: : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :   CRÔNICAS    : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :
 

  EUA x China
 

 

 

      A Fundação de Xadrez de Seattle, nos EUA, realiza entre 13 e 18 deste mês um match em dez tabuleiros, defrontando americanos e chineses. Os seis primeiros tabuleiros são defendidos pelos melhores jogadores de cada país, além de duas representantes femininas e de dois juvenis. As equipes dispõem de três reservas, um para cada categoria.

     Os Estados Unidos, capitaneados por Nick De Firmian, alinham com Boris Gulko (2622), Yasser Seirawan (2640), Gregory Kaidanov (2607), Alexander Shabalov (2607), Alexander Ivanov (2582), Larry Christiansen (2566) e Joel Benjamin (2581).

     Os chineses, orientados por Lin Feng, perfilam Ye Jiangojuan (2671), Xu Jun (2655), Peng Xiaomin (2648), Zhang Zhong (2607), Xie Jun (2557), atual campeã mundial feminina, Zhu Chen (2538) e Yin Hao (2576).

     No feminino, os EUA formam com Irina Krush (2380), Camila Baginskaite (2306) e Elina Groberman (2106), enquanto a China destaca Xu Yuhua (2500), Qin Kanying (2489) e Wang Lei (2473).

    No juvenil, pelos EUA, anotamos Vinay Bhat (2451), Dmitry Schneider (2404) e Hikaru Nakamura (2364). Entre os chineses, o fulgurante astro Bu Xiangxhi (2558), famoso por ter sido, aos 13 anos, o mais jovem GM de todos os tempos, Ni Hua (2543) e Wang Yue (2439).

     O ritmo de jogo nas quatro rodadas é de 40 lances em 100 minutos, seguidos de 20 em 50 minutos; depois desses dois primeiros controles, cada jogador dispõe de apenas 10 minutos a finish. E cada lance propicia um bônus de 30 segundos.

     Não podemos deixar de observar que dos treze jogadores representando os EUA, apenas três deles são realmente nascidos na terra do Tio Sam (Benjamin, Christiansen e Bhat).

     Os chineses apareceram pela primeira vez no cenário internacional na Olimpíada de Buenos Aires, na Argentina (1978), sendo que durante muito tempo esse ’’esporte burguês’’esteve proibido em competições oficiais, por pernicioso e reacionário — conforme a Revolução Cultural da terra dos mandarins.

     Hoje, a hegemonia mundial do xadrez feminino chinês não encontra paralelo nem se evocarmos o tempo em que pontificavam ‘‘as sublimes georgianas’’.



    
A. Shabalov (2609) x (2607) Zhang Zhong (1ªrod. EUA x China, Seattle, 14.03.01 — Siciliana, B 90) 
    
1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 d4 cxd4 4 Cxd4 Cf6 5 Cc3 a6 6 f3 e5 7 Cb3 Be6 8 Be3 Be7 9 Dd2 h5! 10 0-0-0 Cbd7 11 Rb1 Tc8 12 Bd3 Cc5 13 Cxc5 dxc5 14 De2 Da5 15 Cd5 Cxd5 16 exd5 Bxd5 17 c4 Be6 18 Bd2 Dc7 19 Bc3 Bf6 20 Bc2 Re7! 21 g4 g6 22 Td5 hxg4 23 Txe5 g3! 24 Te1 Bxe5 25 Bxe5 gxh2! 26 Bxc7 h1=D 27 Be5 Dh4 28 Bxg6 Thg8! 29 Bc2 Dxc4 30 Dh2 Tcd8 31 b3 Db4 32 Te2 c4! 33 Rb2 cxb3 34 Bc3 Db5 35 axb3 Tc8 36 Dh4+ Re8 37 Td2 Dg5 38 Da4+ Db5 39 Df4 Dg5 40 De4 Txc3! 41 Rxc3 Da5+ 42 Db4 Da1+ 43 Rd3 Df1+ 44 Rc3 Dxf3+ 45 Rb2 Tg2!, 0-1.


