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Um sinal sensível

       Falar do Mestre Ronald Câmara, sua inteligência, memória privilegiada e envolvimento, ao longo da vida, do mundo fascinante do xadrez, que o projetou internacionalmente, os apresentadores deste livro o fizeram em síntese perfeita. O seu retrato está feito e acabado em Ao mestre com carinho.

      Mas persistem os contra-espelhos em qualquer retrato, por mais fiel que ele seja. É que cada um que vê um retrato – escrito, pintado ou fotografado – busca instintivamente somar-lhe mais alguma coisa, não para sanar defeitos, mas somar qualidades para enriquecê-lo.

      Vejo Ronald Câmara, portanto, tal como está posto, e a ele acrescento ligeiras perspectivas, que só enobrecem o retratado. Não fosse o xadrez em sua vida, teria, quero crer, se voltado para as letras e para as artes. Porque Ronald Câmara é um intelectual e um artista. E o artista sente arte em tudo que o cerca. Eis por que sempre se comportou com tanta dignidade diante do universo quase cósmico e envolvente do xadrez.

      É da sua personalidade, da sua maneira de ser, das auras que recebeu dos deuses. Sempre o vi assim. Nunca abriu mão, nas divergências políticas que envolviam o xadrez, na nossa ter-ra ou fora dela, dos seus pontos de vista. Não em defesa de resoluções pessoais, mas em favor da dignidade dessa arte maior, que não pode sofrer nenhuma lesão ante questiúnculas que a maculem.

      Ronald Câmara sempre foi um intelectual digno diante da digna arte do xadrez. Que se re-pita: Ronald Câmara é, para além do Mestre, respeitado no Brasil e no exterior, um artista. E como todo artista verdadeiro, sempre apoiou e se mostrou paciente, compreensivo e dadivoso diante dos que se iniciam e ainda claudicam no Nobre Jogo.

      Nas nossas conversas, nos nossos encontros e refeições, na sua residência ou num restaurante, o assunto sempre foi variado, com a presença do jurista de muitos anos Erbe Firmeza. Ali estava eu diante de um amigo extremamente gentil, simples, bom conversador e bom ouvinte. Pensei sempre comigo: não fosse o xadrez e um intelectual brilhante, dali surgiria um notável escritor. Quem sabe, ele alguma vez pensou de mim: não fosse um escritor, esse capivara poderia ser um bom enxadrista.

      Mas as coisas, nesta vida de vielas e escorregos, não acontecem assim. Acontecem pelo fascínio que nos arrebata de imediato. São as tais tendências, são os tais pendores. Ronald Câmara fascinou-se pela Arte Enxadrística. O meu fascínio, embora admirando vivamente o xadrez, voltou-se para o mundo das letras.

      Ronald poderia ter produzido mais? Poderia. Mas nem sempre a quantidade supera a qualidade. Tudo nele, no mundo do xadrez, é de fino lavor, eis que é, igualmente, um perfeccionista. Mas não permite, por intuição criadora, que esse perfeccionismo bordeje o artificialismo, que o prejudicaria, não lhe daria a personalidade enxadrística que criou, e não seria um Mestre.

      Vê-se bem isto nas análises que ele próprio faz de Minhas Partidas Favoritas. É rápido, sucinto, dono de um como dizer objetivo e límpido, arma poderosa dos bons escritores. Claro, que muitas outras partidas poderiam se somar a estas, sem perda de qualidade. Mas o autor, de qualquer coisa, tem seus filhos preferidos. Estes são um espelho fiel de um homem que soube palmilhar, dentro da arte que escolheu, e fora dela, o seu caminho com persistência, amor e dignidade.

      Talvez ele não aceite o elogio, mas pelo que ele construiu e realizou é ele um sinal a mais, junto com tantos outros, no Brasil e fora dele, que prova e comprova que a Humanidade vale a pena...

 


Caio Porfírio Carneiro
 
Enxadrista, escritor e secretário da
UBE –
União Brasileira de Escritores, SP

 

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  Dr. Ronald Câmara
  Rua José Vilar, 3344
  Fortaleza   –    Ceará
  60125-001


 

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