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  Biel - 2
 

 

 

  No torneio principal do Festival de Biel, na Suiça, realizado entre 25 de julho e 4 de agosto (2.361 pontos-ELO, Categoria 16), registramos como os mais expressivos destaques a arrasadora vitória de Svidler (vide quadro sinóptico) e a notável performance de Ponomariov, de 16 anos, demonstrando assim a consistência de sua ascensão. Ele foi o único a permanecer invicto diante de Svidler.

 

P. SVIDLER (2.689) x (2.643) L. VAN WELY (9ªrod. Biel, 03.08.00 — Siciliana, B 81)

    1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 d4 cxd4 4 Cxd4 Cf6 5 Cc3 a6 6 Be3 e6 7 g4 e5 8 Cf5 g6 9 Bg2!?
    Na prática magistral há certas posições que se repetem com uma implicância infantil, como se alguém quisesse provar a excelência de um ponto de vista, por mais suspeito que ele possa parecer. Na quarta rodada desse torneio, aconteceu 9 g5!? gxf5 10 exf5 d5 11 gxf6 d4 12 Bc4 Dc7 13 Dd3 dxe3 14 0-0-0 exf2 15 Bxf7+ Rxf7 16 Dd5+ Rxf6 17 Ce4+ Re7 18 f6+! Re8 19 f7+ Re7 20 Dd2! e agora, seguindo com 20...Dc6?, as pretas perderam rapidamente, depois de 21 Dg5+ Rxf7 22 Thf1! — partida Svidler-Gelfand, comentada aqui in 29.07.00. Naquela ocasião, assinalamos a recomendação do Fritz-6.0, garantindo uma considerável superioridade para as pretas com 20...Db6! Ainda assim, em extensíssimo arrazoado (17 lances, com direito a múltiplas subvariantes) o ótimo site do Califa garante a validade vitoriosa da variante de
Svidler (20 Dd2!). No entanto, nessa penúltima e decisiva partida do torneio, Loek sujeitou-se a jogar a tal variante inferior, mas Piotr prudentemente tergiversa e recusa essa duvidosa dádiva.

     9... d5!
      Não se recomenda a tomada imediata 9...gxf5 10 exf5, que só acentuaria a compensação das brancas, mercê de seu volumoso desenvolvimento.

     10 Bg5!? gxf5 11 Cxd5!
     Melhor do que 11 Bxf6 Dxf6 12 Cxd5 Dd6 13 exf5 Cc6 14 De2 h5 15 0-0-0 hxg4 16 Cb6 Cd4 17 Txd4 Dxd4 18 Cxa8 Bc5 19 Cc7+ Rf8 20 Cd5 Bxf5 e as pretas, com todas as suas peças desenvolvidas, até mereciam ganhar, 1/2-1/2 in 51. Ponomariov-Gelfand, primeira rodada também desse torneio. Como se observa, a única e possível indenização pelo sacrifício material das brancas estará no aflitivo e dificultoso desenvolvimento das peças contrárias.

     11... Be7
    À semelhança da variante
Lasker, B 33, Loek dispunha do interessante 11...Da5+ 12 Bd2 Dd8 13 Bg5 Da5+ e um empate com pretas diante de um condômino do olimpo caissano não seria mal. Na tabela de classificação, a diferença entre ambos era de 1 ponto e, quem sabe, o GM holandês quisesse mudar esse quadro de qualquer maneira. Ele conseguiu...

     12 Bxf6! Bxf6 13 exf5 h5
      Esse lance é padrão nessa posição, mas não é fácil aceitar uma continuação que resultará na abertura de linhas para o aproveitamento do adversário.

     14 h3 Bd7 15 Dd3!?
     
Havia um precedente: 15 De2 hxg4 16 hxg4 Txh1+ 17 Bxh1 Bc6 18 0-0-0 Bxd5 19 Bxd5 Bg5+, 1/2-1/2. Tolnai-Gavrikov, RFA 1989. Esse lance custou a Peter a bagatela de 40 minutos, o que faz dele, mesmo sendo bom, um lance ruim. Sua dúvida cruel devia consistir entre a contrição teatral (‘‘Pequei, me arrependo’’) ou o heroísmo cinematográfico (‘‘Seja o que Deus quiser!’’). Isto é, no primeiro caso, um desconto do material sacrificado, 15 Cxf6 Dxf6 16 Bxb7 Ta7, que seria um desastre; no segundo, adotando o lema ‘‘perdido por um, perdido por cem’’, o GM-A russo sacrifica um pouco mais, agora um peão, desde que consiga impedir a mobilização das peças adversárias.

     15... hxg4 16 0-0-0!
      Não interessava 16 hxg4 Txh1+ 17 Bxh1 Bc6 e as pretas respirariam. Até aqui, Peter fez o que lhe cabia; agora, resta esperar um pouco de colaboração de seu adversário, que por sinal não lhe faltará nessa hora difícil...

      16... gxh3 17 Txh3 Txh3 18 Dxh3
      E olha na mão de quem ficou a coluna que
Van Wely abriu...

     18... Bc6! 19 Dh7 Rf8??
      Aí está a cegueira comprometedora; era forçado jogar 19...Cd7! e agora, se 20 Dg8+ Cf8! 21 f4 Bxd5 22 Bxd5 De7-+; ou 20 f4!? Tc8 21 Dg8+ Cf8 22 Cxf6+ Dxf6 23 Te1 Tc7 e as pretas estariam ganhas, -1.44, segundo o Fritz-6.0. Pelo visto, nessa Siciliana B 81, cada variante ‘‘ganhadora’’ deve ser completamente descartada, mal terminada a partida.

     20 Be4 Bxd5
     As brancas ameaçavam o aterrador 21 Tg1; o rei preto, além de mal colocado em f8, tira do cavalo sua melhor casa de defesa. Agora, seria demasiado tarde para 20...Cd7 21 Cxf6 Dxf6 22 Bxc6!, ganhando.

     21 Bxd5 Dd7 22 Bf3! Dc7?!
    Por instinto, Loek recusa-se a entalar seu rei com o recomendável 22...De7! e então, depois de 23 Tg1 Re8! 24 Tg8+ Rd7 25 Bxb7 Ta7 26 Txb8 Rc7!, com uma posição superior.

     23 Tg1 Dc4?!
     O Fritz recomenda 23...Re7 24 Bh5 Rd6 25 Bxf7, mas ainda assim o desenvolvimento das pretas seria precário: 25...Cf6 26 Tg6! ou então, 25...Cd7 26 Td1+!, ganhando em ambos os casos.

     24 Bxb7! e4 25 Dg8+ Re7 26 Bxa8 Dxa2 27 Dxb8! Da1+ 28 Rd2 Dxg1
    
Uma sequência lógica, natural, parecendo desembocar num final empatado. No entanto, esse diagrama bem podia servir à propositura ‘‘as brancas jogam e ganham’’. O que segue é forçado, bonito, elegante, instrutivo.

     29 Db4+!!
     Se o rei escorregasse pelo ralo de f8, as pretas escapariam do cerco fatal.

     29... Rd7 30 Db7+ Rd8 31 Db6+ Re7 32 Dc5+!! Rd8
     32...Rd7 33 Bc6+ Rc7 34 Ba4+ Rb8 35 Dd6+, ganhando.

      33 Dd6+ Rc8 34 Dc6+!!, 1-0.

 
 

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