 

  

       Nas olimpíadas mundiais de xadrez, celebradas a cada dois anos, os resultados têm demonstrado que as classificações finais de Estados Unidos e China são equivalentes, equilibradas. Uma evidência, porém, salta aos olhos: mercê da superpopulação de um bilhão e 200 milhões de habitantes, os chineses exibem uma enorme e constante renovação de valores. E agora nesse match EUA x China, efetivado no Harbor Club de Seattle, se houve paridade na categoria absoluta, era flagrante o desnível nas categorias feminina e juvenil em favor da China.
     Um detalhe que chamou a atenção de todos: na equipe principal da China, a presença de duas mulheres, Xie Jun e Zhu Chen, sendo que esta última (com o afastamento de Suzana Polgar) é considerada a mais forte pretendente ao trono mundial, hoje ocupado por Xie.
    
A tabela final registrava China 21 x 19 EUA.

     XIE JUN (2557) x (2582) A. IVANOV (3ª rod. China x EUA, Seattle, 16.03.01 – Espanhola, C 92)

    1 e4 e5 2 Cf3 Cc6 3 Bb5 a6 4 Ba4 Cf6 5 0-0 Be7 6 d3
    
Uma variante tranqüila, evitando a turbulência de opções tipo Contra ataque Marshall.

     6... d6 7 c3! 0-0 8 Te1
    
Xie antes preferira 8 Cbd2 b5 9 Bc2 d5 10 exd5 Dxd5 11 De2 Bg4 12 Te1 Tfe8 13 Ce4 Dd7?! 14 h3 Bh5 15 Cg3 Bg6 16 Ch4! Tad8 17 Cxg6 hxg6 18 Df3 a5 19 a4! B4 20 Bb3+/- e as brancas ficaram superiores, não obstante ½-½ in 42. Xie Jun-Hansen, Tilburg 1994.

     8... b5 9 Bc2! Bb7 10 Cbd2 Cb8
    
A antiga variante de Breyer (10…Cb8) é válida ainda nos dias de hoje. Sua idéia consiste em manter o centro (e5) com ...Cbd7, sem inibir a ação do bispo de b7.

     11 Cf1 Cbd7 12 h3 Te8 13 Cg3 Bf8
    
As pretas estabeleceram seu plano defensivo na ala do rei e vão agora movimentar sua ala da dama, como soe acontecer na maioria das variantes da Ruy Lopez.

     14 d4 g6 15 b3 c6
    
Ivanov fez esse lance alertado pelo "telegrama" 15 b3, intentando seguir com 16 d5 e 17 c4. No entanto, se o centro se mantiver imóvel, aquele bispo de b7 terá se transformado num "peão desqualificado", porquanto nem para a frente o infeliz poderá se mover.

     16 Bg5 Bg7 17 Dd2 De7 18 Tad1
    
A campeã mundial, no mais puro estilo da escola soviética, traz todas as suas peças da ala da dama para o centro e ala do rei. Outra preocupação que se deve ter nesse tipo de posição é a de manter o centro sob tensão, sem trocar nada, procurando sempre fazer com que o seu adversário, sem outra opção, favoreça-o com uma induzida distensão.

     18... Df8 19 Be3 Tad8 20 Dc1 Tc8 21 Cg5!?
    
A chinesa Xie sabe que pela ortodoxia soviética um cavalo adversário em cinco, no nosso campo, deve ser expulso ou tomado. Assim, ela "passa" (como se tivesse feito lance algum), desde que isso enfraqueça o roque adversário.

     21... h6 22 Cf3 a5
    
Era melhor cometer a distensão agora (uma hora, alguém terá de distender a tensão central, sendo que na maioria das vezes são as pretas que praticam, conscientemente, essa pequena concessão), com 22...exd4!? 23 cxd4 c5! E se, então, 24 d5, pelo menos as pretas estabeleceriam sua maioria na ala da dama (3x2) e, com ela, sua próxima e conseqüente meta de jogo.

     23 Cd2 exd4!? 24 cxd4 c5 25 d5 Ba6 26 f4! c4!?
    
Como se observa, ambos estão lendo o mesmo catecismo, ou seja, movimentam suas maiorias. A diferença é que as brancas estão melhor posicionadas para executar com sucesso esse plano, que é comum a ambos.

