: : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :   CRÔNICAS    : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :
 

  34ª Olimpíada - 2
 

 

 

Na 34ª Olimpíada de Xadrez realizada em Istambul, na Turquia (28/10 a 12/11), o destaque maior coube à equipe da Alemanha que, atuando com dois veteranos nos primeiros tabuleiros, Yusupov e Hubner, além dos esforçados Dautov e Lutz (reservas: Bischoff e Luther), obteve uma consagradora segunda colocação, com 37 pontos em 56 possíveis. 
     Sem maiores dificuldades, a equipe de Rússia foi a campeã com 38 pontos, contando para isso com o empenho do campeão mundial da FIDE Alexander Khalifman e com a força dos GM-As Alexander Morozevich, Peter Svidler, Sergey Rublevsky, Konstantin Sakaev e Alexander Grischuk. 
     Na 14ª e última rodada, mercê do primoroso desempenho de Ponomariov (17 anos, medalha de ouro no 2º tabuleiro, com 8.5 em 11 partidas), a Ucrânia alcançou a Hungria na terceira colocação, superando-a porém pelos critérios de desempate. Ambas totalizaram 35.5 pontos. Pela Ucrânia: Ivanchuk, Ponomariov, Baklan, Eingorn, Romanishin e Malakatko. Nas duas últimas rodadas, Israel (Gelfand, Smirin, Avrukh, Psakhis, Sutovsky e Huzman) empreendeu uma notável reação para situar-se na quinta colocação, com 34.5 pontos. A tabela final registrava: 6. Georgia 34.0; 7/13. Inglaterra, Índia, China, Suíça, Uzbequistão, Eslovênia e Macedônia 33.0; 14/16. Bulgária, Polônia e França 32.5; 17/25. Bósnia, Filipinas, Grécia, Dinamarca, Cuba, Espanha, Iugoslávia e Estônia 32.0 etc, num total de 126 países.
      A equipe do Brasil, com 30.5 pontos (54.5% de rendimento), dividiu com Rep. Tcheca e Cingapura a 38/40ª colocações. No entanto, o site oficial da CBX estampava em sua página inicial que essa era a melhor equipe brasileira de todos os tempos. Diante desse delírio, a pergunta lógica e aflitiva é essa: em que lugar chegaríamos, se a equipe brasileira de agora não fosse a melhor de todos os tempos?!
     No espectável duelo EUA x Cuba, os Estados Unidos perfilavam em sua equipe três jogadores (russos) naturalizados e apenas um (De Firmian) nascido lá. Shabalov venceu Nogueiras, Arencíbia descontou em Kaidanov, enquanto Yermolinsky e Bruzón empatavam: 1.5 a 1.5. A decisão só ocorreu no 4º tabuleiro, partida Dominguez x De Firmian, comentada a seguir:

A. SHABALOV (EUA, 2.600) x (2.550, Cuba) J. NOGUEIRAS  (13ª rod. - 1º Tab. 34th Olympiad, Istambul, 10.11.00 -- Francesa, C 02) 1 e4 e6 2 d4 d5 3 e5 c5 4 c3 Cc6 5 Cf3 Bd7 6 Be2 Tc8 7 O-O Ch6 8 Ca3 cxd4 9 cxd4 Bxa3 10 Bxh6 gxh6 11 bxa3 O-O 12 Dd2 Rg7 13 Tac1 Ce7 14 h4 Txc1 15 Txc1 Db6 16 Bd3 Tc8 17 Txc8 Bxc8 18 Df4 Cg8 19 g4 Dd8 20 g5 De7 21 Dg4 Rh8 22 gxh6 Cxh6 23 Df4 Rg7 24 Dc1 Bd7 25 Cg5 Cf5 26 Bxf5 exf5 27 Dc7 h6 28 e6 hxg5 29 exd7 De1+ 30 Rg2 De4+ 31 Rh2 Dxd4 32 Dg3 f4 33 Dxg5+ Rh7 34 d8=D, 1-0.

