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   Buffon: "O estilo é o homem"
 

No duelo final, a convulsiva explosão de Ivanchuk versus a serenidade
gélida de Ponomariov

 

 

A - Br. jogam e ganham



B - Mate em 3 lances


    Como sempre acontece antes de um duelo de grande interesse, é comum examinarmos o estilo dos contendores (Ivanchuk e Ponomariov), que nos próximos dias (16-26) disputarão o cetro máximo da Fide. E sobre estilo não podemos nos furtar em reproduzir, ainda que parcialmente, uma crônica da lavra do mestre Ronald Câmara, escrita há 22 anos, mas de oportuna e significativa atualidade:

     "O intendente do Jardin de Roi, Georges-Louis Leclerc (1707-1788), mais conhecido pelo seu título nobiliárquico de Conde de Buffon, jamais imaginou que ficaria imortalizado na história da literatura por causa de sua incisiva definição sobre o estilo.

     No célebre discurso de recepção na Academia Francesa, proferido em 1753, esse famoso escritor e naturalista francês ressaltou o aspecto intrínseco do estilo que não pode ser dissociado de seu autor, sintetizando o seu pensamento na frase clássica: "Le style est de l'homme même" (O estilo é do próprio homem).

     Antes de apreciar esse tema fascinante, parece oportuno lembrar a origem desse vocábulo, recorrendo para isto aos préstimos do filólogo chileno Roberto Acuña, em seu excelente livro Semántica Española, quando nos diz:

     'Os antigos se valiam de um ponteiro ou haste metálica para escrever sobre tábuas enceradas. Para este efeito, uma extremidade desse pequeno instrumento, chamado de 'stylus' pelos latinos, terminava em ponta, com a finalidade de gravar a cera e a outra extremidade, em forma de espátula, para espalhá-la e poli-la, quando fosse conveniente. Mais tarde, por metonímia, o nome desse instrumento veio a servir para denominar o modo peculiar de falar, de escrever e, de um modo geral, de realizar obra artística'.

     Se "um estilo literário é a expressão de um estilo de vida ou de uma visão interpretativa", como enfatizou o crítico português Fidelino de Figueiredo, o estilo enxadrístico também está intimamente ligado ao caráter e personalidade de cada jogador.

      Assim, os tipos extrovertidos, exuberantes e comunicativos são partidários das posições abertas, francas e repletas de possibilidades táticas; já os temperamentos introvertidos, taciturnos e ensimesmados têm predileção pelos esquemas complexos e emaranhados.

      Os jogadores calmos e comedidos buscam soluções cautelosas e simples, enquanto que os audaciosos e inquietos são ávidos de situações ricas em combinações e não temem em assumir os maiores riscos e perigos para realizarem os seu arrojados planos.

     Na prática magistral, avultam os exemplos dessas principais categorias de jogadores e, no seu admirável livro 'O desenvolvimento do estilo enxadrístico', o notável didata e ex-campeão mundial dr. Max Euwe cita como modelos Mikhail Tahl e Tigran Petrosian; o primeiro como excelente tático e combinador e o segundo como extraordinário estrategista e jogador posicional".

     E quando o comportamento de um jogador vai além da extravagância permitida? É claro que não estamos nos referindo a Ruslan Ponomariov, que em sua tenra idade (11.10.1983) ainda não teve tempo para consolidar sua profissão de fé ou seu estilo enxadrístico.

     Ruslan vem se notabilizando por uma incomum regularidade. Sua afabilidade é cativante, aliando sua cultura e educada atenção a um sólido estilo capablanqueano. Atualmente, está matriculado na faculdade de Direito de Lvov e espera conciliar ambas as carreiras profissionais. Ruslan recebe o apoio das autoridades ucranianas e tem o patrocínio de uma empresa industrial, que lhe permite dedicar seis horas diárias em sua preparação técnica.

     Sobre o atual cisma do xadrez mundial, o GM-A ucraniano acredita que "se tivéssemos uma organização forte, contando com a cooperação de todos, isso atrairia patrocinadores e o xadrez seria mais profissional. Diminuir o tempo de reflexão foi uma boa idéia. Falta melhorar as transmissões via Internet, com comentários didáticos para o grande público. E quem sabe, assim, talvez possamos entrar também na televisão"

     Vassily Ivanchuk (18.03.1969) é uma das personalidades mais raras de que se tem notícia no topboard magistral em todos os tempos. Não é exibido, não reclama de nada, não faz política nem tem inimigos. Em compensação, há certos episódios em sua vida que dificilmente aconteceriam com outros enxadristas.

