: : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :   CRÔNICAS    : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :
 

   Os quatro cavaleiros do Apocalipse
 

Bóris Gulko enfrentou heroicamente quatro das mais fortes e insuperáveis
feras metálicas

 

 

A - Br. jogam e ganham



B - Mate em 3 lances

 

       Um interessante match em oito partidas defrontando homem x máquina foi promovido on-line pelo kasparovchess.com em harmonia com a ChessBase, representante comercial dos melhores softs de xadrez do mundo.

   Os patrocinadores do evento selecionaram os mais avançados programas da atualidade (Fritz, Junior, Shredder e Hiarcs) e convidaram o notável GM-A Bóris Gulko (09.02.47 EUA 2601), ex-campeão soviético e bicampeão norte-americano. Gulko enfrentava também a desvantagem de jogar num ritmo acelerado e, como confessou em entrevista posterior, a defasagem com relação aos atuais programas de xadrez.

     — Minha experiência contra computadores datava de 1990, irrelevante para os dias de hoje. Eu sei muito bem que o condicionamento para enfrentá-los deve ser diferente, específico. Eles me lembram esses rios que possuem uma incontrolável corrente interior, enquanto sua superfície permanece tranqüila, serena.

     Outro detalhe que talvez passe despercebido para muitos, mas que não escapou à perspicácia de Bóris, é o de que os softs de agora são muito diferentes entre si. Dessarte, uma preparação teórica e técnica contra o Fritz (“o alemão nervosinho”) não tem a mesma validade contra o Hiarcs (“o fleumático inglês”). Um tático, outro posicional — como se fossem seres (des)humanos. Só que em seu âmago, no lugar de apaixonadas veias, pulsam objetivos fios metálicos.

     A evolução do match em dois turnos entre Gulko e os Quatro Cavaleiros do Apocalipse anotava 1. Gulko x Fritz (0.5-1.5) 2. Gulko x Junior (1-1) 3. Gulko x Shredder (1-1) 4. Gulko x Hiarcs (0.5-1.5). Total: Gulko 3 x 5 Máquinas.

 Deep Shredder 6.0 (2706) x (2601) B. Gulko (4ª p. ChessBase match, 20.03.02 - Francesa, C 03)
1 d4 e6 2 e4
Shredder transforma a partida “peão-dama” numa “peão-rei”, exatamente como seu adversário queria. Qualquer jogador humano seguiria com 2 c4, sem se desviar de sua preparação teórica e sem fazer a vontade de seu oponente. Com a máquina é diferente: ela “pensa” logo em aproveitar o domínio do centro com essa formação 44 (d4 e e4), em especial se ela foi programada para reconhecer certas defesas, senão “defeituosas”, pelo menos “difíceis”. E não se pode esquecer a sentença de
Smyslov: “Quem joga a francesa, corteja a derrota”. Ainda assim, a francesa é considerada como “uma grande arma contra computadores, pois permite aos seres humanos atingir posições em que eles podem alardear a superioridade de sua compreensão estratégica, além de inibir as fantásticas demonstrações de habilidade tática de seu adversário eletrônico”.

2...d5 3 Cd2 b6

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Variante rara e estranha, mas que está de acordo com a filosofia de cumprimentar o adversário à distância, ou seja, nada de aperto de mão. Aliás, um dos esquemas defensivos mais em conta para se empregar contra computadores é o Camaleão, quando as pretas não jogam de imediato nenhum peão na quarta fileira, evitando de todos os modos qualquer atrito com o “monstro de silício”. E o Camaleão, vocês sabem, se constitui dos lances 1...g6, Bg7, b6, Bb7, d6, e6, Cd7, Ce7 e, dependendo da temperatura do tabuleiro, as pretas podem fazer o roquinho ou (...a6, c5, Dc7) o rocão. Tudo isso, é claro, acompanhado de fervorosas preces a São Judas Tadeu, que é o santo dos desesperados.

4 Cgf3 Cf6 5 Bd3!
Sem fechar a posição e mantendo intactas as chances táticas da posição. Na 2ª partida desse match, seguiu 5 e5 Cfd7 6 c4! Bb7 7 cxd5 Bxd5 8 Bc4 Be7 9 Bxd5 exd5 10 Cf1 Cf8 11 Ce3 Ce6 12 Da4+ c6 13 0-0 0-0 14 Cf5 Te8 15 Be3 com jogo preferível, 1-0 in 65. Fritz-Gulko.

5...c5
Um lance lógico, bom e... humano! Parece-nos mais sensato, honrando o compromisso de manter “um clima posicional”, a opção 5...Bb7 6 e5 Cfd7 7 0-0 c5! —- agora, que o centro está cerrado — 8 c3 Cc6 9 De2 Tc8 10 a3 Be7 11 b4 0-0 12 Te1 Te8 13 Cf1 Cf8 14 Be3 f6 e as pretas não estão nem melhores nem piores em relação à sua inferioridade de origem, 1-0 in 57. Fenoglio-Maderna, B. Aires 1931.

