: : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :   CRÔNICAS    : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :
 

   "Afrouxem as cordas!..."
 

Tabuleiros de xadrez ou ringues de lona, palcos permanentes de uma luta apaixonada e selvagem
 

 

A - Br. jogam e ganham



B - Mate em 3 lances

 

      Há quase três anos, comentamos sobre a real e desmesurada paixão que o atual campeão mundial de boxe, Lennox Lewis, dedica ao xadrez. Não se trata de nada empírico ou fortuito, mas de uma dedicação alimentada com leitura especializada e todos os outros "incovenientes" que a Arte de Caíssa exige acompanhar torneios on-line via Internet, assinar revistas, jogar com relógio etc.

     Segundo a crônica especializada, parece que Lewis e seu aborrecido treinador, Emanuel Steward, entraram num acordo quanto ao tempo que o campeão dedica ao xadrez. A coisa foi tão séria que eles, por causa disso, quase chegaram a romper o contrato de trabalho que firmaram há algum tempo.

     Agora, quando Lewis entra no "crematório" para fazer luvas e perder algum peso, não pode levar sequer seu xadrez de bolso. Em compensação, findo o treino, Steward abstém-se de fazer qualquer comentário sobre a "falta de habilidade enxadrística" do campeão.

   "The Iron Man", Mike Tyson  Mês passado, dia 22, Lewis derrotou nosso considerado Mike Tyson, que outra coisa não era do que uma diluída sombra do que já fora, tentando amparar-se no mito que o fez famoso e que há muito o abandonara.

 Uma semana antes, na pesagem, Mike tentou agredir Lennox para desestabilizá-lo e criar uma rivalidade despropositada, mas incômoda. O campeão Lewis, cerebrino, enxadrista, entendeu tudo aquilo como uma desesperada tentativa de promoção de seu adversário e portou-se no ringue como se nada, absolutamente nada daquilo tivesse acontecido.

     Sábado passado, foi a vez de se mostrar ao público americano mais uma "esperança branca" do boxe internacional: Wladimir Klitschko (pronuncía-se Klíx-ko), nascido no Casaquistão (25.03.1976), criado na Ucrânia e residente em Hamburgo, na Alemanha. Com um cartel de 40 lutas (36 ko.), 39 vitórias e uma única derrota em seu extraordinário currículo esportivo, o sonho de Wladimir é enfrentar Lennox Lewis pelo título mundial. Detalhe: antes da luta, em pleno ringue, eles jogariam uma partida de xadrez!

     Realmente, seria uma promoção enxadrística extraordinária.

 Garry Kasparov, entre os irmãos Klitschko.    Nos cartazes promocionais dos Klitschko Brothers (Vitaly, seu irmão dois anos mais velho, também é um ótimo pugilista) eles aparecem abraçados com Garry Kasparov. E nesse dia 29 de junho último, após a vitória por nocaute de Wladimir sobre o ex-campeão Ray Mercer, o boxeador ucraniano fez questão de aparecer numa fotografia sendo parabenizado por Kasparov, numa enfática demonstração de seu apreço ao xadrez.

     Como nem tudo o que reluz é ouro, procuramos verificar a viabilidade técnica dos Klitschko Brothers e eis que encontramos em seu site uma partida em que ambos, em consulta, enfrentaram a campeã juvenil alemã, Elisabeth Pähtz, que jogava às cegas:

E. Pähtz x Klitschko Bro. (Simultânea em Leipzig, set/2001 – Owe, C 00).
1 e4 b6 2 d4 Ba6? 3 Bxa6 Cxa6 4 Cc3 Tb8? 5 Cf3 Cf6? 6 e5 Ch5?? 7 g4! Cf6 8 exf6 gxf6 9 De2 Bg7? 10 Dxa6 Dc8 11 De2 c5 12 dxc5 Dxc5 13 Ch4 d6 14 Cf5 Bf8 15 Bh6 Bxh6?? 16 Dxe7#.

