: : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :   CRÔNICAS    : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :
 

  Kramnik x Leko - 2
 

 

 

     Há filmes que marcam indelevelmente nossa memória fotográfica. Num deles em especial, estrelado por Paul Newman no papel de xerife, satirizando a lenda pouco heróica do antigo faroeste norte-americano, há uma cena antológica: o anunciado e temerário bandido (magro, caolho, desajeitado, bigodinho ralo, 1m60 de altura, se tanto) entra na cidade montando um pangaré manco e indolente. Apeia diante da loja do ferreiro num gesto de humanitária aparência. Este e o seu ajudante, mudos, apenas observam a cena com um ar de incredulidade e mofa. 
     — Arre! Que fome...
     Saca do seu Colt 45 e dispara duas vezes na cabeça de seu próprio cavalo, que desaba pesadamente. Vira-se para o ferreiro:
     — Esse aí você faz mal passado, bastante cebola e pimenta. 
     A cara de espanto do ferreiro nem lhe permitia argumentar que o seu ofício era outro. 
      — E você aí, seu Cara de Felicidade...
       Agora, ele se dirigia ao ajudante do ferreiro. E antes de completar a sentença, arrancou com um tiro o dedão do pé direito daquele infeliz serviçal, que agarrado a um mourão se contorcia em dores.
     -- Vá chamar o xerife, que eu quero matá-lo!
     O ajudante de ferreiro, numa atitude desastrada, ainda se lamuriou, argumentando aos berros:
      — Olha aí, o senhor me deixou manco. 
     O bandido não pensou um segundo sequer para, com outro tiro certeiro, pum!, arrancar-lhe o dedão que ainda lhe restava no pé esquerdo, equilibrando assim sua perversidade. 
      — Tá vendo?! Nada, que o entendimento não resolva... 


     Agora, em Budapeste, o campeão mundial BGN Vladimir Kramnik também demonstrou claramente a essência que alimenta sua alma. Com o match empatado em 4 a 4, ele venceu brilhantemente a nona partida — http://www.bccafe.com.br/kraleko1.htm Na décima, na posição  ele continuou com 94...a3, querendo ganhar a todo custo (esse foi o tiro no cavalo). 
      Será que ele não sabe que depois de 94...a3, mesmo que as brancas não tivessem esse peão em b2, a posição é de empate absoluto?! 
 

  A partida seguiu até o lance 133, sendo que no lance 123  seguiu 123 Ra5 Tb1 124 Ra4 Tb8 125 Ra5 Rd4 126 Ra4 Rc5 127 Ra3 Rd4 128 Ra2 Rc3 129 Be6 Tb6 130 Bf7 Tb7 131 Be6 Tb5 132 Bf7 Tb8 133 Be6 Tb6 — tempo, 0-1 (esse foi o tiro no ajudante). 
    Com um campeão assim, quem precisa de presidentes de moral ilibada? 
Na última rodada (11/12), dois empates estabeleceram o escore final de 7 a 5 para Kramnik, que deveria se sentir bem à vontade jogando os deprimentes torneios relâmpagos de certos clubes de xadrez.   

     Brancas: Rei, Torre e Peão; Pretas: Rei e Bispo. Quem, com as pretas, se atreveria a continuar lutando? No entanto, há inúmeras e incríveis posições de empate em diagramas assim, constituindo-se por isso num dos mais instigantes estudos desse maravilhoso, complexo e desconhecido mundo dos finais de torre.
    Antes, devemos ter sempre em mente uma regra básica dos finais simples de torre x bispo (sem peão): o rei do bando inferiorizado, quando acantoado, deve colocar-se num ângulo do tabuleiro de cor diferente da de seu bispo, senão a derrota será inevitável.
 
     Nessa posição, a vitória é fácil: 1 Td7 Bc5 2 Td8+ Bf8 3 Ta8 Rh8 4 Txf8#. Notem que se as pretas estivessem com o rei em h8 e o seu bispo fosse de casas brancas (...Bg8), então as brancas não disporiam do "tempo" 3 Ta8, porquanto a posição resultaria pat (quando não há lances possíveis para se fazer, resultando no empate por afogamento).
    
