: : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :   CRÔNICAS    : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : : :
 

  Kramnik x Leko - 1
 

 

 

   No Hotel Kempinski Corvinus, em Budapeste, Hungria, sob o patrocínio da gigante energética alemã RWE Gas, realiza-se entre 2 a 8 deste mês um match em 12 partidas rápidas (25’) defrontando o atual campeão mundial da BGN, Vladimir Kramnik (25.06.75 Rússia 2.798) e o quinto colocado do ranking mundial da FIDE, GM-A Peter Leko (08.09.79 Hungria 2.747).

     Com duas partidas diárias, que os internautas podem acompanhar on-line pelo site http://www.chessgate.de/, esse match estava se notabilizando pelo elogiável acirramento dos embates. Até a sexta rodada, apenas três empates foram registrados e Kramnik (+2 -1) vencia por 3.5 a 2.5.

     Ano passado, em promoção semelhante, Leko vencera o então campeão mundial da FIDE, Alexander Khalifman, pelo expressivo escore de 4.5 a 1.5. Na Olimpíada de Istambul 2000, Leko voltou a vencer o Califa no memorável duelo Hungria-Rússia, vencido pelos magiares. Somente agora, em Nova Delhi, pelo campeonato do mundo, Califa conseguiu desforrar-se, eliminando o jovem Leko.

     Sobre sua derrota (‘‘sem desmerecer a vitória do Califa’’), Leko revelou que naquela ocasião estava doente. Mas há quem prefira dizer que ele ficou doente...

     KRAMNIK x LEKO (1ª p. RWE Match 25’, Budapeste, 02.01.01 — Grunfeld, D 85) 
1 d4 Cf6 2 c4 g6 3 Cc3 d5 4 Cf3 Bg7 5 cxd5 Cxd5 6 e4 Cxc3 7 bxc3 c5 8 Be3 Da5 9 Dd2 Cc6 10 Tc1 cxd4 11 cxd4 Dxd2+ 12 Rxd2 0-0 13 d5 Td8 14 Re1 Ce5 15 Cxe5 Bxe5 16 f4 Bd6 17 Rf2 e5 18 Bc5!! Bxc5+ 19 Txc5 exf4 20 Rf3 Bd7 21 Bd3! Tac8 22 Thc1 g5 23 Tc7! Txc7 24 Txc7 Ba4 25 Rg4! h6 26 Txb7 Td7 27 Tb4 Bd1+ 28 Rf5! Rg7 29 h4 f6 30 hxg5 hxg5 31 e5 fxe5 32 Rxe5 f3 33 gxf3 Bxf3 34 d6 Td8 35 Bf5 Bc6 36 d7! Tf8 37 Td4!, 1-0.

     LEKO x KRAMNIK (4ª p. RWE Match 25’, Budapeste, 03.01.01 — Espanhola, C 67) 
1 e4 e5 2 Cf3 Cc6 3 Bb5 Cf6 4 0-0 Cxe4 5 d4 Cd6 6 Bxc6 dxc6 7 dxe5 Cf5 8 Dxd8+ Rxd8 9 Cc3 Bd7 10 Td1 Rc8 11 Cg5 Be8 12 Cge4 b6 13 b3 c5 14 Bb2 Cd4 15 Td2 Rb7 16 Cd5 Td8 17 c4 Bc6 18 Bxd4 cxd4 19 Txd4 Ba3 20 Td2 The8 21 Te1 f6! 22 exf6 Bb4! 23 f7 Txe4 24 Txe4 Bxd2 25 Te7 Bxd5 26 Te8 Bxf7 27 Txd8 Bc3 28 Td3 Bf6 29 f4 Bg6 30 Td1 h5! 31 Rf2 Bc2 32 Td2 Bb1 33 Rf3 a5 34 g3 Bc3 35 Te2 Bf5 36 Te7 Rc6 37 Re2 Bf6 38 Te3 Rc5! 39 Rd2 Rb4! 40 Rc1 Ra3! 41 Te2 a4 42 bxa4 Rxa4 43 Te8 Rb4 44 Th8 g6 45 Th7 c6 46 Tc7 Be4! 47 h3 Txc4 48 g4 hxg4 49 hxg4 c5 50 Rd2 b5 51 Tf7 Bc3+ 52 Re3 Bb1 53 f5 gxf5 54 g5 b4 55 g6 f4+! 56 Txf4+ Bd4+, 0-1.

