: : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :   CRÔNICAS    : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :
 

  FIDE WCC 2000 - 3
 

 

 

 Dos quatro semifinalistas do Campeonato Mundial da FIDE que se celebra em Nova Delhi, na India, apenas Alexander Grischuk (31.10.83 Rússia 2.606) não era um dos pre-classificados para começar jogando a partir da segunda rodada.

     Ele permaneceu invicto durante 18 partidas (Lima/4, Smirin/4, Serper/2, Ehlvest/4 e Tkachiev/4) e somente agora, jogando essa semifinal contra o GM-A espanhol Alexey Shirov ele conheceu o amargo sabor da derrota.

     Na outra semifinal, o favorito GM-A indiano Viswanathan Anand vencia um dos mais credenciados pretendentes ao trono de campeão da FIDE, GM-A inglês Michael Adams.

     Em nossa seção ‘‘Young Masters 2000’’ (DIÁRIO POPULAR, 10.06.2000) alertávamos então para o surgimento desse fenômeno chamado Grischuk: ‘‘É a maior e mais consistente revelação do xadrez magistral nesta última década’’.

    Este ano, ele disputou (e perdeu) na última rodada com o GM isrealense Ilia Smirin a primeira colocação do US Open. Em seguida, venceu categoricamente o Young Masters à frente de Ponomariov, Galkin e Bu, entre outros.

     Dos 96 eliminados desse WCC, anotamos Morozevich, Leko, Ivanchuk, Topalov, Krasenkov, Bareev, Svidler, Gelfand, Short, Smirin, Dreev e o atual campeão da FIDE, Alexander Khalifman. E Grischuk, 17 anos, semifinalista desse mundial, pode ser incluído desde já como um dos grandes nomes do topboard internacional para o próximo milênio.

     A final em Teerã, no Irã (dezembro, 20-27) defrontará Anand x Shirov num match em seis partidas.


V. ANAND (2.762) x (2.755) M. ADAMS (Semifinais, 6.2, Fide WCC-Ko. Nova Delhi, 13.12.00 — Espanhola, C 78) 
1 e4 e5 2 Cf3 Cc6 3 Bb5 a6 4 Ba4 Cf6 5 0-0 Bc5 6 c3 b5 7 Bc2 d6 8 a4 Bg4 9 h3 Bh5 10 d3 0-0 11 Cbd2 b4 12 a5! Tb8 13 g4! N Bg6 14 Cc4 bxc3 15 bxc3 Dc8 16 Ba4 Ca7 17 Be3! Bxe3 18 Cxe3 c6 19 Dd2 Dc7 20 c4 c5?
(segundo Shipov, ‘‘um tremendo erro estratégico; era melhor 20... Cd7 21 Ch4 Cc5 22 f4 exf4 23 Ceg2 d5!, com excelente contrajogo’’) 21 Ch4 Rh8 22 g5 Ch5 23 Cd5 Dd8 24 Tfb1 Cf4 25 Cxf4 Dxg5+ 26 Chg2 exf4 27 Tb6 Tbd8 28 Dxf4 De7 29 Tab1 Cc8 30 Tb7 De6 31 Dg5! h6 32 Dg3 Df6 33 Cf4 Ce7 34 Rg2! Cg8 35 Cd5 De6 36 Bd1, 1-0. (segundo Shipov, ‘‘um tremendo erro estratégico; era melhor 20... Cd7 21 Ch4 Cc5 22 f4 exf4 23 Ceg2 d5!, com excelente contrajogo’’) 21 Ch4 Rh8 22 g5 Ch5 23 Cd5 Dd8 24 Tfb1 Cf4 25 Cxf4 Dxg5+ 26 Chg2 exf4 27 Tb6 Tbd8 28 Dxf4 De7 29 Tab1 Cc8 30 Tb7 De6 31 Dg5! h6 32 Dg3 Df6 33 Cf4 Ce7 34 Rg2! Cg8 35 Cd5 De6 36 Bd1, 1-0. (segundo Shipov, ‘‘um tremendo erro estratégico; era melhor 20... Cd7 21 Ch4 Cc5 22 f4 exf4 23 Ceg2 d5!, com excelente contrajogo’’) 21 Ch4 Rh8 22 g5 Ch5 23 Cd5 Dd8 24 Tfb1 Cf4 25 Cxf4 Dxg5+ 26 Chg2 exf4 27 Tb6 Tbd8 28 Dxf4 De7 29 Tab1 Cc8 30 Tb7 De6 31 Dg5! h6 32 Dg3 Df6 33 Cf4 Ce7 34 Rg2! Cg8 35 Cd5 De6 36 Bd1, 1-0.  