W. ARENCIBIA (Cuba, 2.510) x (2.620, EUA) G. KAIDANOV  (13ª rod. - 2º  Tab. 34th Olympiad, Istambul, 10.11.00 -- Nimzowitch/Larsen, A 01) 1 b3 e5 2 Bb2 Cc6 3 e3 d5 4 Bb5 Bd6 5 f4 De7 6 Cf3 f6 7 Cc3 Be6 8 O-O Ch6 9 fxe5 fxe5 10 e4 dxe4 11 Cxe4 O-O 12 Bxc6 bxc6 13 De2 Bg4 14 Dc4+ Rh8 15 Cfg5 Bd7 16 Tae1 Cf5 17 Cf3 Tae8 18 Cf2 Be6 19 Dxc6 Cd4 20 Bxd4 exd4 21 Ce4 Bd7 22 Dd5 Tf5 23 Dxd4 Ba3 24 Cf2 Dd8 25 Txe8+ Dxe8 26 Te1 Dc8 27 De3 Df8 28 Cd3 Bd6 29 Cfe5 Bc8 30 Cc4 Bb7 31 Cxd6 cxd6 32 h4 h6 33 De8 Tf1+ 34 Rh2 Dxe8 35 Txe8+ Rh7 36 Te1 Tf7 37 Te6 Td7 38 c4, 1-0.

A. YERMOLINSKY (EUA, 2.595) x (2.530, Cuba) L. BRUZÓN   (13ª rod. - 3º Tab. 34th Olympiad, Istambul, 10.11.00 -- PD-Ortodoxa/Tartakower, D 58) 1 d4 d5 2 c4 e6 3 Cc3 Be7 4 Cf3 Cf6 5 Bg5 O-O 6 e3 h6 7 Bh4 b6 8 Bd3 Cbd7 9 Bg3 Bb7 10 O-O c5 11 cxd5 Cxd5 12 Tc1 C7f6 13 Te1 cxd4 14 exd4 Tc8 15 Te2 a6 16 Bb1 b5 17 Be5 Cxc3 18 bxc3 Bxf3 19 gxf3 Cd5 20 Dd3 g6 21 f4 Rh7 22 h4 Tg8 23 h5 f5 24 Dh3 gxh5+ 25 Rf1 Tg6 26 Tec2 Dg8 27 Re2 Bf6 28 Df3 Bxe5 29 fxe5 Tg4 30 c4 Te4+ 31 Rf1 vxc4 32 Txc4 Txc4 33 Txc4 Tf4 34 Db3 Tg4 35 Re2 Tg1 36 Db7+ Rg6 37 Tc8 Df7 38 Db8 Rg7 39 Bc2 h4 40 Bb3 Cf4+ 41 Re3 Te1+ 42 Rxf4 Te4+ 43 Rf3 Dh5+ 44 Rg2 Dg4+ 45 Rh2 Df4+ 46 Rg2 Dg4+ 47 Rh2 Df4+ 48 Rg2 Dg4+, ½-½.

      LENIER DOMINGUEZ (Cuba, 2.530) x (2.565, EUA) NICK DE FIRMIAN (13/r. 4/TAB. Istambul, 10.11.00 — Siciliana, B 93) 
     1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 d4 cxd4 4 Cxd4 Cf6 5 Cc3 a6 6 f4!?

     Preferida pelos jogadores de ataque (em especial, a fenomenal Judit Polgar) para combater a Variante Najdorf, essa aguda continuação traduz claramente a intenção de Lenier em levar a luta às suas últimas consequências.

     5... e5!?
     Nick ainda podia caminhar pelo suave caminho da promissora, sólida Variante Scheveningen (5...e6). Mas essa partida era decisiva para o match e ele precisava assumir certos riscos, se quisesse vencer.

     7 Cf3 Cbd7 8 a4!
     Impedindo a expansão das pretas na ala da dama e deixando sempre à mão o possível e constrangedor a5
.

     8... Be7 9 Bd3 O-O 10 O-O exf4
     Com a neutralização da ala da dama, as escaramuças tendem a acontecer no centro, para onde convertem todas as forças de ambos os lados
.

     11 Rh1 Cc5 12 Bxf4 Bg4 13 Dd2
     Consoante com o que dissemos, já ocorreu 13 a5!? Te8 14 Dd2 Tc8 15 Cd4 Ce6 16 Be3! Cxd4 17 Bxd4 Bh5 18 Bb6 Dd7 19 e5! Cg4 20 Bf5 e, superiores, as brancas venceram, 1-0 in 36. Vasta-Labollita, XXX International Open de Mar del Plata-A, 1999. Aqui, cabe também o seguinte registro: na 6ª rodada desta Olimpíada, acontecera 13 Be3 Tc8 14 Dd2 Cxd3 15 Dxd3 Dc7 16 Cd4 Dd4 17 Cf5 Bxf5 18 Txf5 Cg4 19 Bd4 Bf6! 20 Bxf6 Cxf6 21 Taf1 Dxd3 com uma posição esvaziada, ½-½ in 38. Mannion-Arencibia (Walter Arencibia é companheiro de equipe de Lenier Dominguez), Istambul 2000.