Sabendo disso, fica fácil de resolver o estudo da famosa dupla Kling e Horwitz (1851)
 Brancas jogam e ganham:

     1 g7+!
     As brancas não fazem a menor cerimônia em entregar seu precioso peão, desde que consigam explorar a posição perdedora do rei preto em h8.

     1... Rh7
     É claro que se 1...Bxg7 2 Rg6 e transparece a má posição do rei preto: 2...Bf8 3 Tb8 Rg8 4 Ta8! Rh8 5 Txf8#.

     2 Tf7!! Bd4
     Outra vez, se 2...Bxg7 3 Rg5 Rg8 4 Rg6, ganhando.

     3 g8=D+! Rxg8 4 Rg6+-
    
E as pretas não podem escapar da ganhadora manobra citada anteriormente. Observem que a chave, 2 Tf7!!, impede que o rei preto escape de seu defeituoso acantoamento em g8-h8.
    
Quando os peões não são laterais (a ou h), encontramos vários exemplos de nulidade, merecendo destaque alguns interessantes estudos do GM húngaro/norte-americano Pal Benko, publicados nos anos 70.
     No seu incomparável livro Finais Básicos de Xadrez, um dos maiores jogadores do século passado e excepcional didata Ruben Fine nos alerta a respeito desses finais (Torre/Peão x Bispo), registrando que "como é fácil intuir, trata-se de um final ganho para o bando em superioridade, mas existem algumas posições especiais de empate que devem ser evitadas, além de algumas dificuldades imprevistas que podem surgir, especialmente em se tratando de peões laterais. As investigações de Phillidor, Lequesne, Centurini, Guretzky-Cornitz, Berger (e outros) praticamente reduziram esse final a um exercício matemático".
     Na 10ª partida do match (Leko-Kramnik), se as brancas não tivessem um peão em b2, estaríamos então diante de um dos exemplos específicos que queremos examinar. Mas não vamos nos deter com finais irremedíavelmente perdidos, ou seja, aqueles em que o peão coroa numa casa da mesma cor do bispo adversário.

     Na posição , as brancas já não têm como progredir, porquanto seu peão lateral avançou em demasia.
     1 h7 Bxh7 2 Rh6 Bg8 3 Rg6 Bd5! (3...Be6?? 4 Th7+ Rg8 5 Te7!+-) 4 Th7+ Rg8 5 Td7 Be4+, empate.
     A teoria estabelece que para se vencer esse tipo de final, é mister que o peão (a/h) tenha se movido no máximo até a quarta fileira (h4). Há exceções, como é o caso do estudo de Lequesne (1858)
, em que as brancas jogam e ganham:

     1 Tb7 Ba2 2 Tb8+ Bg8 3 Rg5! Rg7 4 Tb7+Rh8 (4...Rf8 ou 4...Bf7 5 h6 e 6 h7+-) 5 Rg6 Bd5 6 Th7+! Rg8 7 Te7! Rh8 (7...Rf8 8 Tg7! Be4+ 9 Rf6, seguido de 10 h6 e 11 h7+-) 8 h6! Ba2 9 h7! Bb1+ 10 Rh6, ganhando. É digno de nota que a manobra ganhadora, 7 Te7!, ameace mate, mas principalmente iniba o xeque de bispo em e4, que desestruturaria a rede de mate e frustraria assim o avanço triunfal do peão-h.
    
Estudando esse final comigo, um amigo (Pepe), que costumava esquematizar tudo, observou-me que se o peão estiver na quinta fileira, o rei preto deve procurar sempre uma assimetria com o rei adversário. Se o rei branco estiver em h6, o rei preto deve estar em f8 (!); e se o rei branco estiver em f6, o rei preto deve estar em h8 (!).
     Assim, conhecendo o exemplo anterior, encontramos a perigosa posição do
 , em que as brancas jogam, mas não conseguem ganhar:

     1 Tb7 Bc2 2 Rg5 Bd3 3 Rh6 Rg8!!
     Fugindo à sequência do exemplo anterior.

     4 Tg7+ Rf8!
     
De nada adiantaria ter jogado 4 Tb8+ (ao invés de 4 Tg7+) 4...Rf7 5 Tb6 Bc2 6 Rg6, por que, diferente do jogo de Damas, o bispo não é obrigado a capturar a torre de g6. Exemplo: 6...Bd3 7 Rh7 Bc2 8 Rh6 Bd3 9 Rg5 -- aí, sim, 9...Bxg6, empatando.
    