     KRAMNIK x LEKO (5ª p. RWE Match 25’, Budapeste, 04.01.01 — Inglesa, A 30)
 
1 Cf3 c5 2 c4 Cf6 3 Cc3 e6 4 g3 b6 5 Bg2 Bb7 6 0-0 Be7 7 d4 cxd4 8 Dxd4 Cc6 9 Df4 0-0 10 Td1 Db8 11 e4 d6 12 b3 a6 13 Bb2 Dc7 14 h3 Tac8 15 De3 Ce5 16 Cd4 h6 17 Td2 Tfe8 18 Rh1 Ced7 19 f4 Bf8 20 Tf1 Db8 21 g4 Ch7 22 Tdf2 Ba8 23 Dg3 g6 24 f5 Bg7 25 Cce2 Cc5 26 fxg6 fxg6 27 De3 e5! 28 Cc2 b5! 29 cxb5 Cxe4! 30 Bxe4 Txc2 31 Cc3 Txf2 32 Txf2 Cg5 33 Bg2 Bxg2+ 34 Rxg2 Db7+ 35 Rg1 axb5 36 h4 Ce6 37 Ce4 De7! 38 g5 Cf4 39 gxh6 Bxh6 40 Dg3 De6 41 Rh2 d5 42 Cg5 Bxg5 43 hxg5 Te7! 44 Tc2 Df5, 0-1.


  V. KRAMNIK (2.770) x (2.743) P. LEKO (9ª p. RWE Gas Match 25', Budapeste, 07.01.01 -- Nimzowitch, E 42)

1 d4 Cf6 2 c4 e6 3 Cc3 Bb4 4 e3!
É evidente que não vamos comparar o campeão mundial com o sagaz meliante "Peixe Ensaboado", que conseguia ludibriar a polícia de todas as maneiras, mas que Vlado é escorregadio, lá isso ele é. Como se sabe, ele não abre mão da lógica variante de Capablanca (4 Dc2!) e no entanto, ei-lo agora adotando a variante preconizada por Rubinstein.

4... c5 5 Ce2 cxd4 6 exd4 O-O 7 a3 Be7
Observe-se que Vlado é alérgico a dobradura de peões em c3, pois tanto 4 Dc2 quanto 5 Ce2 cuidam de evitar esse desastre estrutural naquele ponto e que é comum em outras respeitáveis variantes
.

8 Cf4
Fiel ao seu estilo, Vlado pretere a tática e usual continuação 8 d5 em favor dessa sólida linha posicional, mas reconhecidamente incômoda. Uma pergunta: como será possível tanger esse exuberante corcel de f4? Vejam que ele, mais efetivo do que em f3, escoiceia o centro-maior em d5 e sua pata já alcança o garotinho de e6
.

8... d5 9 cxd5!
Com o cavalo em f4 a eficiência do bispo de c8 (...Bg4) desaparece. E outra, nos primórdios dessa linha, o objetivo era criar um ponto de ataque em d5 e fustigá-lo em seguida, via Be2-Bf3
.

9... Cxd5 10 Ccxd5 exd5 11 Bd3 Cc6 12 O-O Bg5
Num dos primeiros exemplos dessa linha, jogou-se o coerente 12...Bf6 13 Be3 g6, com equilíbrio. Gligoric-Matanovic, Tel Aviv 1966. E esse lance (12...Bf6) vamos encontrá-lo inda agora: 13 Be3 g6 14 Tc1 Bg7 15 Bb1 Ce7 16 Te1 Te8 17 Df3 e embora as brancas tenham um jogo preferível, ½-½ in 42. Timman-Anand, Wijk aan Zee 2000. O lance de Peter (12...Bg5) responde aquela pergunta sobre a eliminação desse portentoso cavalo em f4, mas essa operação vai render ao campeão mundial da BGN o par de bispos numa posição aberta.

13 Te1! Bxf4
O lance natural 13...Dd6, na terça-maior do cavalo de f4 e limpando a oitava fileira para o desfile de suas torres, está sujeito a sustos desagradáveis: 14 Ce6! Bxe6 (se 14...Bxc1? 15 Cxf8 Bxb2 16 Te8!+-) 15 Bxg5 Dd7 16 Tc1 Tfe8 17 Bb5 Bf5 18 Txe8+ Txe8 19 b4 Tc8 e as brancas detiveram uma pequena vantagem posicional, que souberam transformar em vitória, 1-0 in 37. Sokolov-Epishin, FIDE WCC Groningen 1997. Por issi, é preferível, primeiro, 13...h6 14 Bc2 Dd6 15 g3 Td8 16 h4 Bxf4 com paridade, ½-½ in 22. Khalifman-Anand, FIDE WCC Nova Delhi 2000.

14 Bxf4 Df6
O mais conhecido é 13...Dh4 15 Be3 (15 Dd2 Be6 16 Tac1 Tfe8=) 15...Be6 16 Dd2 Df6 17 f3 Bf5 18 Bf1 h6 19 b4!? Ce7 com chances iguais, embora 1-0 in 57. Epishin-Khenkin, Bundesliga 2000
.

15 Be5!
Capablanca puro: as brancas devolvem a vantagem do par de bispos pela eterna brancura do peão de d5. E o que vão sobrar no tabuleiro? Bispos de casas brancas, sendo que o das brancas ataca d5 e o das pretas, apenas defende essa fraqueza
.