     13... Tc8
     Analisando sua partida com Gata Kamsky (brancas), o super GM-A ucraniano Vassily Ivanchuk recomendava nessa posição o apropositado 13...Bh5!?, para reforçar a tensão central com ...Bg6. E ele propunha (13...Bh5!?) 14 Tae1 Bg6 15 b4 Cxd3 16 cxd3 d5! -- sempre o centro -- 17 e5 Ch5 18 Bg5 f6 19 exf6 Cxf6, com igualdade. E encontramos um exemplo endossando essa recomendação de Ivanchuk, 13...Bh5!? 14 Cd4 Bg6 15 Cf5 Bxf5 16 exf5 d5 17 Be5 Ccd7 l8 Bd4 Bc5 19 Ce2 Te8  20 c3 com equilíbrio, ½-½ in 28. Milos-Leitão, Zonal 2.4, São Paulo 2000.

     14 Tae1!
     Uma opção interessante é, direto, 14 Cd4 Ce6 15 Be3! Cxd4 16 Bxd4 Be6 17 a5! Cd7 18 Ca4 Bf6 19 Bxf6 Cxf6 20 Cb6 Tc6 21 Tad1 Cd7 22 Cxd7 Dxd7 23 e5 dxe5 24 Bxh7+ Rxh7 25 Dxd7 Bxd7 26 Txd7 Txc2, ½-½. Arnason-Anand, rapidplay Islândia 2000.
     O lance do texto é típico da escola soviética, escola que influenciou e ainda é a base de toda a formação dos enxadristas da "perla del Caribe", a partir da revolução cubana liderada, entre outros, por Camilo Cienfuegos. Os ardorosos enxadristas Fidel Castro e Ernesto Che Guevara aproveitaram-se das estreitas relações Cuba-URSS para importar também os melhores preceptores do xadrez russo -- daí por que Cuba não tem rivais entre os países latino-americanos. Assim, não seria exagero se afirmássemos que nos quatro tabuleiros desse match se executava um xadrez com a mesma origem...

     14... Te8 15 Cd4 Dd7 16 a5!? Bh5
    
Se recapitularmos as variantes anteriores, perceberemos que as manobras, das brancas e das pretas, giravam sempre em torno do domínio central -- sem que se pudesse estabelecer uma estratégia definida para qualquer um dos dois lados.Lenier precisa eliminar o cavalo de f6 para dominar absolutamente a casa d5.

     17 Cf5 Bg6 18 Bg5! Bd8 19 Bxf6! Bxf6 20 Cd5
    
Paulatinamente, Lenier vai restringindo o espaço de seu adversário e isso deve valer em essência como estratégia de jogo das brancas. Não se vislumbra nenhum recurso satisfatório para Nick, que se limita a se defender das ameaças que vão surgindo (Cb6). O Junior-6.0 afere para as brancas uma vantagem posicional, pequena mas significativa, de +0.41.

     20... Bd8 21 b4! Cxd3
    
Seria infeliz 21...Ce6? 22 e5 Bxf5 (se 22...dxe5? 23 Ch6+! gxh6 24 Bxg6+-) 23 Bxf5 e o constrangimento das pretas aumentaria.

     22 cxd3 Te5 23 Cfe3 Tc6 24 Cc4 -- diag. 1     
    
As pretas parecem zugadas, sem lances válidos que fazer; no entanto, as brancas não podem anunciar uma linha forçada de ganho. O Junior registra uma vantagem de +0.62 e oferece a linha 24...Tc6 25 Tc1 Te8 26 Df2 Bg5 27 Tc2 f5 28 Cdb6 Df7 29 Dg3 Df6 30 Cd5 Dd8 31 exf5 Bxf5!, com uma posição indefinida. Nick, sentindo-se sufocado, prefere entregar a qualidade para assomar num final que ele, equivocadamente, considerava igualado.

     24... Te8 25 Df4 h6 26 Dg3 Bxe4?
     Numa análise post-mortem há detalhes que apenas supomos, sem que os possamos garantir. Por exemplo, o zeitnot
de ambos, que muitas vezes os levam a cometer imprudências como essa aí, entregando uma qualidade. O Junior sugere 26...Bg5, embora registre sempre uma ligeira, mas renitente superioridade (+0.52) das brancas.