 Garry Kasparov e Wladimir KlitschkoWladimir Klitschko cruza a direita em Ray Mercer - KO!     Diante desse fiasco, dessa indigência técnica, acredito mesmo que Wladimir (que tem nome de campeão... de xadrez), corra um sério risco ao desafiar Lennox para uma disputa enxadrística antes da luta pugilística. A indignação do jamaicano-inglês haverá de ser tanta que ele poderá estourar o "escutador de Scorpions" do ucraniano – não, por lhe ser superior em técnica, mas pelo atrevimento de Wladimir ao equiparar-se a ele enxadristicamente.

 Eder Jofre e família Zumbano    São raríssimos os casos, principalmente entre nós, de pugilistas atraídos pelo xadrez – exceção que se atribui ao venerando Waldemar Zumbano, homem de muita luz e vasta experiência. Mas ninguém pode se comparar ao meu saudoso amigo Abrão de Souza, que chegou a campeão sul-americano dos médios.

     Abrão era segurança de vários inferninhos em nossa capital, além de prestar serviços no Clube de Xadrez Independente, que ficava na Rua dos Guaianases. Nossas conversas sobre boxe varavam noites e madrugadas, quando ele saía do Independente para fazer sua "ronda diabólica", ou seja, por volta das duas ou três horas da manhã ele se mostrava nas casas da barra pesada "para ver se tudo ia bem como devia ser".

     Via-o muitas vezes, dez da noite, abraçando livros de aberturas da biblioteca do Independente. Mas eu desconfiava que ele pudesse fazer um uso adequado daquela leitura, embora aplaudisse intimamente esse seu empenho.

     Uma noite, não resistindo mais, ele se chegou a mim emocionado, com os olhos rasos d’água. E abriu-se numa confissão:

     - Mestre, pelo amor de Deus, eu preciso ferrar o velho Viera!

     E contou-me que todas as noites o querido presidente do clube (no caso, o velho Vieira) desancava-lhe o pau sem dó nem piedade, sem lhe deixar empatar uma partida sequer. E ainda jurava por todos os santos que seria capaz de qualquer coisa, se algum dia Abrão conseguisse ganhar uma partida dele.

     - Uma partidinha só... Para mim, é uma questão de vida e morte!

     Era difícil. Vieira jogava muito mais do que Abrão, além da experiência em torneios e um razoável conhecimento teórico. Perguntei a Abrão como era uma partida entre eles. E Abrão me contou que ele (Vieira) jogava uma determinada variante da Francesa e o fazia automaticamente: 1 e4 e6 2 d4 d5 3 Cc3 Cf6 4 Bg5 dxe4 5 Cxe4 Cbd7 6 Cf3 Be7 7 Cxf6+ Cxf6 8 Bd3 0-0 9 0-0 b6 e por aí seguia a partida, quando, por força de jogo, o velho Vieira vencia sempre.

     Nem é preciso dizer que cada lance era seguido de uma gozação, do tipo "dói muito ser capivara?" ou então, "apanhar acostuma?".

     Nesse caso, ótimo – expliquei para Abrão – precisamos "afrouxar as cordas": Quando chegar aqui, no nono lance (9 0-0), você joga 9 De2; e para o velho Vieira não desconfiar de nada, você finge que vai fazer o grande-roque. E observa com toda a ênfase possível:

     - Quero ver se dessa vez você agüenta o meu rocão!...

     E eu prossegui em minha instrução para o boquiaberto Abrão. "Aqui, o velho Vieira, de guarda baixa, vai jogar automaticamente 9...b6 (diagrama). E vai ser aí que você encaixa um direto terrível, definitivo: 10 Bxf6! Bxf6 11 De4!!, ameaçando mate em h7 ou a torre inteirinha em a8!".