     Há pouco, logo após classificar-se para a final do presente WCC-Fide, indagado se era "realmente um fanático do xadrez, tão absorvido pelo xadrez que nada lhe interessa se não se relaciona com xadrez", ele admitiu que sim, porquanto o xadrez, além de trabalho, é sua devoção.

     Assim eu descrevi uma das participações de Ivanchuk num dos supertorneios de Novgorod (DP, 07.03.98): "No dia em que jogaria contra Topalov, líder da competição, Ivanchuk (que perdera duas partidas seguidas) foi flagrado num bar enchendo a cara de birita e se lamentando antes da partida, que 'esse torneio já perdeu o interesse para mim e eu quero é ir-me embora'.

     Iniciada a partida, ao cabo de poucos lances, o GM-A búlgaro Veselin Topalov, que ficara sabendo da 'fraqueza' de seu adversário, ofereceu-lhe um empate que foi, para assombro geral, prontamente recusado. Em seguida, Ivanchuk surpreendeu seu adversário com uma novidade teórica, derrotando-o numa partida mais tarde eleita por um júri internacional como uma das melhores do ano.

     Ivanchuk costuma ficar olhando para o teto, mesmo que lhe toque a sua vez de jogar. Para um leigo, isso pode parecer exagerada extravagância; os mestres, porém, sabem que essa deliberada excentricidade, esse falso desligamento não faz a menor diferença nos planos que ele esteja maquinando.

     Na quarta rodada do supertorneio de Linares (1998), contra Kasparov, ele simplesmente sumiu. Não o encontraram em lugar algum e já se passavam dez minutos do início da partida. Um garçom encontrou-o num terreno baldio, sem camisa, fazendo ginástica. Kasparov recebeu-o com uma cara congestionada, mas mesmo assim não conseguiu ir além de um empate".

     Num desses supertorneios de Linares, na Espanha, logo à sua chegada, comunicaram-lhe da necessidade de sua presença junto à direção do torneio para resolver "uma questão de dinheiro". Intrigado, ele foi lá ver do que se tratava. E o seu rosto não traía qualquer emoção quando o Diretor Geral desse torneio, Don Luis Rentero, estendeu-lhe um envelope, dizendo:

     — Isso aqui são os 6.500 dólares que o senhor se esqueceu de receber no ano passado...

     O estilo de Ivanchuk se notabiliza por um esmerado trabalho teórico aliado à sua irrefreável tendência para o jogo tático, não se furtando, porém, a qualquer enfrentamento posicional. Vejamos um exemplo de seu estilo contra Shirov, célebre jogador de ataque, que nos faz lembrar os versos de José Hernandez, no seu imortal Martin Fierro: "Com los blandos yo soy blando y soy duro com los duros!".

Ivanchuk x Shirov (4ª rod. Corus, Wijk aan Zee/HOL 2001 - Siciliana, B 90)
1 e4 c5 2 Cf3 d6 3 d4 cxd4 4 Cxd4 Cf6 5 Cc3 a6 6 Be3 Cg4 7 Bg5 h6 8 Bh4 g5 9 Bg3 Bg7 10 h3 Cf6 11 Bc4 Db6 12 0-0! Cxe4 13 Cxe4 Dxd4 14 Cxd6+! exd6 15 De2+ Be6 16 Bxe6 0-0 17 Tad1 Df6 18 Bd5 Cc6 19 c3 Tad8 20 Tfe1 Dg6 21 a4 Rh7 22 Bxc6 bxc6 23 Dxa6! d5 24 a5! f5 25 Be5! Ta8 26 Db6 Tf7 27 b4! f4 28 f3 h5 29 Df2 Bh6 30 Bd4 g4 31 hxg4 hxg4 32 fxg4 f3 33 gxf3 Taf8 34 Rg2! Txf3 35 Dxf3 Txf3 36 Rxf3 Dc2 37 a6! Dh2 38 Be5!! Da2 39 Ta1! Dc2 39 a7 Dd3+ 40 Rf2!, 1-0.

 


Respostas - 620
A (B. Korolkov, Lelo, 1951 -- 1º pr) 1 f7 Ta6+ 2 Ba3!! (2 Rb2? Tf6!) 2...Txa3+ 3 Rb2 Ta2+! 4 Rc1! Ta1+ 5 Rd2! Ta2+ 6 Re3 Ta3+ 7 Rf4 Ta4+ 8 Rg5 Tg4+! 9 Rh6! Tg8! 10 Ce7!! Be6 11 fxg8=D+ Bxg8 12 Cg6#.
B (B. Sidorov, Maladansky Komsomol, 1983 - 2ª MH)
1 Da1! b5 2 Da3+ b2 3 De3#; 1...b2 2 Da8!! Ba2 3 Dh1#.

 

 

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