A. SHIROV (2.746) x (2.606) A. GRISCHUK (Semifinais, 6.3, Fide WCC-Ko. Nova Delhi, 14.12.00 — Espanhola, C 96) 
1 e4 e5 2 Cf3 Cc6 3 Bb5 a6 4 Ba4 Cf6 5 0-0 Be7 6 Te1 b5 7 Bb3 d6 8 c3 0-0 9 h3 Ca5 10 Bc2 c5 11 d4 Bb7 12 d5 Cc4 13 a4 Cb6 14 De2 Cxa4 15 Bxa4 bxa4 16 c4 Cd7 17 Txa4 Cb6 18 Ta3 a5 19 Cc3 a4 20 Be3 Bc8 21 b3 axb3 22 Txb3 Ta6 23 Teb1 f5 24 Bxc5! dxc5 25 Cxe5 Ca4 26 Cxa4 Txa4 27 Cc6 Dc7 28 e5! Ta6 29 Df3 f4 30 Te1 Bf5 31 Tb5 Bc2 32 Tb2 Bg6 33 Td2 Be8 34 Cxe7+ Dxe7 35 d6 De6 36 Db7! Bc6 37 Dxa6 Bxg2! 38 f3! Bxf3 39 Rh2 Bg4! 40 Db7 Dh6 41 Dd5+ Tf7 42 Rg1 Dxh3 43 Dg2 Dh4 44 Tf2 f3 45 e6! Tf8 46 e7! Te8 47 d7! Bxd7 48 Dxf3 Dg5+ 49 Rf1, 1-0.
(uma partida excepcional, num ritmo alucinante. Um verdadeiro hino a essa maravilhosa loucura que alenta os jogadores de ataque.)


A.SHIROV (2.746) x (2.606) A. GRISCHUK (Semifinais, 6.1, Fide WCC-Ko. Nova Delhi, 12.12.00 -- Espanhola, C 65)

1 e4 e5 2 Cf3 Cc6 3 Bb5 Cf6 4 0-0 Bc5
O mais seguro e comum é 4...Cxe4, levando a luta para um rápido esvaziamento e consequente nulidade, como ocorreu por quatro vezes no recente match Kasparov-Kramnik, WCC Braingames 2000. O lance 4...Bc5 caracteriza a Variante Beverwijk, mercê de sua utilização pelo GM belga A. O'Kelly em torneio naquela cidade holandesa em 1946.

5 Cxe5!
É possível que Alexander esperasse 5 c3 0-0 6 d4 Bb6 7 Bg5 h6 8 Bh4 d6 9 Dd3 De7 10 Cbd2 Cb8 11 Tfe1 c6 12 Ba4! (aqui, o próprio Alex preferiu 12 Bc4 Cbd7 13 Bb3 Td8 14 a4 Cf8?! 15 a5! Bc7 16 a6!+/- e as brancas se impuseram, 1-0 in 52. Grischuk-Lima, 34ª Ol. Istambul, 2000) 12...Cbd7 13 Cc4 Bc7 14 Ce3 Te8 15 Cf5 Df8 16 Tad1+/- e as brancas venceram, 1-0 in 41. Shirov-Leko, Frankfurt 2000.