     Dois dias depois, voltei ao Independente. Numa janela, Abrão exibia um sorriso cintilante que ia de orelha a orelha, peruando uma partida do velho Vieira, que levantou a cabeça para me acusar:

     - Você não sabe o que você aprontou: perdi meu capivara predileto, meu pato permanente. Não há no mundo quem o convença a jogar outra partida de xadrez comigo...O juiz interrompe o sofrimento de George Foreman contra Muhammad Ali no 8º assalto da luta no Zaire, em 1975. Anos mais tarde, "big" George diria que foi a maior surra que levou na vida.

     "Afrouxar as cordas" é um expediente que se adota quando o adversário nos é superior fisicamente; assim, com as cordas frouxas, pode-se suportar melhor o castigo infligido pelo adversário, até ele se cansar. Aí então, vem a reação vitoriosa, como aconteceu no 8º assalto da famosa luta Ali x Foreman, Zaire 1975.

     Sem nenhuma surpresa considerável, saiu a lista oficial de rating da Fide, válida a partida de 1º de julho:

     1. G. Kasparov (2838) 2. V. Kramnik (2807) 3. V. Anand (2755) 4. M. Adams (2752) 5. V. Topalov (2745) 6. R. Ponomariov (2743) 7. E. Bareev (272) 8. P. Leko (2717) 9. A. Morozevich (2716) 10. V. Ivanchuk (2711) 11. B. Gelfand (2710) 12. A. Grischuk (2702).

Até aqui, os atuais "setecentos" do xadrez magistral. Outros registros:

    13. A. Shirov (2697) 14. P. Svidler (2690) 15. A. Khalifman (2690) 16. V. Akopian (2689) 17. A. Karpov (2687) 18. N. Short (2682) 19. J. Polgar (2681) 20. I. Sokolov (2677) etc.

Partidas seleccionadas do 3º European Individual Chess Championship, realizado em Batumi, na Geórgia, entre 12 e 27 de junho deste ano.

V. Milov (2605) x V. Malakhatko (2ª rod. EICC, Batumi, 13.06.02 – Ortodoxa, D 31) 
1 d4 d5 2 c4 e6 3 Cc3 Be7 4 cxd4 exd5 5 Bf4 c6 6 e3 Bf5 7 Cge2 Bd6 8 Db3 b6 9 f3 Ce7 10 e4 Be6 11 Dd1 0-0 12 Dd2 dxe4 13 fxe4 f5 14 Bxd6 Dxd6 15 e5 Dd7 16 Cf4 Rh8 17 Be2 Bg8 18 h4 Td8 19 0-0-0 De8 20 h5 Cd7 21 De3 h6 22 g4 Cf8 23 g5 Rh7 24 gxh6 gxh6 25 Tdg1 Ce6 26 Bd3 Cg5 27 Txg5 hxg5 28 Ch3 g4 29 Cf2 Be6 30 Cxg4 Cg8 31 Ce4 Rh8 32 Cgf6 Df8 33 Cg5 Bxa2 34 Cxg8 Bxg8 35 h6 c5 36 h7 Bd5 37 e6 Bxh1 38 Cf7+ Rxh7 39 Dh3+, 1-0.


Soluções
645 A (Y. Afek, Sakkelet, 1997) 1 Bd6 h2 (1...Rg6? 2 h5+ Rf6 3 h6 Rxe6 4 h7 Bd4 5 Be5+-) 2 Rg2 Ce1+ 3 Rxh2! (2 Rh1 Cd3!! 3 e7 Cf2+ 4 Rxh2 Cg4+ Rg2 5 Cf6=) 3...Bxf4+ 4 Bxf4 Cf3+ 5 Rh1! (5 Rh3? Cxh4 6 e7 Cg6!=) 5...Rg6 6 h5+ Rf6 7 h6! Ch4 8 Bg5+!!+-.
B (J. Abbott, 777 Chess Miniatures, 1908)
B (J. Abbott, 777 Chess Miniatures, 1908) 1 Db7! (block) 1…Rf5 2 Dd5! Rf4 3 e6#.

 
 

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