     27 bxc4! bxc4 28 Cf3!
    
Tal como ocorre em posições da Benoni, quando as pretas assumem uma formação serrilhada (peões em ...d6 e ...c5), também conhecida como "formação iugoslava", seu cuidado maior deve ser o de não permitir, incólume, o forte avanço branco e5, que corresponde, na quase totalidade das vezes, a uma catástrofe posicional.

     28... Cc5 29 e5!
    
Dizem os entendidos que esse avanço deve ser feito até quando ele não presta. Aqui, por exemplo, se 29...Cd3? 30 Bxd3 cxd3 31 exf6! Txc1 32 fxg7 Dxg7 33 Txc1 Db2 33 Bd4 Txe1+ 34 Txe1 Db5 35 Ce4 e as brancas estariam ganhas (+-1.46 / Junior 6.0).

     29... Cfd7 30 e6!?
    
Uma pergunta: será que vocês perceberam por que é que essa "inocente chinesinha" cometeu aquela falsa extemporaneidade de jogar 21 Cg5 e 22 Cf3?! Isso mesmo, foi para enfraquecer o ponto g6 – como fica evidenciado agora.

     30... Cf6
    
Segundo análises posteriores, na calma dos gabinetes e sem o matraquear do "dieux sinistre", concluíram que era melhor 30...fxe6 31 Bxg6 Cd3 32 Bxd3 cxd3 33 Da3 exd5 34 Dxa5 Bc4 35 Ch5 Ta8 36 Da7 Te7, com equilíbrio (0.3 / Fritz 6.0).

     31 Bxc5 Txc5 32 De3!
    
A ameaça é simples: 33 e7!, ganhando material. Nesta posição, o Fritz oferece como melhor opção para as pretas 32...Tec8 33 f5 Cxd5 34 Txd5! Txd5 35 fxg6 fxg6 36 e7 Df7 37 e8=D++ Txe8 38 Dxe8+ e as pretas teriam pela peça perdida uma suspeita compensação de dois peões unidos no centro e o seu inoperante par de bispos; outra chance seria 32...De7 33 f5 Txd5 34 Txd5 Cxd5 35 exf7+ Rxf7 36 fxg6+ Rf8 (36...Rg8? 37 Dd2 Da7+ 38 Ra2 Cc7 39 Cf5! Txe1 40 Dxe1 +-3.56 / Fritz) 37 Df2 Df6 38 Txe8+ Rxe8 39 Da7! Bc8 40 Ce4, com posição ganhadora.

     32... Rh8 33 e7! Dg8 34 Ba4! Txd5
    
Se 34…Bb5 35 Dxc5! Bxa4 (35…dxc5 36 Bxb5 c3 37 d6+-) 36 Dxd6 Bxd1 37 Txd1 c3 38 Ce5 Rh7 39 Cc6 Tc8 40 Dd8, ganhando.

     35 Bxe8 Dxe8 36 Db6! Bb5
    
O erro final numa posição já comprometida. Um prolongamento agônico podia ser 36...Txd1 37 Txd1 Bb5 38 Dxa5 Rh7 39 Dd8 Cg8 40 Dxe8 Bxe8 41 Ce4, liquidando tudo.

     37 Txd5!, 1-0.
    
Depois de 37...Cxd5 38 Dxb5! E as pretas não teriam mais por que continuar.

 


Solução  578
A
(P. Heuacher, Deutsche Schachblatter, 1938) 1 Dh6!! Tf8+ 2 Rc7 Txb8 (2...Tf7+ 3 Rb6!; 2...Tc8+ 3 Txc8+-) 3 Dc1+ Tb1 4 Dc3+ Tb2 5 Dd4! Rb1 6 Dd1++.
B
(P. Bobrov, Shahmatny obosrenie, 1893) 1 Rg3! (zug) 1...f5 2 Dh8+ Rg6 3 Ce5+++; 1...Rg6 2 Dg8+ Rf5 3 Cd6++.

 

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