendação: 23 Dg2! g5 24 fxg5! Txf1 25 Cc4 Db3 26 Dxf1 Tf8 27 De2 Bb5 28 Dxh5 Tf2+ 29 Rg1, 1-0. Burger-Bergmann, Reykjavik op. 1984.

19…Cxg3! 20 Tf3 Bxe5 21 Caxb5 Dh4! 22 exf5
O Fritz sugere 22 Rg1 Bd7 23 Cc7 Cxe4 24 Ce2 f4, embora as pretas permanecessem superiores.

22...Bxf5 23 Ta4 Be4!?
TimmanCom destemor, Timman se lança inteiro ao ataque, sempre aumentando o poder de fogo de suas peças. Vejam que o Cb5 e a Ta4 podem muito pouco neste momento, enquanto o bispo branco de casas pretas, inoperante, apenas reza em silêncio na capela de c1. No entanto, era melhor 23...c4, pois agora as brancas dispunham do recurso 24 Cxe4 Cxe4+ 25 Rg1 Txf3 26 Dxf3 De1+ 27 Df1 Dg3 28 Txe4 Dh2+ 29 Rf2 Tf8+ 30 Re2 Txf1 31 Rxf1 Dg3 32 Cc3 com superioridade, Fritz/+0.47.

24 Txf8+?
No zeitnot, Loek não acerta com a continuação sugerida pelo Fritz e compromete de vez a sua já difícil defesa.

24...Txf8 25 Rg1 - diag.3
Agora, sem a torre em f3 cobrindo a fuga do rei por f2 ou f1, a seqüência 25 Cxe4 leva ao desastre imediato: 25...Cxe4+ 26 Rg1 Df2+ 27 Rh1 Dg3 28 Dg1 Cf2+ 29 Dxf2 Dh2#

25...Ce2+!! 26 Dxe2 Dg3 27 Bf4 Dxf4
Antes do desenlace fatal, observem uma última vez a total inoperância das peças brancas na ala da dama, justificando assim a pródiga, rara e inspirada condução desse sempre renovado "leão neerlandês".

28 Bxe4 Dg3+ 29 Rh1 Tf1+!, 0-1.
Uma partida envolvente e instrutiva.


Soluções 622
A
(M. Liburkin, 64, 1930 - 1º pr.)
1 Tc7+ Rb8 2 Tb7+ Ra8 3 Be8 Cxc6 4 Txb6 Cb4! 5 Bf7! Be8! 6 Rxb4 Bxf7 7 Th6!!+-.
B (A. Galitzky, Schachminiaturen, 1903)
1 Cd4! (zug) 1…Cf3 2 Cc3+ Cxe1 3 Cb3#; 1…Cxb1 2 Cc2+ Ra2 3 De6#; 1…Ra2 2 Cc3+Ra3 3 De7#

 

 

HOME :: PERFIL :: ATUALIDADES :: COLUNAS :: TEORIA :: COMPUTAÇÃO :: XADREZ JUVENIL :: XADREZ FEMININO :: LINKS :: CONTATO