Depois de 4...Rf8!, segundo o grande teórico francês André Chéron, as brancas não podem mais ganhar, não obstante a expulsão do rei preto da coluna-g. O rei branco, por causa de seu próprio peão, estará impedido de ir à casa h5 e, assim, executar a manobra estândar e ganhadora desse final.

     Vejamos, então, o fundamental estudo de Guretzky-Cornitz (1863) , em que as brancas, com o peão em h4, ganham impreterivelmente.

     Na posição do diagrama-6, se as brancas conseguissem levar seu rei até f6 sem permitir que o rei preto voltasse a se acantoar em g8 ou h8, então a partida estaria liquidada com o impune avanço do peão de h. No entanto, essa manobra se torna mais difícil e até impossível, se o peão-h estiver avançado precipitadamente para além da quarta fileira (h5).

      1 Tg5 Rf7!
    
De acordo com Chéron, a idéia é jogar 2 Rh5 e 3 Rg4, atingindo a posição que mencionamos antes. Não servia 1...Bd3 2 Rh5 Be2+ 3 Rg6 Rg8 (forçado) 4 Td5! (se o bispo estivesse em d1, então, 4 Tc5! Bg4 5 Td5!, ganhando) e as brancas estão ganhas.

     2 Tg3 Bc2
     O bispo só dispõe agora das casas b1 e c2 (prestem atenção nesse detalhe, pois vamos encontrá-lo outra vez ao final desse estudo), posto que lhes estão proibidas as casas Bd3 (Txd3), Be4 (Rg5!) e Bf5 (Tf3).

     3 Rh5!
     
Se 3 Rg5 Rg7! 4 Tc3 Bb1 5 Tc7+ e aqui, grosso modo, se evidencia a teoria pepeana: 5...Rg8!, esperando 6 Rf6 para escapar com 6...Rh8 oi, então, 6 Rh6 para jogar 6...Rf8!

     3... Rf6
    
Nem adianta procurar algo melhor, que não há. Exemplo, se 3...Bb1 ou 3...Bh7, então, depois de 4 Tg5, o rei branco, a salvo de xeque, escorrega para a coluna-f (Rg4-Rf4); e sem que o rei preto consiga voltar para as colunas g ou h, as brancas terão se assegurado a ideal posição ganhadora.
    
A outra opção seria 3...Bd1+ 4 Rg5 Tg7 (observem que agora o bispo já não domina a fundamental diagonal b1-h7) 5 Tc3!!! Be2 -- é incrível, mas o bispo ficou completamente fora de jogo e as pretas devem fazer malabarismos, inúteis malabarismos, para revitalizar sua atuação:-- 6 h5 Bf1 7 h6+ Rh7 8 Tc1+ Rh8 9 h7 Bd3 10 Rh6, ganhando, como no estudo de Lequesne.

     4 Tg5 Bd1+
     Forçado, do contrário 5 Rg4 e 6 Rf4+-.

     5 Rh6 Rf7
    
Forçado, também, senão 6 Tg1 (ou Tg2 ou Tg3, ameaçando o bispo) e 7 Tf1+, afastando definitivamente o rei preto da zona de jogo. Vejam, 5...Be2 6 Tg2 Bd3 7 Tf2+ Bf5? 8 h5! Re6 9 Txf5! Rxf5 10 Rg7, ganhando.

     6 Tg7+ Rf6
    
Não era melhor 6...Rf8 7 Rg6! (isso não seria possível, se o bispo estivesse na diagonal b1-h7) 7...Bh5+ 8 Rf6 Bf3 9 Tg5 Bd1 10 h5 Bc2 11 h6  Bh7 12 Tg7 Bb1 13 h7, ganhando.

     7 Tg1 Be2 8 Tg2 Bd3 9 Tf2+ Re7
    
Como já analisamos, se 9...Bf5 10 h5, seguido de 11 Txf5+- e o peão-h coroa.

     10 Rg7 e a luta chegou ao fim, 1-0.

     No Torneio Hoogovens B, Wijk aan Zee 1999, na partida R. LEITÃO (2.545) x (2.445) R. JANSSEN, vamos encontrar a seguinte posição do , correspondente ao lance 67  Ra1. Seguiu:

     67...a5 68 Bb1 Tg2 69 Bd3 Th2 70 Bb1 Td2 71 Bf5 Ta2+ 72 Rb1 Tf2 73 Be4 Te2?
    