6 0-0 c4 7 Be2 dxe4 8 Cg5 Bb7
Após a partida, Bóris lamentou esse equívoco, posto que o melhor seria 8...Dxd4 9 Cdxe4 Dxd1 10 Txd1 Bb7 “e as pretas têm um peão de vantagem”. O meu Chess Tiger 14.0 vai um pouco mais adiante, 11 Cd6+ Bxd6 12 Txd6 Re7 13 Td4 b5 14 Bf4 Cc6 15 Bd6+ Re8 16 Tf4 h6 17 Cf3 com igualdade. Não se pode esquecer, porém, de que o ritmo dessa partida era rápido, com 60m a finish + 10 p/ lance executado para cada um dos duelistas.

9 Cxc4 Be7
Em suas análises, Bóris descartou 9...h6, temendo 10 Cxf7 Rxf7 11 Bh5+ “e eu tive medo disso”. Pura assombração, diz o Tiger: 11...Rg8 12 Ce5 Cxh5 13 Dxh5 Df6 14 Cg6 Th7 15 Cxf8 Rxf8 16 b3 Cc6! (-1.92), ganhando.

10 Ce5! 0-0 11 Bc4 Bd5 12 Be2
São lances assim, do tipo “quem sabe, ele não vê”, que nos fazem duvidar de certos programas. O Tiger prefere reforçar esse irremovível porta-estandarte de d4 com 12 c3!, como ocorrerá mais adiante.

12...h6?!
Formação é formação: Gulko é russo de nascença e os postulados da escola soviética não admitiam que alguém colocasse um cavalo desses na quinta fileira “fazendo” na sua cabeça; mas jogando contra um “setecentos” —- Shredder pesa 2706 pontos-ELO — normal seria “aceitar o empate” com 12...Bb7.

13 Cgxf7!
E olhem que o Shredder, insuperável finalista, é um dos programas mais sovinas que eu conheço. Uma de suas versões anteriores, 5.32, analisando famoso final de Rei e dois Cavalos contra Rei e Peão, enriquecido com uma profusão de elucidativos estudos de Troitzky e exaustivamente analisado por Botvinnik, conseguiu diminuir em 10 lances (de 85 para 75) o número necessário para concretizar a vitória.

13...Txf7 14 Cxf7 Rxf7
Segundo o analista do Gambit Soft, A. Schulz,
“Gulko provavelmente não admitiu que Shredder fosse capaz desse sacrifício”. E é aí que entra a justificada reclamação do meu amigo Pepe Ilegal: “É duro jogar contra essas máquinas: elas são completamente irresponsáveis...”

15 Bf4 Bb7
 Gulko descartou o natural 15...Cbd7 por que ele continuava sem acreditar na viabilidade do sacrifício em f7, e por que pretendia um cavalo “maior” em c6 sem impedir ...Bd6. Mas o melhor seria 15...Bd6! 16 Dd2 Bb7 17 c3 Cc6! 18 Bc4 Dc7 19 Bxd6 Dxd6 20 De2 Tf8 21 Bb5 g6 22 h3 Rg7 e as pretas manteriam uma pequenina vantagem de -0.28, conforme o Tiger.

16 c3 Cc6 17 f3!
As pretas devem evitar qualquer tipo de troca, pois um final justificaria a torre contra bispo e cavalo - tal como não ocorre no meio-jogo com o tabuleiro cheio de peças. Daí por que o Shredder se apressa em evidenciar os seus “canhões de Navarone”.

17...exf3 18 Bxf3 Dd7 19 De2! Te8?
O próprio Gulko lamenta não ter feito o roque artificial, com 19...Tf8!?, temendo 20 Tae1 Cd8 21 Bg4 Bf6 22 Be5 com incômoda iniciativa. Aqui, ele foi vítima do “choque do capivara”: quando soltou a torre em e8, sentiu no mesmo instante a dimensão de seu lapso - aquela famosa “descarga elétrica” que atormenta o Gigantão todos os dias.

20 Bh5+! g6
Se 20...Cxh5 21 Dxh5+ Rg8 22 Bxh6! Bf6 23 Dg4 Df7 24 Tf2 Ba6 25 Te1+/- +1.12.

21 Bg4 Cxg4
Ou então, 21...h5 22 Bh3 Dd5 23 Tae1 Cd8 24 Be5 Rg7 25 c4 Da5 26 b3 Tf8 27 Df2 conservando a superioridade, +0.68.

22 Dxg4 Rg7??
Boris caiu na antiquíssima esparrela de acompanhar o metálico ritmo de seu adversário: “o computador jogava muito rapidamente e me induziu a acompanhar sua cadência”. Como paliativo, ele dispunha de 22...Tg8!? 23 Bxh6+ Re8 e a partida ainda estaria distante de seu término.

23 Bxh6+!! Rxh6 24 Dh3+ Rg7 25 Tf7+!!, 1-0. As brancas dão mate em 5 lances.


Soluções
632 A (D. Mahatadze, Vani 1985 - MH) 1 Dd3+!! Rxd3 2 Cb4+ Re4 3 Cd2+ Rxf4 4 Cd3+ Rg5 5 Ce4+ Rg6 6 Ce5+ Rh7 7 Cf6+ Rh8 8 Cg6#.
B (G. Zahodjakin, Zetledelsky Novity, 1961) 1 Te4! (zug) 1…Ca5 2 Txa5 Rxf2 3 Tf5#. Se 1 Te8? Ce8!; 1 Te6? Cd6!; 1 Tee5? Cc5!

 

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