     27 Ccb6! Txb6 28 Cxb6 Bxb6 29 Txe4! Txe4 30 dxe4 Bd4
    
E até parece que esse bispo em e5, absoluto, é capaz de compensar a qualidade. Um detalhe importante, porém: se as damas forem trocadas, a qualidade então quintuplicará seu valor, equivalendo portanto à própria vitória de quem detém essa vantagem.

     31 Dd3 Be5 32 Tc1 g6? -- diag. 2
    
Um lance lógico e ruim, em vista do que segue. O Junior indica 32...Rh7, mas com a mesma continuação da partida as brancas deviam vencer.

     33 Dh3!!
    
Um lance do humano engenho. Sabendo que sem damas no tabuleiro as pretas não têm a menor chance de empate, Lenier não hesita em propor essa troca enviesada, esquisita e... ganhadora. Já o Junior, mesmo oleado, oferece 33 Dd5, 33 h3, 33 Dc4, mas jamais esse golpe que implica em prévio conhecimento teórico dessa situação específica

     33... De7
    
Aí está, ainda que sem nenhuma compensação, é preferível perder o peão de h6 do que aceitar um final sem esperança de torre x bispo: 33...Dxh3? 34 gxh3 Rg7 35 Rg2 Rf6 36 Rf3 Re6 37 Tc7+-.

     34 Dxh6 Bg7
    
Um erro singular: aqui, o Junior sufere 34...Dd7 ou 34...De6, por que não admite, como na análise anterior, a exdruxularia do lance 35 Dh3!!, liquidando a partida. Exemplo: 34...De6 35 Dh3! f5 (35...De7? 36 Tc8+ Rg7 37 Dh8#) 36 exf5 gxf5 37 Tf1!+-.

     35 Tc8+ Bf8 (diag. 3) 36 Df4?!
   
Em posições como essa do diagrama, o Junior não perdoa e aponta um forçado caminho da vitória: 36 h4! d5 (o zug das pretas é total e esse lance é único, ensejando um arremate simples num elementar final de peões) 37 Txf8+!! Dxf8 38 Dxf8+ Rxf8 39 exd5 f5 (do contrário, 40 g4 e 41 h5) 40 g4! fxg4 41 Rg2 Re7 42 Rg3 Rd6 43 Rxg4 Rxd5 44 Rg5, ganhando. O também ganhador, mas prudente lance do texto, revela o zeitnot de Lenier para cumprir seu primeiro controle de tempo -- 40 lances.

     36... d5 37 Tc7 De6 38 e5 Bd6!?
    
Lances assim os doutos costumam rotular de "jus esperneandi" (direito de espernear); já o capivaréu denomina-os de "desespero de mestre". Em linguagem farmacêutica seria "prolongador de agonia". A verdade, porém, é que essa luta desigual não oferece mais nenhuma esperança para as pretas e se Nick a continuou deve ter sido com o intuito de estimular seus companheiros de equipe -- ao contrário do comportamento vergonhoso de alguns jogadores que, pensando apenas em sua performance, mesmo atuando com as brancas, oferecem empate em 11 lances. Empate em poucos lances em partidas olímpicas ocorrem, sim, mas isso apenas quando há um prévio e geral acordo dos capitães das equipes -- não, como resultado isolado, individual. Isso se constitui num desrespeito ao xadrez de um país, sem falar no péssimo e execrando exemplo que tal frouxidão encerra.

     39 Txb7 Bxe5 40 Df1! d4 41 b5! Dd5!? 42 bxa6 d3 43 Tb1
    
E ainda há o detalhe infeliz da coroação do peão-d em casa branca, quando as pretas não podem contar sequer com o auxílio do seu bispo.

     43... Rg7 44 Df3! Dd4 45 Tf1 f5 46 Db7+ Rh6 47 a7 d2 48 a8=D d1=D -- diag. 4
    
A partida chegou a seu final, mas o diagrama vale pelo incomum do registro de quatro damas no tabuleiro

     49 Df8+! Rg5 50 Dbe7+ Rg4 51 h3+, 1-0.

     Resultado: Cuba 2.5 x 1.5 EUA. Quem apostou nos EUA teve motivos de sobra para, no dia seguinte, comemorar o famoso "Journée des Dupes" (Dia dos Logrados, 11 se novembro de 1630), que era como se sentiram os que desejaram derrubar naquele tempo o féreo Armand Jean de Plessis, mais conhecido como Cardeal Richelieu.

         Ou, como diz a trova cubana: ‘‘Que tiene Fidel, que los americanos no pueden con él?’’ 
                                                                                                         

 

 

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