5... Cxe4!? 6 De2 Cxe5 7 d4 Be7 8 Dxe4
Ou então, 8 dxe5 Cc5 9 Bf4 0-0 10 Cc3 c6 11 Bd3 Cxd3 12 Dxd3 f6 13 Dg3 e aqui, covardemente, ambos concordaram com o empate.Ivanchuk-Leko, Linares 1999.

8... Cg6 9 f4! N
Há pouco, aconteceu 9 c4 0-0 10 Cc3 c6 11 Ba4 f5 12 Df3 d6! 13 Bc2 Bg5 14 Te1 Bd7 15 Dh5? Vf4! 16 Dd1 Df6!-/+ com superioridade, 0-1 in 29. Vasquez-De la Paz, Mem. Capablanca II, Varadero 2000.

9... c6 10 Bd3 d5 11 De2 f5
A novidade de Shirov baseava-se nesse necessário enfraquecimento da casa e5. E enquanto o seu cavalo com três saltos pode chegar naquele ponto, o cavalo preto terá de se transformar num balancê-de-roi para chegar à casa e4, e mesmo assim fracassará.

12 Cd2 0-0 13 Cf3 Ch8 14 Bd2 a5
Buracos no campo adversário (e5/e4) só podem ser explorados pelos cavalos, que (às vezes...)  conseguem saltar obstáculos. E se as brancas pudessem trocar seu bispo de casas pretas pelo cavalo adversário, as pretas estariam praticamente perdidas.

15 c4 Cf7 16 cxd5 cxd5 17 Tac1 Bf6
Não servia a pressa de jogar 17...Cd6?, em vista de 18 Tc5! Ce4? 19 Txd5!, ganhando.

18 b4! a4 19 b5 Te8!? 20 Ce5 Cd6 21 Bb4 Ce4
A flagrante vantagem de espaço à disposição das brancas será magistralmente explorada por Alexey. E mais, os sarados da escola soviética sabem que cavalo adversário dentro de seu campo deve ser eliminado de imediato.

22 Bxe4!
Olé! Shirov naturalizou-se espanhol e hoje em dia pode até gostar de touradas e bater castanholas, que ele sempre se denunciará por sua excelsa formação soviética...

22... dxe4?..
Um erro do inexperiente Alexander, porquanto lhe faltará um "tempo" exato para dominar a casa d5, que lhe garantiria pelo menos o empate. Assim, era imperioso jogar 22...fxe4 23 Tc3 Bd7 24 Tfc1 Tc8!, com uma posição sustentável.

23 Tfd1! Be6 24 d5!!
Aí está o pontaço que estabelece uma vantagem definitiva para as brancas. Alexander ainda dispunha da aliviadora recomendação do Junior-6.0, 24...Tc8! 25 Txc8 (se 25 dxe6 Txc1 26 Txc1 Dd4+ 27 Rh1 Dxb4 28 Dh5 g6! 29 Cxg6 Db2 30 Td1 Dxa2, com igualdade) 25... Bxc8 26 Cc4, mantendo a superioridade, mas longe ainda de uma definição. E, é claro, se 24...Bxd5 25 Tc5, ganhando.

24... Bd7 25 Cc6! Dc8
Uma posição sob medida para as fantasias de Shirov. Não servia 25...bxc6 26 dxc6 e não seria possível impedir a entrada triunfal de um peão na sétima. E se 25...Bxc6 26 dxc6 Dc7 27 Bd6 Df7 28 c7 b6 29 Tc6+-. De qualquer modo, a engenhosa idéia de Grischuk de entregar a dama revela bem a sua notável compreensão do jogo e o seu afiado espírito belicoso, pois só assim ele ainda conservaria as chances de lutar por uma difícil igualdade.