Por esse lance, percebe-se que o jogador das pretas tateia na escuridão, senão ele jogaria 73...Tf1+ 74 Rc2 Tf4! 75 Bd3 Tb4 e já estaria cumprida uma das etapas que conduzem à vitória o bando em vantagem.

     74 Bg6 Te1+ 75 Rc2 Te6! 76 Bf7 Tb6! 77 Bd5??
    
Agora, é a vez do jogador das brancas confessar que também desconhecia o mecanismo desse tipo de final. Como alertamos antes, o bispo dispõe tão somente das casas f7 e g8. O lance do texto (77 Bd5??) permite o imediatamente ganhador 77...Rb4!, pois se 78 Bb3 a4! 79 Ba2 Rc5! 80 Bf7 a3! 81 Bg8 Tb2+ e aqui, se 82 Rc1 Rd4/Rc3 e a2 ou 82 Rc3 Th2, seguido de 83...a2, ganhando. Outro detalhe, depois de 77...Rb4!, se 78 Rb2? Rc5+! 79 Bb3 a4 e ganham.

     77... Tb5? 78 Bf7 Tb2+ 79 Rc1 
    
Eu acho que já vi essa posição em algum lugar. Onde terá sido? Ah! Lá está, no diagrama-6, estudo de Guretzky-Cornitz detalhando o vitorioso procedimento que deve adotar o bando em vantagem.

     79... Tf2? 80 Be6 Rb4 81 Rb1 Rc3
    
Janssen pressente que está ganho, só não sabe como. Aqui, ele fica provando vários figurinos, para ver o que lhe assenta melhor, mas numa demonstração cabal de que não entende bulhufas do final que está jogando.

     82 Ra1!
    
Exatamente como Pepe jogaria, ou seja, Rc3 = Ra1 ou Ra3 = Rc1. Observem que depois do último movimento de peão, 67...a5, as pretas dispõem de 50 lances para encontrar a senda vitoriosa. Debalde, se ele não for do ramo, nem com 500 lances pressentirá o caminho das pedras.

     82... Tf4 83 Bd5 Rc2 84 Be6 Ta4+ 85 Ba2 Rc3 86 Rb1 Ta3?
    
Continuando assim, daqui a pouco as brancas é que lamentarão ter de aceitar o resultado de empate.

     87 Be6 Ta4 88 Ba2 Te4 89 Bf7 Tf4 90 Bd5 Tf5
    
Como se vê, Kramnik não foi sequer original com aquela inócua perseguição de torre ameaçando bispo: Janssen ja o precedera nessa extemporaneidade.

     91 Be6 Tf6 92 Bd5 Rb4 93 Rb2 Tf2+ 94 Rb1 Te2?
   
  Isso não é lance, é palpite.

     95 Bf7 Ra3 96 Bd5 Tb2+ 97 Rc1
    
Agora, sim, mais fiel do que no lance 79 Rc1, está posição é exatamente igual à do estudo de Guretzky-Cornitz, mudando apenas a cor das peças.

     97...Th2? 98 Rb1 Rb4 99 Be6 Ra3 100 Bd5 Tb2+ 101 Rc1
     Pela terceira vez, Janssen dispõe da posição ganhadora, mas desconhecendo o mecanismo que o levaria à vitória, isso não tem a menor importância.

     101...Tb5! 102 Bf7 Tb2? 103 Bd5 a4??
    
Esse lance liquida com as suas próprias chances de vitória. Ainda assim, o leitor deverá ter sempre em mente o estudo de Lequesne, vitorioso para as brancas se nessa posição o rei branco estivesse em a1.

      104 Be6 Tb3 105 Bf7 Ra2 106 Rc2 Ra3 107 Rc1 Tc3+ 108 Rb1 Tc7 109 Be6 Te7 110 Bd5 Te1+ 111 Rc2 Rb4 112 Rb2 a3+ 113 Ra2 Te2+ 114 Ra1 Th2 115 Be6 a2 116 Bxa2 Ra3 117 Bb1, ½-½.

 

 

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