15... Cxe5 16 Txe5 Be6 -- diag. 1
As brancas têm na debilidade de d5 uma vantagem microscópica, mas suficiente para que um dos mais fiéis seguidores do incomparável Capablanca consiga transformá-la gradativamente na ruina de seu adversário.

17 Dd2!
Observem que com essa turma do curso superior não há engano: na primeira oportunidade, eles suprem a falta de seu bispo de casas pretas com a própria dama. E essa damispo eventualmente também atua como torre
.

17... Tad8 18 Tae1 h6 19 T1e3 Bd7
Às vezes, um ponto fraco vale mais como um referencial do que como uma possível vantagem material (duvidosa, diga-se de passagem: 20 Txd5 Bc6 21 T5e5 Td5 e, sem cavalo no tabuleiro, dificilmente esse peão a mais das brancas consegue progredir). No Zonal de Rio Hondo, na Argentina, em 1966, depois de 23 lances, eu, com brancas, consegui contra Mecking a posição do 
diagrama
. Ainda jogamos até o lance 61 (23...g6 24 Dd2 Td5 25 Td1 Tad8 26 De3 Rg7 etc) e, sem conseguir quebrar-lhe a resistência, tive de conformar-me com o empate.
Aqui, também, Leko persegue essa mesma idéia, só que Kramnik intuiu que por trás de tal saborosa isca havia um pérfido anzol pronto para fisgar um empate.

20 h3! Dd6
No caso de 20...Tfe8, aí, sim, 21 Txd5 Bc6 22 De2! com grande vantagem.

21 Da5 Db6 22 Dxb6 axb6 23 Be2!
Depois de 23 Txd5 Bc6 24 Txd8 Txd8, com empate à vista. Vlado não está interessado em tomar esse peão, mas nas vantagens posicionais que a ameaça de tomá-lo podem proporcionar-lhe. E outra, lembrando que um final de torre (sem bispos), mesmo com um peão a menos, as pretas poderiam até perder, mas dificilmente as brancas conseguiriam ganhar...

23... Be6 24 f4 g6 25 Bd3
As ameaças são 26 f5 ou 26 Bxg6, ambas danosas. Como se percebe, o valor maior de uma posição assim está nas ameaças que se criam aproveitando o falso pretexto da fraqueza mais visível de d5
.

25... Bc8 26 Td7! Rg7 -- diag. 2
Posicionalmente, as brancas estão ganhas. Falta "apenas" ganhar, falta aquele trabalho de ourives que se para tantos é de uma dificultosa elaboração, para Capablanca era tão natural como o amanhecer
.

27 Bb5! Rf6 28 Tc7 Td6 29 Tec3 Tdd8 30 Te3 Td6 31 a4!
Após alguma hesitação, Vlado traça o plano definitivo de ação. Primeiro, é preciso manter as pretas numa camisa-de-força. Somente após sua total imobilização é que as  brancas criarão o acesso ganhador ao campo adversário.

31... Tdd8 32 Rf2 Td6 33 g4 Tdd8 34 Rg3 g5
Forçado, senão 35 h4 e 36 g5+, estrangulando de vez a posição do rei preto.

35 f5!
E lá se foi para o vinagre o bispo de c8. O torniquete se aperta e se o jovem Leko ainda opõe alguma tenaz, embora inútil resistência é por que, numa partida de 25', o tempo de alguém tem de cair -- nem que seja o dele.

35... h5 36 Tee7 hxg4 37 hxg4 Rg7 -- diag. 3
Aí está, não fora o movimento pendular do rei (...Rf6-Rg7) e Peter seria registrado como vítima de um dos zugs mais constrangedores da moderna história do xadrez. E quanto maior for o número de peças no tabuleiro, maior a humilhação do zug, maior o desnível entre um e outro jogador
.

38 Rf3! Rf6 39 Re3! Rg7 40 Rd3 Rf6 41 Rc3 Rg7
Lembramos também que algo como 41...Td6? permitiria 42 Be8, apressando o desenlace.

42 Rb4 Rf6 43 Ra3! Rg7 44 b4! Rf6 45 a5! bxa5 46 bxa5 Rg7
No final, rei é peça. Assim, as brancas têm exatamente uma peça de vantagem, como essa manobra de rei o demonstrou.

47 Rb4 Rf6 48 Rc5 Rg7
E aqui, arrematando o seu fino lavor posicional, Vlado vai calmamente tomar aquele maturado peão de d5. E ele pode fazer isso com o lance do texto ou mesmo com a sutil recomendação do Junior-6.0, 49 Ba4, impedindo 49...Tde8 e mantendo, ainda que por um lance apenas, o zug das pretas.

49 Be2! Tde8 50 Txe8 Txe8 51 Bf3!, 1-0.
Uma lição primorosa de um dos maiores jogadores posicionais de todos os tempos.

 

 

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