26 Ce7+ Bxe7 27 Txc8 Taxc8 28 Bxe7 Txe7 29 d6!
A maior chance de vitória era exatamente essa, transformar esse peão numa ameaça tão perigosa que ele obrigue uma peça contrária na detenção de seu avanço e, assim, passe a ter o valor dessa peça.

29... Tf7 30 Td5 Tc1+ 31 Rf2 Tf8 32 Te5!
A idéia é forçar o avanço do peão. Para impedi-lo, as pretas teriam de jogar passivamente ...Td8, quando então se acentuaria a vantagem material das brancas.

32... Tfc8 33 Te7!!
Esse lance profundo e definitivo é equivalente a um duplo salto mortal no trapézio sem nenuma rede de proteção. O cálculo deve ser perfeito, pois uma mínima fissura nessa combinação de mais de dez lances que vamos ver a seguir e as brancas deixarão de vencer a partida.

33... T1c2 34 Txd7 Txe2+ 35 Rxe2 b6
Não obstante a absoluta igualdade material, as pretas estão posicionalmente perdidas. Em finais de torre, um rei ativo ou uma cortante torre na sétima ou mesmo um simples peão passado dispensam a vantagem material que muitas vezes é insuficiente para a consecução do ponto. Aqui, por exemplo, indiferente ao equilíbrio de forças, o Junior sugere o lance da partida e afere um índice vantajoso para as brancas de apenas +0.65.

36 Tb7! Tc2+ 37 Re3! Tc3+ 38 Rd4! Td3+ 39 Re5 e3 40 Re6! h6
Não servia 40...g5 41 Txb6 (ameaçando 42 Rf6!) 41...Rg7 42 Tb7+ Rg6 43 Te7 e2 44 Rd7! Td2 45 b6! Tb2 46 Re8!!, ganhando.

41 Te7! Td4 42 Rd7!!
Um lance de problema, arrematando com fecho de ouro a combinação iniciada no 33º lance. Agora, se 42...Td3 43 Rc7! Rf8 44 Te5!+- (+3.16). A manobra vencedora das brancas é infiltrar seu rei de vantagem através d7/c7, com a constante ameaça de avançar d7 ou tomar b6, criando um outro peão passado. Para tanto, é mister que a torre permaneça na coluna-e, vigiando o avanço do peão adversário.

42... Te4 43 Txe4 fxe4 44 Re7!, 1-0. 
Depois de 44...e2 45 d7 e1=D 46 d8=D+ Rh7 47 Rf7! h5 48 Dg8+ Rh6 49 Dxg7#.


 

Uma verdade se depreende desse final: Alexander Grischuk (31.10.83), mercê de sua pouco idade, não devia conhecer o seguinte estudo do norte-americano N. Elkies, composto em 1984, merecedor de uma Menção Honrosa:


 

Solução:
1 Cd7+! Re8!
Se 1...Re7? 2 Cb6! f2 3 Cxd5+ Rd7 4 Ce3, ganhando; e se 1...Rg8? 2 a6! e as brancas coroam com mate.
2 Cf6+! gxf6 
É claro que se 2...Rd8 3 Cxd5 f2 4 Ce3 e ganham.
3 Re6!! Rf8
As brancas ameaçavam 4 g7 e 5 g8=D#.
4 a6 f2 5 a7 f1=D 6 a8=D+ Rg7 


E agora, quando tudo parece satisfatório para as pretas, surge a bomba, o mesmo gatilho utilizado por Shirov para xequematar seu adversário.
7 Dh8+!! Rxg6
Se 7...Rxh8, a conclusão seria igual: 8 Rf7! e a dama preta, sem xeques para dar, não pode socorrer seu consorte, 8...Db1!? 9 g7+ Rh7 10 g8=D+ Rh6 11 Dg7#.
8 Dg8+ Rh6 9 Rf7! Db1 10 Dg7#.

Ou como não dizia Lavoisier: em xadrez, alguém repete o que alguém já fez...   

 
 

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